Fome de quê?

Se durante uma semana ficarmos assistindo às programações da TV aberta ou fechada veremos a dedicação exaustiva das emissoras aos programas de beleza, saúde e bem-estar. Os jornais impressos também ampliaram seus suplementos, adicionando semanalmente artigos de bem-estar, alimentação, esporte, saúde, beleza, etc. É tanto verde, tanto sustentável, tanta “dica”, receita, técnicas e novidades que dão preguiça só de pensar. Às vezes fico me perguntando se eles estão falando com seus pares “super saudáveis” ou com aqueles que realmente precisam.

O bem-estar virou tema até na área de recursos humanos. Um monte os consultores de imagem, headhunters do mercado de trabalho não se esgotam em dar dicas de aparência: “não use decote”, “não use roupa apertada”, “mantenha um peso saudável”, e até mesmo o Estado negou, meses atrás, o ingresso de uma professora no concurso público, pois ela era obesa para os padrões. Ok, de que padrões a gente está falando mesmo? Beleza? Saúde? Segurança alimentar? nutricional?

Se for em busca de um padrão institucional, só em 2004 o IBGE começou a mensurar o perfil de segurança alimentar no Brasil e somente no ano passado foi estabelecido, pela primeira vez a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Claro que antes disso, sabemos que o Brasil sempre enfrentou sérios desafios com a fome e a pobreza absoluta.

No entanto, esses números parecem incoerentes quando comparados com o aumento de pessoas com problemas de sobrepeso, obesidade ou que sofrem com as doenças decorrentes da má alimentação e do aumento de peso no Brasil. Aliás, já se tornaram um problema de saúde pública e ganham cada vez mais espaço na mídia, aliados ao crescimento do número de cirurgias estéticas e gástricas – especialidades essas que colocam o Brasil entre os primeiros no número de cirurgias plásticas realizadas.

Mas é fato que durante anos ouvimos falar da pobreza e da fome no Brasil, e pra sair do senso-comum, o perfil de segurança alimentar no Brasil, elaborado pelo IBGE, detectou que em 2009, 30,2% da população brasileira se encontrava em situação de insegurança alimentar grave, moderada ou leve, índices esses que se concentram majoritariamente nas regiões Norte e Nordeste. E onde está esse gargalo entre a insegurança alimentar e o número crescente da obesidade?

Sem contar as dicas de especialistas da boa forma, tenho cada vez mais convicção de que a alimentação faz parte de um conjunto de políticas para além do combate à fome. A relação que estabelecemos com a comida (muitas vezes, paranóica) perpassa sim por uma política de educação, de economia, de orientação. Obesos subnutridos é a incoerência para um país que por décadas lida com a insegurança alimentar. Diminuir o consumo de certos alimentos, mudar padrões alimentares, propor novos olhares e novas escolhas para a comida e para a sua produção é um desafio quando o poder de compra e a oferta de produtos estão escancarados para nós. Escolher o que comer e quando comer ainda não é uma realidade para todos, mas caminhamos para isso e, para tanto, pautar a alimentação como um ponto político de saúde, educação e de economia é um assunto muito mais do que estético.

Gisela C. Geraldi

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6 Respostas para “Fome de quê?

  1. Ricardo Figueiredo Pirola

    Gisela, muito bacana seu texto. Sem dúvida alguma a questão da alimentação é muito mais que estética. Está inserida em um emaranhado de debates políticos, econômicos e sociais. A alimentaçao tem também a sua história. Valeu.

  2. Na minha opinião você apresenta dois pontos cruciais, ambos vinculados à cultura de consumo: um do corpo, que é martelada dia e noite com lindas(os) e esculturais nas propagandas, novelas, bbb, banca de jornal… o outro do consumo de alimentos. O bolsa família e as demais melhorias econômicas trouxeram muita gente para a classe C, mas apenas inserindo-as no mercado consumidor. Infelizmente nenhuma de nossas classes econômicas tem cultura, educação e saúde publica de qualidade. Ao mesmo tempo, existem milhares de marcas que produzem ‘alimentos’ a preços muito mais acessíveis do que comidas de qualidade. O resultado é o que você apresentou.
    Ótima reflexão, dá muito pano pra manga.

  3. Boa reflexão mesmo, Gi. Está na hora de levarmos esse papo a sério, pensei aqui que refletir sobre o que se come e como tem que levar em conta também nossas diferenças regionais e culturais no Brasil. Há muito o que se explorar.

  4. Gostei muito, Gi. Seu texto me fez pensar se ambos os extremos que vc aponta (a miséria absoluta e a abundância exagerada) não são faces de uma mesma moeda: a classe mais desfavorecida da população, quando contrastada com a elite, ainda sai sempre perdendo no quesito saúde e qualidade de vida! Afinal, que a elite não passa necessidades sabemos, mas, da mesma forma, quem já viu alguém muito rico absurdamente obeso??? Eu não.

    • Acredito Musa, que pensar nisso vai muito além do pobre magro/obeso ou do rico magro/obeso, mas sim da oportunidade de se escolher comer, de comer bem, ter acesso à produtos, saber a origem deles, enfim, daí sim, essa diferença exclui grande parte da população, diria que mais dos que os 30% que estão em insegurança alimentar e nutricional atualmente. E talvez essa seria uma nova etapa para Programas de erradicação da fome. Acabar com a fome é um passo, e comer o quê é outro.

  5. exatamente… foi o que eu quis dizer, comer bem ainda é para poucos!

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