Por que temos medo de andar na rua de noite? Marcha das vadias e os feminismos

Discutir machismo e feminismo anda tão batido que se corre sério risco de chover no molhado. Há tantos textos excelentes, de pesquisadoras de gênero, de feministas engajadas, de sociólogas, antropólogas e filósofas, que testículos como o meu vão parecer manifestinhos bravios de crianças que emburram. No entanto, em meio às mais despretensiosas conversas entre amigos (homens e mulheres legais, que se dizem combatentes do ideário machista, enfim, machos e fêmeas feministas), vira e mexe nos deparamos com declarações de arrepiar os cabelos! Acho que não podemos temer a chuva.

“O estupro é execrado pelos homens!” “Eu fui criado nessa mesma sociedade e não me tornei machista.” “Não há um aumento em relação aos crimes contra a mulher, está dentro da média esperada”. “A violência atinge a todos, independentemente do sexo”…

Intriga-me o seguinte: por que homens que se dizem feministas ficam tão chateados quando nos referimos à sociedade em que vivemos como machista e misógina? Por que é tão difícil, especialmente para os caras mais legais, entenderem que, não, o estupro e a(s) violência(s) contra a mulher não são frutos da nossa cabeça, que não precisamos ter sido estupradas para termos o direito de falar com propriedade sobre o assunto, uma vez que a opressão é sensível ao mais modesto dos nossos movimentos, e que essa não é uma prática associada apenas a alguns exemplares do sexo masculino, detentores de mentes psicopatas e criminosas?

A violência contra a mulher é um crime de poder e de ódio, reflexo de um modus cogitandi a que estamos todos submetidos.  Fomos ensinados assim e assim ensinamos (a não ser que você acorde do transe e substitua esse discurso por outro). A sociedade é doente do ponto de vista da construção de gênero (e é evidente que afirmo isso porque sou mulher!). E transmite a seus membros, sem exceção, a sua enfermidade. Aos homens, que são incapazes de entenderem o “gostosa” dirigido a uma mulher que passa na rua como uma violência. E às mulheres, que aprendem a se sentirem culpadas e a aceitarem a violência que lhes é conferida, cotidianamente, sem reagir. Pode-se definir o machismo em uma frase curta: a ideia de um feminino submetido a um masculino. Foi consolidado, junto a outros movimentos de opressão, com a vitória do capitalismo. Tão simples e tão complexo.

Não é raro, no entanto, que divergências irreconciliáveis venham se construindo dentro do próprio movimento feminista. Particularmente quando ele se organiza e propõe intervenções, manifestos, marchas e gritos. Podem os homens se manifestar no planejamento das ações feministas? (minhas opiniões, e as explicarei em outro momento, seguem entre os parêntesis: não!) A marcha das vadias é um movimento elitista, que atinge apenas a parte da sociedade que é feminista, já engajada em discussões de gênero? (sim! Mas é a única que propõe mudanças de paradigmas teóricos) Seria a slutwalk uma ação “menos concreta” e “mais ideológica” em relação ao aumento de policiamento e iluminação nas ruas? (NÃO, muito pelo contrário… essas medidas “mais ativas” são apenas paliativas e ineficientes, uma vez que, entre outros fatos, um terço dos casos de estupro ocorrem dentro de casa ou entre conhecidos!)

Explico-me um pouco melhor quanto ao último ponto. É simplesmente inexiste essa separação pretendida entre ações mais “concretas”  e ações mais ideológicas. Toda ação é ideológica  e quando se decide aumentar o policiamento das ruas, ainda que não pareça, está-se propondo que a nossa situação só poderá ser resolvida pelo mesmo Estado que nos impõe essa mesma ideologia que pretendemos abolir.

É uma faca de dois gumes pensar que a ideologia machista tenha que ser combatida com a submisão de seu discurso multi-milenar e onipresente nas sociedades conhecidas (em maior ou menor grau de tentativa de distanciamento desse discurso). De um lado, abordar a questão do ponto de vista discursivo pode parecer utópico e deveras moroso, no entanto, é ingênuo e absolutamente ineficiente imaginarmos qualquer mudança significativa e de base sem que haja, de fato, a “des-hegemonia” desse conjunto de valores e pensamentos. De outro, isso nos ata as mãos para organizarmos ações pertinentes e urgentes que resolvam, ainda que a curto prazo, os ataques acontecendo bem embaixo das nossa fuças.

O problema, na verdade, se constrói porque paira no ar a ideia, também machista em sua raiz, de que o combate imediato à violência que sofremos é um objetivo “simples” de ser alcançado. Basta que se aumente o policiamento nas ruas, as delegacias contra as mulheres, e, claro, que nós nos submetamos a certo toque de recolher e que observemos as impropriedades de nosso vestuário a as evitemos… elementar, meu caro Watson: em busca do empoderamento feminino, busca-se abrigo sob os cace(te)tes dos machos feministas que nos protegem e asseguram. Não é preciso que se exponha o ridículo desse raciocínio.

