Quem tem medo de quem tem medo do “politicamente correto”? Ou: porque a discussão sobre esse discurso não faz nenhum sentido.

Em textos recém publicados no nosso Tab, Ana Flávia C. Ramos e Pajé Lara discutem os limites do chamado “humor preconceituoso” e a liberdade que deve ter a liberdade de toda a nossa expressão.

Os autores, em menor sintonia entre si, mas em maior sintonia, pelo menos,  com o nosso universal, ao intentarem delimitar o direito (inalienável!) das “minorias” em contestar o conteúdo ofensivo e discriminatório presente em piadas e outras produções de cunho literário, sociológico, filosófico etc., ainda que tenham construído, em diferentes aspectos, uma argumentação consistente do ponto de vista da legitimidade que deve ser conferida a esse movimento, deslizam, a meu ver, na análise do “funcionamento” desse discurso.

A polêmica, penso, tem sido colocada à partir de um ponto de vista enviesado. Não se trata de discutir se se deve ou não bradar à favor ou contra o discurso do politicamente correto. Se tal discurso é predominantemente da esquerda ou da direita. Se se pode fazer humor ou arte sem que se utilize de meios “ditos” escusos. Essa é uma questão falsa em termos do funcionamento da linguagem.

E é uma questão falsa por um motivo muito simples, um discurso politicamente correto, qualquer um que ele venha a ser, não existe. O que existe é apenas a sua tentativa, impossível todavia de realizar-se discursivamente. Afinal, só faz sentido que se troque “gay” por “homossexual” uma vez que se insista na classificação das pessoas de acordo com a sua sexualidade (exemplo fácil: uma pessoa branca, quando descreve uma outra desconhecida, produz essa frase: ”era aquele branco sentado no banco da frente”?).

Não  reconhecer que existam “maiorias” e “minorias” sociais é ingênuo. A manobra do contra-argumento do “preconceito inverso” é capenga. E imaginar que é possível que exista uma sociedade em que todos convivam juntos, mão à mão e em Paz é utópico. Todos praticamos algum tipo de preconceito! Sempre praticamos e sempre praticaremos (a questão, no entanto, é deveras mais séria quando nos encontramos inseridos em qualquer maioria). O que nos resta é  identificar a que conjunto de ideias nossos preconceitos nos remetem e que grupos de pessoas virão a se sentir (por óbvio!) ofendidos quando, e assim que, as expressarmos.

O problema, então, (indagarão meus amigos) é insolúvel? É impossível (con)vivermos numa sociedade sem preconceitos,? Estamos fadados a eternamente reagir a um grupo de pensamentos diametralmente oposto aos nossos? E a resposta é sim, mas com uma ressalva fundamental. Gentili, Bastos, Taz e cia ilimitada não cessam, por isso, de serem os imbecis visíveis que quem reagiu a suas piadas preconceituosas acha que eles são. No meu entender, eles devem ser reavaliados não como vítimas indefesas do espectro do politicamente correto e de sua patrulha sisuda, mas sim como os representantes que de fato são de certo grupo ideológico (dominante) com o qual não nos identificamos e contra o qual evidentemente sempre haveremos de reagir (e esse “nós” é facultativamente inclusivo).

As diferenças serão eternamente construídas, como argumenta muito bem o texto meio-galhardo, meio-bravio do Pajé. A prática do ódio associado à diferença, no entanto, é o que se configura como o verdadeiro vício a combatermos.

Mariana Musa

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Uma resposta para “Quem tem medo de quem tem medo do “politicamente correto”? Ou: porque a discussão sobre esse discurso não faz nenhum sentido.

  1. Muito bom texto, Mariana Musa. Levando a questão do politicamente correto para o campo da linguagem, parecia que você ia embora sem propor nada. Mas, no final, você reapresenta a disputa política como o real campo de batalha (não bélico, sem guerra declarada).
    Sim, estamos vivamente reagindo e disputando espaço com uma ideologia que, até então, pairava praticamente sozinha sobre a sociedade (brasileira, ocidental) através, sim, da dominação da mídia. E acho que usar a tática do “politicamente correto” até foi uma boa opção para a combatermos por um tempo.
    Mas, agora, “Eles” sacaram tudo..rs e passaram a (re)ganhar adeptos com o discurso do tolhimento à liberdade de expressão. Vamos ter de mudar a estratégia.
    Somente vou sossegar de partes das minhas lutas pessoais e sociais quando conseguir fazer Bolsonaro se calar!

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