Xerifes paulistanos

“O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que julgava e distribuía a pena, e, ao mesmo tempo, o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não havia testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação para as sentenças que dava, fazia o que queria, e ninguém lhe tomava contas.”

Quem não se lembra do famoso romance de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias? A obra narra as aventuras protagonizadas por Leonardo no Rio de Janeiro em fins do século XIX, sempre perseguido pelo Major Vidigal, representante máximo da instituição policial daquela época, responsável pela ordem e correção, realizava prisões ao seu bel prazer.

Apesar de a obra descrever as injustiças geradas por um representante da polícia num passado distante, é possível perceber que tais personagens designados à manutenção da ordem pública parecem ser recorrentes na história política brasileira

Gilberto Kassab, ao ser reeleito em 2008, iniciou uma nova fase de administração pública para a cidade de São Paulo. Em um primeiro momento, demitiu os subprefeitos que tiveram uma má gestão. Coincidentemente, “os que foram mal” eram vinculados ao ex-subprefeito da Vila Mariana, Fábio Lepique, que, por sua vez, deixou o cargo para trabalhar na campanha do ex-governador Geraldo Alckmin [a respeito da briga destemperada entre a turminha picolé de chuchu, liderada por Kassab e a gangue leite com pêra, encabeçada por Alckmin, conferir esses posts].

Após demissão em massa daqueles considerados inadequados, Kassab passou progressivamente as chefias de subprefeituras de São Paulo para oficiais da reserva da Polícia Militar (PM). Hoje, 14 dos 31 subprefeitos são coronéis aposentados com previsão para mais dois serem indicados até o final do segundo semestre. E se você pensa que os fardados em cargos administrativos ficam restritos às gerências das subprefeituras, enganou-se. Mais 17 oficiais são chefes de gabinete e 24 trabalham em posições de segundo escalão, entre essas, as coordenadorias de planejamento e desenvolvimento urbano ou de projetos e obras.

Somando de lá e de cá, constatou-se que há mais de 50 oficiais aposentados da PM trabalhando nas subprefeituras de São Paulo. Mas, então, o que muda na administração da cidade com esses indivíduos na gerência das principais subprefeituras?

Regulamentadas na gestão Marta Suplicy (PT), as subprefeituras foram criadas para descentralizar, agilizar e democratizar a administração pública da capital do Estado. Elas representam, em última instância, o poder executivo em âmbito e extensão regional. Assim sendo, no comando dessas entidades, estariam os subprefeitos conjuntamente a conselhos da sociedade civil organizada, com a função primordial de possibilitar o desenvolvimento de suas regiões, diagnosticando de perto e solucionando as necessidades e pedidos da população.

Assim, mesmo que indireto, já que indicado pelo prefeito, o subprefeito é aquele indivíduo que atua como representante de um determinado espaço e que, portanto, trabalha com as demandas e especificidades daquele lugar. Porém, sob a égide da “ordem” social e da “contenção” da criminalidade, Kassab decidiu eleger indivíduos completamente alheios à realidade dos espaços em que atuam – são muito mais xerifes de sua políticas públicas do que representantes das populações daquela região.

E como bons policiais que são, atuam segundo a lógica da transgressão subjetiva, baseada na prerrogativa usada pela polícia desde os tempos do Major Vidigal  – a clássica ideia da suspeição generalizada. Assim como o Vidigal perambulava pelas ruas do Rio em busca de indivíduos ou situações consideradas fora da ordem estabelecida, os ex-fardados paulistas, agora no ilustríssimo cargo de subprefeitos, devem seguir o decreto proposto por Kassab de passear diariamente pelos bairros de suas jurisdições por 5 km com o intuito de observar e reverter cenas ou situações que estão fora do lugar.

Não é coincidência que na maioria das subprefeituras comandadas por eles, o número de prisões, mandatos ou fechamentos do comércio considerados ilegais ou não credenciados aumentou consideravelmente. Curiosamente a criminalidade não diminuiu.

'Tudo na ordem, Capitão, podemos seguir viagem?'

Há ainda aqueles subprefeitos que preferem fazer a “ronda” sob um ângulo mais amplo, sobrevoando a região em helicópteros, e, a partir dessa privilegiada posição, constatam que tudo vai muito bem, obrigado.

Evidente que não se pretende aqui fazer uma apologia ao caos generalizado (apesar de ser proposta interessante para determinados momentos), mas sim um convite ao debate – se esses indivíduos foram empossados sob a justificativa da manutenção da ordem, cabe perguntar: ordem para quem? Parece mais fácil perseguir os excluídos e os marginalizados usando a justificativa de serem criminosos ou desrespeitadores da ordem pública, higienizar os bairros dos “cidadãos de bem” e continuar com uma política de cartáter exclusivo em detrimento à construção da cidade inclusiva.

Por Lívia Maria Botin

Mais aqui

Anúncios

8 Respostas para “Xerifes paulistanos

  1. Isso aí não é nem a história se repetindo como farsa, nem sei como definir. Impressionante como o eleitor paulistano não consegue se livrar de Ademar de Barros e Paulo Maluf. E Kassab ainda quer ser governador de São Paulo. Se isso acontecer eu apoio o MRSP, apoio a separação de São Paulo do resto do Brasil e sou o primeiro a cruzar a fronteira.

  2. Com certeza é o que a elite paulistana quer: repressão aos pobres porque são eles os criminosos e deles a culpa por sua própria condição.
    Kassab nada mais faz que compartilhar das ideias de FHC de se reaproximar da classe média, satisfazendo seu maior desejo de manter pobres bem longe (fisica e economicamente).

  3. Luciano Carneiro

    Muito bom o texto, Lívia. Próximo a minha realidade, eu vejo os artistas que há anos vendem seus artesanatos na Teodoro Sampaio esquina com a Praça Benedito Calixto (pertinho aqui de casa) tendo seus materiais apreendidos por esses pm’s.

  4. Ricardo Figueiredo Pirola

    Lívia, grande contribuição para a Tab. Não tinha noção que as coisas estavam nesse nível. A gente sempre espera o pior do Kassb (DEMO, PSDB, PSD), mas eles conseguem nos surpreender toda vez (para pior, é claro). Valeu pela análise. Abraço.

  5. É minha gente, ele pretende se lançar candidato à presidência!!
    Olho vivo, pessoal, olha vivo…

  6. Juliana Giordano

    O surpreendente é que ate na Veja (juro que foi na espera de algum consultório de dentista!) já li uma matéria  detonando os coronéis das subprefeituras… Aí fica a pergunta: quem vota nesse cara se ate a Veja está criticando?  Quando a Autora comenta o desgosto de morar entre os paulistanos (leia-se a elite paulistana) as vezes acho exagero,mas hoje tenho que admitir que estou bem cansada. Como podem votar tão mal?!

  7. Cristiano Casado

    Todo mundo é culpado até que se prove o contrário?

  8. Eu costumo dizer que o PRP (Partido Republicano Paulista) ainda não morreu, e deveria ter sido extinta, supostamente, pela derrota de 1932. A noção bandeirante que São Paulo é regra, e não exceção, a política que protege classes médias, ricas e brancas em detrimento do que é melhor para toda sociedade são parte do programa do PRP. Eles não se sentem derrotados desde então. Não por acaso, São Paulo não tem uma grande avenida chamada Presidente Vargas, rs. No lugar disso, você pode passear pela Nove de Julho.
    Será que os dias de PRP, no estado e no país, estão contados?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s