Chegamos à sinuca de bico que todo e qualquer discurso feminista tenta evitar: o que fazer, então? Não que eu pretenda, aqui, gritar Eureka! e resolver o problema do mundo! Mas acredito na força das palavras e acho que um discurso só pode ser debatido frente a um outro. É imprescindível que o machismo seja combatido em todos os seus componentes. Da indignação do pai ou do marido ou do namorado que teve a sua propriedade violentada (sim, o crime de estupro no Brasil é considerado um crime contra a moral e os costumes e não contra a mulher! E não, não estou deslegitimando o sentimento verdadeiro e solidário de nossos machos feministas, apenas aponto-lhes onde mora o machismo na sua fala) aos atos de ódio de fato, entre eles, o simples desrespeito verbal de um “elogio” entre desconhecidos na rua.

Mariana Musa

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17 Respostas para “Por que temos medo de andar na rua de noite? Marcha das vadias e os feminismos

  1. Musa, esse tenho que comentar né. Agora vou um pouco sem tempo, mas só dizer que adorei, com pontos a discutir, mas adorei!

  2. Musão, gostei bastante do texto. Preciso refletir um pouquinho, formular algumas questões que acredito ainda serem possíveis para o debate. Alguns pontos ainda me deixaram inquieta. Mas gostei.
    Albina, você não gostaria de escrever um texto para a nossa queria TAB, para levantar um debate sobre a questão? Abraços.

  3. Musa, gostei do seu texto, veio em boa hora… E faço coro com Albina e Flávia, estou processando… confesso que “Podem os homens se manifestar no planejamento das ações feministas?” e sua caracterização dos homens e mulheres ainda estão latejando… mas bora lá, ver isso direito e responder, se eu der conta!!! Tabnarede me surpreendendo sempre…

  4. Oi, Albina e Flávia! Fico muito contente que o texto tenha causado seus efeitos! Quero muito que vcs o discutam, que discordem, concordem, enfim! Valeu pelo carinho… bj

  5. Gi, querida! Sabia que vc ia pensar nessa parte… vamos lá, chuchu! Sem medo de críticas! A Galu bem que me disse que era pra eu me preparar! rs. Uma beijoca pra vc… espero ansiosa sua reflexão.

  6. G-zuis, Maries….o texto ecoa que ecoa que ecoa….me deixou inquieta, pensativa…preciso ler mais vezes…e, o que dizer de textos que me deixam inquieta? QUE ADOREI!
    Beijos, querida!

  7. Musão,
    Texto pertinente em tempos de intenso moralismo diante de ações autônomas de mulheres contra os ataques de Barão Geraldo, ou de qualquer lugar. Ações autônomas tendem a deixar a própria esquerda vanguardista sem saber o que pensar, vide a rejeição ao termo Marcha das Vadias. Ações autônomas, redundantemente, pressupõe a não-tutela, portanto, a participação dos homens pode se fazer um tanto desnecessária. Assim como pode ser difícil aos patrões “legais” compreenderem a organização de seus trabalhadores, por eles mesmos. Diletância?

    • … é que tenho pensado que a diletância deva ser redirecionada! Uma vez que o preconceito é um só, vc não acha? Não que isso impeça as marchas (a nossa, a dos trabalhadores, a dos negros, a dos gays!), mas que ela os intensifique e os una! Não sei. Ideias fogem da minha cabeça…

  8. Eu adorei. Não sou muito de vir aqui dizer. Mas venho e digo. É impalatável. Mas muito lúcido. E reli a força das palavras e quis muito dizer tanta coisa, em coro. Musão, vc é foda.
    Um beijo.
    Zab

  9. Musa! Realmente, seu texto faz pensar! Para mim, há duas questões fundamentais que você aponta. A primeira é que mais que iluminação, policiamento e códigos de conduta, precisamos de uma reflexão sobre nós mesmos, sobre essa nossa sociedade machista, misógena, sexista, preconceituosa e violenta. Depois, o grande desafio que você assume de mostrar como o machismo impregna ações e considerações aparentemente super bem intencionadas.
    Agora, fiquei incomodada com algumas oposições que você apresenta…
    1. homens X mulheres
    O que distingue, afinal, homens e mulheres (para delimitar, por exemplo, quem tem legitimidade para participar em algumas instâncias do “movimento feminista” e não em outras)? A biologia? Nesse caso, como ficam travestis, transexuais, cross-dressing…? Mesmo as enormes diferenças existentes entre as próprias mulheres… Nunca somos só homens ou mulheres… Eu não sei. Fiquei me perguntando se suas opiniões estão relacionadas a um contexto político específico – a organização da marcha das vadias em Campinas – ou são válidas para qualquer planejamento de ação feminista.
    2. machismo X feminismos
    A palavra “feminismo” quis dizer coisas muito distintas ao longo da história, sendo o próprio termo objeto de disputa. Aqui, acho que vale fazer um mea culpa das historiadoras brasileiras que, de modo geral, insistem em uma abordagem teleológica do movimento feminista, como uma progressiva conquista de direitos femininos. Há muitos feminismos, como você bem aponta, e há muito a ser discutido em relação a isso. E machismo: só existe no singular? É pertinente opor machismo e feminismo? Não há um “movimento machista” mas, em contrapartida, também não podemos em um feminismo não organizado, não institucionalizado, presente em algumas ações cotidianas?
    3. discurso doente X discurso são
    Ainda que as mulheres tenham sido ensinadas a “aceitarem a violência que lhes é conferida, cotidianamente, sem reagir”, não penso que isso funcione exatamente assim na prática. Sem negar a opressão, penso que não podemos desconsiderar espaços para ações autônomas, as diferentes práticas discursivas, desconexas e nem sempre coerentes, que convivem sob esse esquema opressor maior. E, talvez, aí esteja a matéria-prima para pensar alternativas…
    Enfim, são perguntas que gostaria de compartilhar para continuar pensando… Beijos!

