O fim de semana que abalou o mundo?

Na sexta-feira, 29 de abril o mundo parou para ver o casamento real mais badalado do mundo. O herdeiro da coroa britânica se casou em fastuosa cerimônia vista, calcula-se por aí, por cerca de 2 bilhões de seres humanos (não vou colocar link porque certamente o leitor estará entre eles).

No domingo, dia 01 de maio, o Vaticano beatificou o Papa João Paulo II depois de apenas seis anos de sua morte. Milhares de fiéis estão a venerar seus restos mortais no altar central da basílica.

Ao anoitecer do mesmo domingo, fomos surpreendidos novamente: os EUA anunciaram o assassinato de Osama Bin Laden, em ação do governo norte-americano no Paquistão.

Resumo da ópera: a Monarquia, instituição arcaica do império onde o sol nunca se punha, procurou se fortalecer no charme e formosura de Lady Kate e do príncipe quase bonito. Como já havia incorporado elementos para lá de contemporâneos puderam contar com testemunhas como Sir Elton John e Sir David Beckham. É muita atualização, minha gente (diria hipoteticamente, Cromwell). A Igreja, diante de um papa carrancudo e de passado reacionário, desenterra, sem metáfora, o papa considerado bonzinho e promove a cerimônia de beatificação de João Paulo II preparando o terreno para a santificação do mesmo. O Império norte-americano, em meio a suas crises financeiras e políticas, enquanto o mundo pára e se pergunta “O que vem depois da hegemonia yankee?”, anuncia a captura e morte do inimigo número 1 do ocidente em roupagem para lá de controversa. Se fosse um episódio do CSI de Grissom o corpo não teria sido jogado no mar e, portanto,  até  a ficção seria mais verossímil.

Os professores de História Contemporânea daqui a alguns anos vão ter que dar aula sobre o fim de semana que abalou o mundo – o que eles dirão? É possível, como já vi comentado por aí, que o conjunto de episódios fantásticos seja a prova da fraqueza dessas instituições. Será mesmo?

Como eu não consegui formular nada que ajudasse a entender isso, resolvi pedir água aos leitores do Tabnarede e abrir aqui um fórum de discussões. E aí, gente? Deu cupim no mundo ou o quê?

Glaucia Fraccaro

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16 Respostas para “O fim de semana que abalou o mundo?

  1. Mariana Musa e Carolina Souza

    Não acompanhamos o casamento real, esquecemos a beatificação de João Paulo II e ninguém viu o corpo de Bin Laden. Se pudéssemos não compartilhar dos discursos que constroem esses fatos como algo significativo, eles simplesmente não chegariam a existir (afinal, alguém sabia que os moradores de Kangiqsujuaq tem menos de uma hora para terminar a coleta de mariscos antes da volta da maré?).
    Prova da força de qualquer poder é que, até na oposição, estamos legitimando a sua existência!

  2. Marina Berriel

    Alguem aqui acredita nessa baboseira de morte do Bin Laden??? Que ele ja tinha morrido metaforicamente falando, isso era obvio. Nao faz mais nenhum sentido esse tipo de debate… Eh ate de mau gosto. Mas me parece muito propicio que esta suposta morte do grande lobo mal da humanidade tenha vindo logo no momento que os EUA pisaram na bola legal… Matar filho de lider ja eh dificil de engolir, mas matar criancinhas???? Isso eh crime internacional. Em seu discurso, Obama so faltou terminar com: agora podemos dormir em paz…
    Pelo amor de deus, foi fechar com chave de ouro essa palhacada internacional!

  3. Marina Berriel

    So pra comentar a piada:
    1)adorei o principe quase bonito! oh tristeza essa genetica da familia real, se esse ta assim agora, imagine daqui a dez anos!
    2) beatificacao… ta mais pra medidas rapidas pra tentar salvar a moral da ja irremediavelmente decadente igreja catolica…
    3) morte de Bin Laden… corpo jogado no mar… como um presidente de uma potencia internacional, que estudou tanto, se presta a um papel tao ridiculo???Eu inventava uma morte mais verossimil!

