Nem todo lugar é ‘Supremo’

Um feriado só corpus, sem christi, um encontro ao vivo com alguns tabeiros e no papo, sempre acalorado, eis que chegamos no ponto: “aviso aos navegantes, o primeiro que reclamar por orgulho hétero na minha timeline vai entrar na faxina do cara livro (vulgo, facebook)”.

E garanto que foi mesmo! E vai ser assim, de agora em diante, minha gente!

Afinal, nas redes sociais podemos gerir quem serão os nossos interlocutores. Podemos sumariamente ignorar qualquer manifestação desse tipo de barbárie.

Mas aí, o feriado termina, a TAB fica lá e cá, desligamos o computador e saltamos para um mundo um pouco menos gerenciável, e esbarramos por vezes com uma galera que não só reclama pelo orgulho hétero, mas também se organiza em torno do vácuo da lei, para justificar o preconceito, para regulamentar a homofobia, gente que ri de piada homofóbica, que fomenta a violência, que prega uma palavra dita divina que é intolerante… E a faxina é quase uma batalha!

A angústia está nessa dificuldade de ser agente de mudança em uma dimensão que vai além dos pares que escolhi para serem parceiros em qualquer lugar! Essa dimensão mais bruta, que vai além das escolhas, tem um monte de gente co-habitando, trabalhando, estudando e convivendo comigo, que é intolerante e preconceituoso. Mas é também um monte de outras coisas…

O que não é claro e está difícil de gerenciar, é como lidar com a intolerância, sem responder com intolerância? Vale a ressalva de que pra mim qualquer forma de recrudescimento faz com que avancemos pouco, tanto em termos legais como nos enfrentamentos públicos.

Então, como garantir, por exemplo, que em sala de aula temas como homofobia e preconceito sejam combatidos por todos (alunos, professores, monitores)? Como garantir que funcionários públicos e agentes do governo não cometam discriminação institucional? Como garantir justiça social com operadores da lei que entendem a lei de maneira torta? Como falar de política pública e direitos humanos quando uma fé e religião são soberanas para certos grupos de pessoas?

Às vezes, acho que não dá. Um diálogo que parte de noções completamente diferentes de bem-estar social, justiça social, equidade tem grandes chances de não levar a lugar algum. E fico me perguntando, em matéria de discriminação e preconceito, cabe então negociar? Ao negociar que “pelo menos” se cumpra a lei, estamos aceitando a hetero-normatividade?

Apesar da afinidade com as correntes que vislumbram a transformação por meio da mudança de mentalidade, no dia-a-dia isso ainda grita, e é feio. Nem todo o lugar é um Supremo. Ou melhor, Jacareí é!

A Tabnarede já falou sobre o tema, vejam a opinião da Carol em Racismo e Homofobia.

Espero ansiosa os comentários da galera e da @donagalu, já que foi uma importante interlocutora desse desabafo!

por Gisela C. Geraldi

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7 Respostas para “Nem todo lugar é ‘Supremo’

  1. Transitamos das decisoes progressistas do supremo ao recrudescimento do conservadorismo. Nao eh facil. Para Paje Lara, isso eh consequencia, parte do que se espera de uma republica. A nossa, tao jovem, tao em construcao, escolhendo agora o que quer de fato pra si, o que nao quer. O mesmo supremo ja deu o recado: Carmem Lucia disse que a praca publica nos foi negada por decadas. Agora eh hora de ocupar. Revolucao no sofa, ou seja, gerenciar apenas suas redes sociais, tem um puta significado politico, mas disputa de fato poder?
    Se quisermos mais avancos reais, vamos ter que tirar a bunda da cadeira e a mao do teclado.

  2. Pois é Gi, e eu que costumava dizer de brincadeira que o mundo é gay e tinha preconceito comigo (não me corta do caralivro, rss!). Depois eu descobri que o preconceito é com qualquer um que vai contra sei lá o que, porque eu nao sou exatamente hetero, nem exatamente bi, nem exatamente gay. Quem inventou as diferenças? Por que precisa ser classificado? Qual a origem dessa palabra? Porra que insisti em classificar!! ui, desculpe, tem censura aquí? Penso que “Um diálogo que parte de noções completamente diferentes de bem-estar social, justiça social, equidade” NÃO vai levar a lugar nenhum. Estou amarga hein! Estou me perguntando quase 24 horas por dia, quem inventou essa merda de “países”, de “fronteiras”, para que servem essas diferenças?
    Essa semana impedimos um despejo aquí no bairro. A coisa foi polêmica, porque não era dívida com banco, era proprietário sabe. Os jornais falando que o coitado era ele, que a inquilina tinha agido mal. Enfim, prefiro nem começar a discutir aqui isso. Mas o discurso do eu também tenho direito tava aí sabe. Foda-se o “todo mundo tem direito” se tem gente que tem que lutar para ter. Uns parecem que recebem do além esse direito (de onde vem? bem eu vivo agora numa monarquia, kkk, e o tanto de gente que defende a monarquia aqui, já quase me convenceram em mesa de bar, rss, sou volátil. não nos governa, mas nos representa, nossa, piro nisso! vai povo, tem que ter alguém para comer a azeitona da empadinha estragada da festinha).
    tive que procurar uma assistência juridica hoje para uma amiga, encontrei numa igreja… será que tenho preconceito? que cê acha? Poderiam me processar por isso? Todo mundo tem liberdade de crença, eu sei, to de acordo. Por que ninguém ta de acordo com a minha=nenhuma, puta por ter na veia a criação de sei lá que seita dessas aí, ups?
    Ai, e chega que já virou desabafo, sempre venho aquí para desabafar. vão me expulsar, rss.
    Além de amarga estou egoista, quero minha independência da Terra e dos humanos!
    Para concluir… A LA CALLE CHICXS! (para responder a Glaucia).

  3. E faço um PS, como devo um texto (não tive como gente, muita coisa, muita vida paralela), comentei com um amigo daqui, podia ser?

  4. Poxa Albina, que bom que temos o que desabafar, né? Não acho que conseguimos ser coerentes o tempo todo, mas acho importante buscar essa coerência… E fico pirando tb quando me perguntam: “onde vc esconde o seu preconceito?”… ou nas políticas de redução de dano (reduzir e não acabar?!?)… enfim, até onde estou sendo condescendente?!? A ideia era externalizar mesmo um problema real de ação, de mediação, de busca de solução que tb tá no meu dia-a-dia!
    E sim, Galu rules! A rua é a saída!

  5. Gatas,
    eu acabei escrevendo um post de resposta a Gi, tá aí na frente, aqui mesmo.
    Albina, na próxima vez, seu comentário vai virar post. E belê, se arrumar um texto que explique um pouco das coisas que tão rolando por aí será muito bem vindo!

  6. Pingback: (Nova) Luta por direitos sociais no Brasil |

  7. Gi, num é sobre esse, mas sobre outro…
    sempre curti ser magrela, fiapenta, comer pouca carne e fazer exercícios. Era a pior aluna de educação física. Pra mim, faz sentido passar meia hora suando no palco, e nenhuma volta na quadra faz sentido. Entendi oq vc quis dizer, corpos malhados, ditadura de exercício e alimentação. Adoro comida vegetariana. Feita em casa ou na casa de amigos. Restaurantes vegetarianos tiram sal, zeite, cebola, alho… parece a comida que é dada a idosos doentes.
    Quadras e academias… copros esbeltos, correndo, malhando… quero circo, quero teatro! Só me mostro a público pronta, e bem pronta.
    Corpos… cheios, redondos, magros, belos, feios. Não importa.
    Sobe no palco da vida, menina

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