    • Cara, obrigada pelos comentários… ando repensando fortemente um dos pontos que passou a me incomodar! Mas, vamos por partes, de fato algumas oposições polêmicas, dado o espaço reservado ao testículo, ficaram melhor explicadas na minha cabeça e pareceram generalizações um tanto superficiais no texto. Estava construindo oposições da maneira como elas se colocam no senso comum; homem e mulher, machista e feminista, engajado e alienado, etc. As opiniões estão relacionadas, sem dúvida, ao contexto a que vc se refere e a outras conversas internas regadas a discórdia e muita indignação. No entanto, não sei mais o que pensar quanto ao planejamento das ações feministas, de verdade, estive conversando com uma amiga em São Paulo e atingi um nirvana epifânico (sobre o óbvio, mas quando ele não é?): a intolerância e o ódio tem um único (e apenas um) direcionamento: o outro diferente. E, enquanto não começarmos a tratar TODOS os preconceitos como um só, nada adiantará! Por isso, repensei meu posicionamento quanto aos homens participarem ou não das reuniões, das revoltas, das ações… enfim, tenho visto muita coisa de que discordo, muita coisa que, na busca desesperada por fazer sentido, acaba sucumbindo e reproduzindo o próprio discurso que intenta combater (exemplifico com algumas frases da marcha das vadias: “Nosso CÉREBRO não é do TAMANHO da nossa SAIA”; “Não somos SÓ bunda e peitos”)… Entretanto ainda acho que é um movimento legítimo. E novo. E em construção. Completamente passível, portanto, de se tornar significativo. Eu vou marchar, que fique claro! E vou vestida de homem.
      Quanto ao segundo ponto, acho importante frisar que todos os termos estão sempre em disputa e concordo com vc em relação ao feminismo não organizado, presente nas ações cotidianas. Ele é o melhor de todos. Não sei, no entanto, se o machismo no plural não funciona mais como metonímia do que como distinção, são variações sobre o mesmo tema. Só isso.
      Finalmente, quanto à doença do convívio humano, concordo com vc que possa não funcionar assim na prática. Afinal, estamos aí, escrevendo, pensando e nos confundindo… tentando entender como podemos/devemos/queremos atuar. Mudar as coisas. Por isso volto ao começo, anda-me coçando a cabeça essa particularização da(s) luta(s). Sei que a Galu, agora, deve até ter levantado da cadeira, mas o que posso fazer se tem me perturbado? De toda forma, suas questões me puseram a pensar. Obrigada!

  10. Musa, essa é discussão indispensável, urgente urgentíssima e, enquanto mulheres sofrerem agressões físicas ou verbais por serem mulheres, não será “chover no molhado”. Também acredito que a palavra é necessária e indago (a mim e a você) se não é mais (ou pelo menos tão) necessária, hoje, às mulheres que aos homens. Lembrar às que esqueceram e fazer saber às que por qualquer razão ignoram que são indivíduos livres, que podem dispor de seu próprio corpo como bem quiserem, que nenhum outro deve ter mais poder sobre elas que elas mesmas. Bjo.

  11. MUSA,
    tanto a te contar.., teve uma época que me escondi, sim, e inda acho o caminho mais fácil, me esconder atrás das calças de algum macho (pai, irmão, namorado, amigo). É difícil. Sobre as questões que levantou e a Lerice ressaltou, concordo mesmo. Mas a gente só se sente segura com um cara perto.
    Vou falar meio rápido e sem sertão acadêmica.
    1) Temos toque de recolher, sim. Quando eu morava no centro de Campinas, fui comprar pão e cigarro às 23:30. Eram uns 100 metros. No meio, tive que me esconder num estacionamento 24h e osmeninos que trabalhavam lá buscaram as coisas pra mim, e me recomendaram, com muito carinho e preocupação, que não andasse mais àquela hora
    2) vestes e noite: não dizem nada
    é desculpa esfarrapada. Conheço gente que foi estuprada meio dia. E eu mesma era abordada, no fim da aula da escola, na rua, no inverno, cobertíssima, no centro de Campinas, cansada, por caras que queriam saber qual era meu preço
    3) uma vez, em ubatuba, tive pressão alta. tava andando, o cara passou de bike e passou a mão na minha bunda. gritei que tava indo pro hospital
    ele pediu desculpas
    quer dizer, se eu num tivesse doente, tudo bem?
    fico por aqui

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