  4. Já achei o casamento meio bobajoso (apesar de ter feito um google no vestido da Kate-já-Windsor assim que acordei). A beatificação me lembrou a falta da figura do advigado do diabo e me fez sentir melhor com minha decisão de carreira, porque, se o diabo não tem mais um advogado, no que depender de mim meus amigos não ficam sem. A morte do Bin Laden é piada pronta. A pior notícia do fim de semana ainda foi a desclassificação do Palmeiras.

  5. No quisito promover cranavais midiáticos este fim de semana não pareceu em nada com um momento de crise. Afinal, depois da Tunísia, Egito e Líbia, a Síria tinha poucas chances de vender estas montanhas de papel vagabundo repleto de trabalhos, digamos, apressados!
    Eu continuo com a turma do casseta e planeta, que defende a muito tempo que o Osama vive num cafofo nos morros cariocas, afastado da liderança do que quer que seja e, assim sendo, comemorou feito um louco a vitória antecipada do mengão que unificou os dois turnos do campeonato carioca!

  6. O Toyotismo chegou ao Vaticano, beatificação just in time. Pelo menos o Coringãoganhou do Palmeiras.
    Como eu continuo um idiota que não sabe usar o twitter, teve um discussão ótima, jogador da NBA arrebentando:

    http://espn.estadao.com.br/nba/noticia/189465_JOGADOR+DA+NBA+CRITICA+COMEMORACOES+PELA+MORTE+DE+BIN+LADEN

  7. Ricardo Figueiredo Pirola

    Acho curioso os americanos dizerem que procuraram o Osama durante muito tempo nas cavernas do Afeganistão. É cegueira demais em relação ao outro. Estaria nas cavernas com quem mais? Com o pé grande? Mentira ou não, o fato é que a morte de Osama caiu bem para o Obama em plena campanha de reeleição.

  8. A Kate, quase plebéia, casou-se com o príncipe quase bonito (ótimo!). O papa quase santo, foi beatificado. E o Oba!ma, quase morto politicamente, finalmente acertou o Osama, depois de tanta vezes quase.
    É, não pra entender quase nada.
    A não ser que estamos lidando com imagens, com elaboradissimas construções de poder e mídia. São imagens das coisas, das pessoas, dos fatos. Nada em si mesmo, apenas imagens que, afinal e como ensina a propaganda, valem mais que mil palavras.
    Dai, talvez, a quase falta de sentido de uma monarquia nowadays, de um papa com passado nazista, e de um presidente elegante, bem falante, informado, com esposa idem, num pais dominado pela arrogância ignorante dos falcões belicistas e perversos congêneres.

  9. Rompendo um protocolo, vou comentar os comentários, até porque o que eu propus foi mesmo uma discussão. E até porque discordo de quase todos vocês.
    Eu realmente acho que pouco importa saber se é verdade ou mentira que o Osama morreu. Quando a gente analisa Piero della Francesca fica se perguntando se Jesus existiu? Osama pode ainda estar no morro carioca, como bem alertou Joãozinho, mas vai fazer pouca diferença no cenário mundial porque não é essa questão que nos conduz. O que importa é o que as pessoas fazem com essas ideias. Ontem Obama foi aplaudido até por seus adversários, deve estar sentindo que cumpriu uma missão. E mais do que fortalecer o próprio presidente, acho que o episódio revigora o império, como o próprio Onze de Setembro fez.
    Eu gostaria de ver os que acham que a Monarquia e a Igreja decadente, argumentando um pouco mais. Onde está essa decadência que eu não vejo nas praças públicas de Roma, Londres e Nova Iorque?
    No mais, também discordo que falar dessas coisas é dar a importância que elas não tem, principalmente na esquerda. A esquerda já errou muito por fazer ouvidos moucos para as questões mais conjunturais e se ater a um modelo de transformação típico europeu. Laissez faire não é bem nossa postura, não?
    Só consigo, por enquanto, entender que a ofensiva da direita é uma realidade. Mas não sei dizer mais do que isso: essa ofensiva é maior ou menor do que de outros tempos? Ou ainda, sempre foi assim?

