A força das palavras

É digno de extremo pesar reconhecer que o texto inaugural do nosso Tablóide tenha necessariamente que versar sobre os ímpios acontecimentos que se deram mais recentemente em nosso país.

“Aí cai na mão daquele ilustre ministro moreno escuro do supremo e já viu, né?”, disse em plenário certo deputado. Outro desses deputados, a quem acho ainda menos digna a menção, em caso amplamente divulgado pela mídia, associou o relacionamento com uma mulher negra à promiscuidade.

Já havia pensado no tema desse texto desde o primeiro ocorrido. Eu falaria sobre a falácia do “politicamente correto”. De como é simplista a noção de que a Língua pode ser capaz de cercear e reger as relações sociais. De como é inútil substituir-se “viado ou sapatão” por homossexual, “cabeça chata ou amarelo”, por nordestino, “preto ou moreno escuro”, por afro-descendente, etc. E de como não se exclui um conjunto de idéias preconcebidas apenas trocando-lhes, latebrosamente, o vocativo!

Aí veio a confirmação da minha tese. Expressa-se, em rede nacional e em absoluto desprovimento de pudor, uma opinião racista e preconceituosa sem que, imediatamente, se declare voz de prisão ao meliante!

Não entender as opiniões proferidas por esse e por outros delinqüentes como a violência que elas são é o que nutre todo o problema. É mister que se sublinhe a diferença entre uma opinião polêmica e um crime.

É crime contra o ser humano que se pense em superioridade advinda de qualquer característica física, conduta sexual, classe social, gênero ou orientação religiosa.

É crime que se discrimine outro ser humano em qualquer instância, seja ela prática ou ideológica, baseando-se em um conjunto de pensamentos pré-moldados histórica ou culturalmente.

É crime que se atente contra a integridade física E/OU moral de qualquer outro cidadão.

Os passos que devem ser dados para que se alcance plenamente essa percepção são lentos e demasiado largos. De forma nenhuma garantidos pela letra da Lei, e nem perto de serem garantidos pela inserção ingênua de uma nova palavra ou expressão ao vocabulário padrão e pronto, tudo resolvido!

Trata-se de uma árdua caminhada, que exige completa atenção, uma vez que é tão mais difícil vencer o lugar-comum das pré-concepções quanto é mais gratificante. Uma caminhada cuja garantia de sucesso reside apenas no pensamento de que seu fim ainda corre muito longe. Mas, acima de tudo, demanda a completa solidarização com os mais prejudicados ao longo desse caminho, as vítimas cotidianas dessa violência. E exige mais, que lutemos da única maneira efetivamente possível: que nunca nos ocultemos perante a violência e que, por cansaço ou simples desgosto pela humanidade, nos calemos!

Mariana Musa

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15 Respostas para “A força das palavras

  1. Ricardo Figueiredo Pirola

    Ótimo texto para inaugurar o Tabnarede. É para falar, palpitar, criticar, gostar e desgostar que o blog vem ao ar. A força das palavras da Musa me agrada sempre. Vida Longa ao Tabnarede!!!!!

  2. Ótima estréia, Musa.

  3. paula palamartchuk

    BRILHANTE!!!!

  4. Obrigada pelo texto, Musa. Muito util. Vou encaminhar a todas as pessoas cinicas, reacionarias e preconceituosas que replicam, quando eu solicito cuidado com os termos: “ah, mas se os proprios gays se chamam, entre si, de ‘sapa’, ‘sapata’, ‘bicha’, ‘viado’, etc, por que eu nao posso fazer o mesmo???”. Haja paciencia. Haja palavras para explicar. Mas ainda nao eh tempo de cansaco. Nao para nos. Sigamos.

  5. Parabéns Musa! Desde longe e quase perto tenho pensado e vivido o preconceito e o “politicamente correto”. Em uma classe de espanhol, onde todas eramos mulheres (Brasil, Russia, Polonia, Estados Unidos, Irlanda, Marrocos, Japao, Costa Rica, Alemanha) menos o professor, discutimos um dia as transformaçoes juridicas dos termos preconceituosos, chegamos a conclusao que em todos os nossos idiomas (e experiências) as palavras utilizadas logo tinham que ser substituídas por outras, e logo por outros térmos, por expressoes gigantes, porque sempre o discurso se apropriava de todas elas para o mesmo fim, de discriminar.

  6. Eu tenho essa sensanção tb. Mal ou bem comparando, essa discussão me lembra o futebol: a cultura do fair play. Fico puto com o moralismo disfarçado e com a institucionalização das coisas que mais insensibilzam as atitudes espontâneas. Nesse caso, os atletas não podem fingir serem agredidos e com isso conseguir a expulsão de um adversário, não podem meter o pau no juiz quando se sentem garfados…
    Não acho isso nem de longe tão delicado quanto os preconceitos citados no post, mas coloco no mesmo pacote pq tudo está tão tucanado que sem alternativas, seja de atitude, seja em palavras, só resta a hipocrisia. Esta, por sua vez só desmascaradas por animais como o brontossauro… parabéns pelo texto!

    • Há quem diga que o “politicamente correto” é discurso burguês disfarçado, mais palatável e também imperativo, todos se sentiriam impelidos a adotar.

  7. Quinta-feira estava dando minha aula de escravidão, e as reações tradicionais dos alunos começaram: eu não tenho nada a ver com isso, aconteceu há mais de cem anos, o sistema de cotas é racista, etc, etc, etc,. Fiquei tão puto que avisei que não falava mais sobre racismo se eles utilizassem os argumentos da revista Veja.
    Por isso acho muito importante que estajamos na net. Pode até ser quixotesco, mas ficar sem fazer nada, não dá.

    O Tabnarede vai arrebentar.

    Parabéns,

  8. sensacional!

  9. Musa, adorei o seu texto.

  10. é… continua dificil de se entender nao é?!

  11. Má, você é primorosa tanto na escrita quanto nas ideias. Tenho muito orgulho de tudo o que te compõe!
    Tentei comentar seu texto lá no blog do Iuri, mas não consegui… 😦

    Vida longa aos seus pensamentos! É o que desejo muito!

    Beijos da amiga de longe!

  12. Pingback: Quem tem medo do “politicamente correto”? |

  13. Pingback: Por que temos medo de andar na rua de noite? Marcha das vadias e os feminismos |

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