A consciência política do “povão”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em documento que pretende orientar a oposição no cenário político atual explicitou sua opinião sobre os “movimentos sociais” ou “povão”, como ele mesmo prefere. Segundo FHC, não caberia à oposição disputar o voto das “massas carentes e pouco informadas”, pois já estariam cooptadas com “benesses e recursos” do governo do PT, que contaria inclusive com o apoio da mídia.

FHC tem demonstrado um desespero cada vez maior com o papel secundário que ocupa no jogo político atual e com as comparações de seu governo com o de seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Há três eleições presidenciais que o seu partido não vence, sendo que em duas delas concorreu com seu “afilhado político”, José Serra. Além disso, ao final do ano de 2010, Lula encerrou seu mandato com quase 90% de aprovação, enquanto FHC chegou ao fim de seu governo em 2002 com um índice de apenas 40%. De fato, são derrotas difíceis de engolir.

Dizer que o “povão” não passa de uma massa carente e pouco informada é, no mínimo, um grande erro de estratégia política. A repercussão de seu texto foi negativa inclusive dentro do próprio PSDB e de outros partidos aos quais é coligado. Todos sabem que não é nada rentável, em termos eleitorais, se indispor com a maioria dos eleitores brasileiros. Contudo, o texto revela muito mais do que um erro de estratégia, escancara a visão de FHC sobre a sociedade brasileira. Ao dizer que o “povão” é cooptado por conta de benesses e recursos do governo do PT, FHC transforma esse mesmo “povão” em simples massa de manobra política. Um grupo disforme, sem visão própria da situação em que vive, volúvel às “benesses e recursos” do governo. Nada poderia ser mais preconceituoso e errôneo do que isso.

Os movimentos sociais ou o “povão”, diferentemente do que pensa FHC, têm sua própria visão política, não é massa que se molda de acordo com o maior ou menor volume de “benesses e recursos”. O que FHC não percebe (ou talvez tenha medo de perceber) é que o “povão” tem agido em relação ao governo do PT de Lula e Dilma como uma classe social. E como toda classe social se move em nome de seus próprios interesses (a partir de experiências herdadas e partilhadas) em oposição a outros grupos socais. Historicamente as elites resistem em ver nas camadas mais baixas a possibilidade de ação e organização própria. Na história do Brasil, por exemplo, aos escravos foi sempre negada a capacidade de lutar por seus próprios objetivos, sem a tutela e ação dos brancos. FHC, em outros tempos, colaborou para a construção da imagem dos escravos como sendo incapazes de “ação autonômica”, cuja “consciência registrava e espelhava, passivamente, os significados sociais que lhe eram impostos”.

Os escravos, contudo, fizeram muito mais do que foi capaz de ver FHC. Organizaram-se coletivamente em movimentos de rebeldia contra a escravidão, entraram na justiça em nome da libertação do cativeiro, juntaram-se em grupos para comprar a alforria e brigaram dia a dia por cada espaço cotidiano nas fazendas ou cidades do Brasil. O que revela não só o quanto os cativos sabiam exatamente o que desejavam, como ainda tinham a plena consciência das mais diversas estratégias que os conduziria à liberdade. É certo que, há alguns anos atrás, o “ilustre” sociólogo pediu para que todos esquecessem o que ele havia escrito, mas como ele insiste em reciclar velhas idéias, é difícil não voltar à baila.

A ligação dos movimentos sociais com o governo PT não nasceu durante os últimos anos em que o partido esteve no comando da presidência do Brasil. Fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores congregou (e ainda congrega) militantes de movimentos sindicais, de trabalhadores rurais, de grupos de defesa da igualdade das mulheres e de luta pela igualdade racial. O próprio Lula, presidente de honra do partido, foi um migrante pobre, operário e líder sindical, antes de ser eleito duas vezes para presidir o Brasil. A trajetória, portanto, de formação do partido e do próprio Lula (sua principal liderança) ajuda a entender a maior proximidade que o governo do PT tem com os movimentos socais. Mas isso ainda não explica tudo.

O “povão” elegeu Lula por duas vezes seguidas e votou ainda em sua candidata à presidência do Brasil porque se sentiu representado por ele e seu partido. Os projetos sociais do governo PT (na presidência de Lula e agora na de Dilma) foram ao encontro dos interesses do “povão”.  Não são simples benesses como diz FHC, representaram para milhões de brasileiros e brasileiras a possibilidade de fazer três refeições ao dia, de não ter que se submeter a trabalhos extenuantes em troca de comida ou salários indignos pelo país a fora e de poder mandar os filhos para a escola, ao invés de ter que mandá-los para o trabalho para complementar a renda familiar. O Brasil ainda não é o país justo e igualitário que esperamos, mas mudanças cotidianas, revolucionárias, têm sido feitas na vida de muitos brasileiros. Para entender seus significados, porém, é preciso olhar o “povão” mais de perto. Algo que FHC parece insistir em não querer fazer.

Ricardo F. Pirola

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7 Respostas para “A consciência política do “povão”

  1. Ricardo, excelente texto. FHC não vê nada além de Higienópolis. Se bobear, nunca desceu a Angelica, sempre subiu. Mas está clara a mudança de postura do PSDB. Finalmente assumiu que é uma direitona tradicional, com todos os preconceitos que isso implica.
    Não podemos esquecer que nesse conservadorismo religioso brasileiro, beijinho em santa rende 44 milhões de votos.
    Parabéns pelo texto!

  2. O manifesto do FHC é um show de horror e pior, não inova nem na ideia de oposição tucana… Chamar o povão de massa de manobra não é inédito no Brasil!
    Ótimo texto, Ricardo!

  3. E pensar que ele manteve a mesma noção de povo sem agência de quando ainda era um jovem pesquisador…

  4. ate o Estadao afirmou que FHC deu munição pra PSDC ser considerado “demofobico” e “elitista” http://tv.estadao.com.br/videos,fhc-deu-municao-para-adversarios-dizerem-que-psdb-e-demofobico-e-elitista,135391,260,0.htm
    e grouxomarxista fez uma analise do articulo do FH por outra perspectiva, bem interessante tb!!

  5. Ótimo texto, Ricardo! É sempre importante resgatarmos (a título de crítica, claro!) o ilustre texto do sociólogo e Prof. Dr. FHC! Ora, o que seria da academia se simplesmente apagássemos tudo o que já escrevemos, não?! Ai, ai…

  6. Luciano Carneiro

    Só não acho que seja surpreendente esse texto, vindo de quem veio.

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