  10. Carolina Souza

    Não é porque a Igreja, a monarquia e os EUA ainda conseguem veicular sua ideologia que eles não estão em decadência. Com certeza, essas três instituições já dominaram mais o mundo do que hoje em dia. Os contos de fada sempre se encerravam com o casamento entre o príncipe e a plebeia, e a revelação, ao final, de que ela, na verdade, tb era nobre e, portanto, a ordem se mantinha.
    Ontem, o que eu li de comentários criticando a celebração dos americanos pela morte de Bin Laden deu orgulho.

  11. Eu não acho que a monarquia e a igreja estão decadentes. Essa bobagem de reerguer a monarquia acontece a cada ano. É patético ver o fetiche em torno de um casamento brega, a salvacão dessa instituição que nunca esteve ameaçada. Além da beatificação just in time do sujeito que acabou com a teologia da libertação e escondeu de forma vergonhosa a pedofilia do clero. Transforma-lo em santo é uma estratégia para apagar tudo o que o john paul the second fez de mais vergonhoso. A morte do Osama não significa nada, talvez um fôlego para a campanha de Obama em 2012. Volto ao argumento que já levantei lá no blog, a esquerda morreu no “mundo desenvolvido”. Morreu, acabou, sem chance de renascer. Dominique Srauss-Kahn, ex-chefão do FMI, é seriamente cogitado para ser o candidato do PS francês. A ofensiva da direita europeia não é uma ofensiva, é uma vitória já consolidada. Não podemos ficar olhando para lá e ter esperança alguma. Não servem para mais nada.
    Temos que seguir o nosso rumo. Foi o Hobsbawm que falou que o Lula mudou o equlíbrio de poder no mundo. Posso estar sendo muito inocente ou ingênuo, mas acredito que a geopolítica mundial mudou a nosso favor. Os EEUU ficam jorrando dólar no mundo, em algum momento isso vai acabar, depois das eleições de 2012. Aí a coisa vai ficar mais clara, o tamanho do poder do império será medido no ajuste que eles terão que fazer e no abalo que nós sofreremos com isso.

  12. A ONDA CONSERVADORA
    Segunda-feira, 8 horas da manhã, chego na escola e sou rapidamente bombardeada de perguntas sobre a morte de Osama Bin Laden. Ele realmente estava morto, perguntavam inúmeros alunos. Mesmo sem saber de praticamente nada (afinal eram 8 horas da manhã e eu apenas havia lido as manchetes sobre a “operação” americana), respondi que importava pouco saber se de fato aquilo era verdade ou não. Para mim, parecia ser mais importante saber o porquê disso agora, quem, neste momento, ganharia com o “espetáculo” da morte do “inimigo número 1 do Ocidente”. Ao chegar em casa e assistir ao noticiário, a onda de euforia dos americanos, a mídia em peso exaltando a morte do terrorista, como numa catarse nacionalista, e aí de fato fiquei assustada. Há sim uma onda conservadora vindo por aí e isso com certeza deve preocupar os historiadores. A imagem de ontem que pra mim ficou registrada foi a fotografia de Obama e toda sua “cúpula” assistindo ao “ritual” de execução de Bin Laden. Imagem terrível e decepcionante. Onde desembarcaremos? Obama tinha um discurso anti-militarista, prometeu a paz, mas na foto aproximava-se de seu antigo adversário, G. W. Bush. Hoje, no New York Times, notícia ainda mais alarmante: o informante que deu início ao rastro para chegar em Bin Laden estava em Guantánamo, sendo “interrogado” já há alguns meses. O “sucesso” da operação jogou a base militar (centro da tortura americana) no centro das discussões novamente. Daqui a pouco ninguém mais nos EUA questionará a necessidade dessa prisão infame.

