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Centro Paula Souza: Farra com o dinheiro e com a educação pública

Amanhã (30/08) a partir das 15h está previsto o início da discussão e votação do PLC 43/2011 na Assembleia Legislativa do Estado São Paulo. Esse é o projeto de lei complementar que o governo de Geraldo Alckmin apresentou à Câmara dos Deputados como resultado da greve dos servidores do Centro Paula Souza (conhecido no Twitter como #circopaulasouza) entre maio e junho deste ano.

Em princípio, o que gostaríamos de acreditar é que, após 16 anos de desvalorização de docentes e funcionários administrativos,  o governo do PSDB enfim iria cumprir as inúmeras leis trabalhistas e constitucionais que nos regem e nos daria os devidos reajustes e (por que não?) aumentos reais. Mas isso não acontecerá.

Apesar da vitória da greve (lembro que em 18 de março o reajuste oferecido foi de zero%) por conseguirmos um reajuste de 11%, esse índice não é nem de longe o necessário para cumprir a lei, afinal faz cinco anos que nosso salário está congelado. De acordo com os cálculos do Sinteps, as perdas salariais dos docentes chega a 58% e as dos funcionários administrativos, a 71%.

Infelizmente, todo esse descaso com a educação pública não para aí. Nesse mesmo PLC 43/2011 constam também os índices de reajuste dos servidores da administração do Centro Paula Souza, entre eles,  o da diretora superintendente, Laura Laganá, que receberá a bagatela de 74% de aumento. Assim, o dinheiro que Alckmin e o PSDB afirmam há anos não existir para a educação poderá ser encontrado no holerite de vários de seus cargos de confiança a partir do mês que vem.

Para você não se esquecer das peripécias dos governos do PSDB e do Centro Paula Souza, há uma reportagem apresentada na Rede Record denunciando a posse ilegal de um terreno público pela Rede Globo.

Esse terreno, dias depois, passaria a fazer parte de um convênio entre o Governo do Estado de São Paulo e a Rede Globo para a construção de mais uma ETEC. Porque com o PSDB é assim: escola contruída gera propaganda, boa educação pública não.

Carolina Souza

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Racismo e Homofobia

Desde a decisão do STF por equiparar as uniões estáveis homoafetivas às heterossexuais, ganhou força no discurso homofóbico a “preocupação” em torno da adoção de crianças por casais gays. Para justificar o posicionameno contrário a essa possibilidade, os homofóbicos, então, recorrem ao discurso do “natural” e às pesquisas imaginárias, que apostam no surgimento de problemas psicológicos em crianças que não vivem sob os aspectos da “família natural”.

Geralmente, esses estudos (não encontrados nem mesmo pelo Google) nos apontam grandes problemas que, antes do reconhecimento das uniões estáveis homoafetivas como família, jamais haviam se colocado para a sociedade. Por exemplo, como uma criança poderia sobreviver em uma família sem mulher? Como ficam os filhos criados em um lar com duas mães?

Definitivamente, são problemas com os quais a sociedade brasileira (e por que não dizer Ocidental?) nunca precisou lidar, mas que, agora, devido à decisão do Supremo teremos que nos preocupar. Afinal, quem já tinha ouvido falar de uma família em que a mãe morreu no parto e o pai teve que criar a filha sozinho, sem a figura feminina? Ou, de algum caso em que a mãe (solteira) mora com sua mãe (viúva) e ambas educam o filho (ou neto)?

Mas, não se esqueçam de que é somente devido ao ineditismo da constituição de famílias que não contariam com a figura materna ou paterna que alguns homofóbicos se afirmam contrários à decisão do STF. Esse argumento, dizem eles, não é preconceituoso: “Discordar não é desrespeitar”; “Uma coisa é a opinião sobre o que é melhor para as crianças e para a sociedade, outra, é o preconceito”. Para essas pessoas, contarei uma história.

Com o final do reinado de D. Pedro I, começaram a aparecer secretamente no Brasil ideias abolicionistas e que pregavam a “mistura de raças”. A sociedade imperial (os deputados, os senadores, a opinião pública, os cristãos brancos) rechaçava ambos os discursos, exigia punições aos abolicionistas e via com maus olhos os brancos que se relacionavam com negros: isso era um absurdo, um acinte à sociedade brasileira. Existia na mente dessa sociedade reacionária a ideia de uma família “natural” que deveria ser composta ou só de negros ou só de brancos.

As personagens e os acontecimentos dessa história não são fictícios. Qualquer semelhança com situações e pessoas atuais não é mera coincidência.

Carolina Souza

Ai, como é estúpido! Ou a “cotismofobia”

Recentemente, as declarações do deputado federal pelo PP-RJ, Jair Bolsonaro, “escandalizaram” o Brasil. Quem diria que um deputado que se elegeu defendendo a ditadura militar, a proibição de homossexuais nas Forças Armadas e o controle de natalidade (aplicado a pessoas de baixa renda), seria capaz de pronunciar frases tão avessas ao convívio em sociedade e ao respeito pelas identidades sociais?

Espanto à parte, o que gostaria de tratar aqui não são tanto suas opiniões (ou crimes) contra os negros, mas algo que parece ter passado batido no meio de tamanho exercício de alteridade. Queria falar sobre sua “cotismofobia”.

As palavras de Jair Bolsonaro no programa CQC da Bandeirantes foram: “eu não entraria num avião pilotado por um cotista e nem aceitaria ser operado por um médico cotista”. Agora, como alguém pode se sentir seguro com um legislativo composto por Bolsonaro e companhia? O mínimo que se espera de um deputado é que ele conheça a causa que está defendendo ou atacando.

O sistema de cotas propõe que 50% das vagas nas universidades federais seja disputada por alunos egressos da rede pública de ensino. Há casos, como a UFBA, em que foram criadas subcotas nesse sistema para atender proporcionalmente a grupos específicos (negros, egressos de escolas públicas, índios etc.). Ou seja, os tais cotistas disputam entre si a entrada na universidade. Como é esse disputa? O mesmo vestibular e as mesmas provas pelas quais passam todos os ingressantes em instituições de ensino superior. Como são essas provas? Elas exigem o mesmo conteúdo de que você ou Jair Bolsonaro já devem ter se esquecido. Que conteúdo seria esse? A taxonomia das plantas, os dispositivos do Tratado de Methuen, a reação química que transforma gordura em sabão, quais são os gases nobres, e por aí vai.

Os alunos de baixa renda, que estudam nas escolas públicas, concorrem entre si e aqueles com melhor aproveitamento ingressam na universidade. Mas, como questionaria um Bolsonaro, essa concorrência entre candidatos provenientes de uma pior qualidade de ensino não vai diminuir o nível do conhecimento produzido na universidade e, consequentemente, do profissional formado? Com certeza, ó cotismofóbicos! Teremos um volume maior de médicos que não sabem os nomes das capitais dos países africanos, de engenheiros que não conhecem o Index da Igreja Católica, de jornalistas que não entendem a Lei de Ohm e, obviamente, de pilotos que jamais conseguiriam fazer decolar ou aterrissar um avião sem essas informações.

Carolina Souza