PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

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Como forma de sistematização do meu ponto de vista sobre as manifestações populares que tomaram as ruas das grandes cidades do Brasil ontem, seguem alguns comentários.

1 – Sim, sou a favor dos movimentos populares e acho que 250 mil pessoas na rua devem nos alertar para uma série de questões importantes, de insatisfações significativas. Sim, a Democracia também se faz na rua, com manifestações. Muitas pessoas me escreveram pedindo para que eu fosse à rua, numa espécie de “pare de fazer política de facebook”. Bem que eu gostaria, mas estando em Uberlândia, onde reinava o silêncio, ficava bem difícil chegar às grandes capitais, como São Paulo, que era onde gostaria de estar (por uma série de razões). No entanto, o próprio movimento Passe Livre também nasceu na internet e ela deve ser sim considerada como um espaço legítimo de atuação política.

2 – Ainda é muito cedo para falar de todos os significados que os movimentos que aconteceram ontem comportam. Mas o que me parece certo é que se tratou de uma mobilização bastante plural, cheia das mais diversas expectativas. Isto é, adianta pouquíssimo dizer que o movimento é um só. Ele é complexo, alvo das mais diferentes disputas políticas e, a meu ver, devemos estar atentos a isso, pois caso contrário perderemos o “bonde” da história. Assim como outros movimentos populares, alguns citados ao longo da semana passada, tais como a Revolta do Vintém e a Revolta da Vacina, a tomada das ruas pela população ontem carrega sentidos em seu âmago que serão disputados à unha pelos mais diferentes grupos políticos. Lá estão pessoas insatisfeitas com o transporte público das grandes cidades, insatisfeitas com a violência policial, com governos autoritários como o de Alckmin, que reprime manifestações populares, com as condições da saúde e da educação (em SP o caso é gritante, pois foram décadas de descaso por parte dos governos de Direita), enfim, todas reivindicações muitos justas e importantes a meu ver. Palmas para o movimento, palmas para a DEMOCRACIA. Concordo que lá existiam movimentos importantes da juventude, querendo indagar sobre como atuar politicamente, querendo conquistar seu protagonismo histórico, querendo o cumprimento de antigas promessas não cumpridas por vários e vários governos que passaram por cidades como São Paulo.

3 – Entretanto, os movimentos também foram palco da mais aguerrida luta de classes, no meu ponto de vista. Pois, ao movimento do Passe Livre também acabaram se somando as forças mais reacionárias do Brasil contemporâneo. Lá estava uma classe média que, a despeito do conforto e das vantagens que vêm tirando desses dez anos de crescimento econômico, gritava contra o bolsa família (chamado por eles carinhosamente de “bolsa esmola”), lá estavam os que gritavam contra o mensalão (que ainda está por se provar e incita os questionamentos mais sérios sobre a perigosa atuação golpista do STF), os que reclamam que tem pobres demais nos aeroportos, os que vaiam a COPA, mas que vão aos jogos, lindos, com seus ingressos de R$ 400,00. Lá estavam também os que se mostraram indignados com a PEC das domésticas, os que chamaram o movimento de BADERNA na última terça-feira (pois este impedia o trânsito na faceira Avenida Paulista), e também, como não podia faltar, os que chamam o governo do PT de comunista. Tinha de tudo. E todos tem o direito de se manifestar. Mas é preciso pensar nessas forças que estão se articulando, gostemos ou não dessa realidade. É preciso pensar na complexidade que as 250 mil pessoas reunidas sem uma bandeira única, sem uma organização mais centralizada de reivindicações (ninguém pode negar que esse é o aspecto geral da manifestação), representa. A Direita está atenta e nós também devemos ficar. Olhar os movimentos de forma acrítica, idealizada, só servirá para obliterar possíveis “marchas da família” (ou seus equivalentes contemporâneos), que lá também parecem estar e que são perigosíssimos para a Democracia.

4 – Algo que chamou muito a minha atenção foi a tentativa de destruição de símbolos da democracia, acompanhada de um discurso que vem sendo repetido levianamente pela Direita de que político é tudo igual e que não vale nada. Por que ameaçar a Assembleia Legislativa ou a sede da Polícia Federal, ou ainda o próprio Congresso Nacional?  O discurso do “nada presta” só leva a Direita ao poder.  Tudo isso com a mídia desprezando nossa Democracia, chamando-a de jovem, quase dizendo que não estamos preparados ainda para vivê-la. Nós nos esforçamos demais para alcançar a democracia e esse discurso sempre favoreceu golpes totalitários na história. A negação da política é extremamente perigosa, os totalitarismos que nasceram na Europa no começo do século XX devem nos servir de alerta.

5 – Para quem assistia à distância, como eu, ficou claro tanto ontem como hoje, a busca por parte da grande mídia de se apropriar dos movimentos, de uma forma golpista, perigosa. A mídia estava lá, festejando a ocupação dos símbolos do poder, incentivando a tomada do poder pela força já que, não consegue pelas eleições democraticamente realizadas. Me lembrou o Paraguai, o golpe. E o eco chegou rápido às redes sociais, que passaram a pedir o impedimento da presidenta, democraticamente eleita pela MAIORIA DA NAÇÃO. Olhando a cobertura dessa mesma mídia hoje, incluindo aí não apenas os grandes jornais e as redes de televisão, mas também os meios de comunicação locais, como os de Uberlândia, observamos um coro uníssono de um mesmo editorial que empresta aos movimentos suas bandeiras da Direita (o combate genérico à corrupção, a diminuição dos impostos, a Copa, a crítica contra a PEC 37, etc.). De forma perniciosa, essa mesma mídia incita a confusão das funções dos diversos entes federativos (municipal, estadual e federal), a fim de poupar seus aliados e jogar cobranças indevidas em seus opositores.

6 – Também me assustam as palavras de ordem: “sem partido” e “sem bandeira”, repetidas nas manifestações de diversas cidades. Mentira e das perigosas. Todo mundo tem um lado, todo mundo tem um lugar social e político a partir do qual está falando. Fico com a impressão que tinha de tudo no movimento: PSOL, PSTU, PT, PSDB e tantos outros. Estavam lá, todos brigando pelo seu quinhão na disputa pelos sentidos. Para mim, a bandeira do movimento não tinha que ser branca, mas VERMELHA, pois nasceu de um grupo que ontem mesmo no Roda Viva se intitulou como uma força de ESQUERDA. Dizer que a bandeira é branca significa despolitizar a mobilização e isso é muito perigoso, pois abre brechas para a apropriação descarada que está sendo feita pela Direita e pela mídia.

Enfim, como todos, ainda estou esperando pelos resultados positivos dessas disputas e tentando dar a minha contribuição. Mas vou continuar em alerta, pois muita coisa pode acontecer: para o bem e para o mal. Deposito todas as minhas esperanças, no caso do movimento Passe Livre em São Paulo, em uma ação justa tanto diante do governo Municipal (do PT) como perante o governo Estadual (do PSDB). Se Haddad ceder, mas Alckmin não, quero ver o movimento continuar pressionando, parando a cidade, à espera de uma negociação com o governador (que já disse, ao contrário de Haddad, que não haverá conversa). Digo isto, porque São Paulo também anda de metrô e trem, que também são caríssimos. Se isso não acontecer, aí já serão outras águas…

Ana Flavia Cernic Ramos

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Uma resposta para “PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES

  1. Tenho receio das”bandeiras brancas”… mas a violência que destroi não assegura e nem representa nossos direitos.

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