  13. “(…) o conjunto de episódios fantásticos seja a prova da fraqueza dessas instituições. Será mesmo?” As instituições de fato mudaram, perderam espaço e hoje existe uma forte onda de crítica a essas instituições conservadoras, ditas poderosas e hegemônicas. Ver um casamento real por causa do vestido, rir do milagre do JP e duvidar da morte de Bin Laden já mostram que foi um fim de semana intenso, mas nem tão “uhu abalou” assim… O Zé disse uma coisa interessante “a esquerda morreu no “mundo desenvolvido”. De fato, essa esquerda como conhecemos já não é possível nos dias de hj, mas desconfio que a direita não consegue mais convencer simplesmente. O que mais me preocupa é essa leveza com que os “rituais” aparecem na TV, ressurgem e trazem consigo esses eventos como história da carochinha, do super herói, dos contos de fadas sem deixar claro pra que veio e onde quer chegar. Ver Obama satisfeito, JP santo e o casamento perfeito parece uma tríade de união do ociedente. Um esforço para parecer bem e triunfante. E particularmente, acho que não vão nada bem… essa receita de bom-mocismo tem validade e não convence a todos. De maneira torta (e tvz injusta), as respostas a essas ações vem à jato (ou de boing)…

  14. Concordo com a Flávia e com a Gisela. O mais preocupante (pra nós, é claro!) é esse avanço considerável dessa direita do catolicismo, dos casamentos reais, do (res)sentimento antiislâmico… enfim, da direita que exclui todos e tudo com que não se identificam. Mas será que é possível que a exposição dessas ideologias extremistas, tão evidentes e gritantes, não seja, na verdade, boa pro nosso contramovimento? Afinal, como discutir contra ideias apenas latentes ou, pior, camufladas sob o pano do “politicamente correto”?

  15. Marina Berriel

    Eu acho que so juntamos tudo no mesmo saco por compartilharmos de uma visao poilitica. Mas o Vaticano beatificar alguem pra tentar reavivar seu publico nao eh novidade nenhuma. Ja faziam isso no renascimento e fizeram o mesmo na unificacao italiana, por exemplo, santificando Thomas Morus- que, diga-se de passagem nao deve estar entendendo nada, enquanto toca sua harpa…afinal foi um critico feroz ao sistema da Igreja. Que a monarquia britania tenha se casado fazendo um espetaculo kitsh é outra coisa obvia ululante. Qual o sentido dessa monarquia que nao seja ser um espetaculo de simbolos arcaicos? Agora, outro assunto, muito mais serio a meu ver (nao que religiao nao seja serio, ou sistema politico) é o escandalo morte de Obama.
    Concordo com a Glaucia quando ela diz que a questao nao eh a morte ou nao do Bin Laden (eu so nao podia perder as piadas prontas…). O problema eh que, ao meu ver, eh um insulto a inteligencia alheia ressuscitar essa mumia politica para encobrir o que relamente esta em questao: PETROLIO. Os EUA nao podiam mais manter 3 guerras. E essa historia do Bin Laden nao era nem mais noticia, entao “mataram” o assunto para avivar o moral de um presidente e transferir as forcas para outro canto. O problema eh que eles estao mexendo em campo minado. Ainda nao aprenderam isso. Ate o imperio romano teve dificuldades em manter a paz no Oriente Medio, isso antes de Cristo, imagine agora com Cristo e com toda a imponencia ignorante norte-americana?

  16. Campo minado foi bom, sem metáforas! E adorei a historicizada! Monarquia e Igreja acionam as velhas ferramentas. E o império?
    Zé, eu acho que você levou a questão para um lugar bacana. Passei o dia pensando no que vem depois. Ainda que esse depois, seja já o que está rolando agora. Se Hobsbawm está certo, a América Latina (e quiça o mundo árabe) estão trilhando caminhos de transformação, o que estamos fazendo dela? Ainda tem a África… Que projeto de mundo está se formando? A utopia do socialismo acabou e até agora o Fórum Social Mundial não mostrou qual o outro mundo possível.

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