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Fora Repressão! Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça

Plenária com quase 3 mil estudantes no dia 09 de novembro de 2011 debate a truculência da polícia referendada pelo Reitor Rodas.

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Por que temos medo de andar na rua de noite? Marcha das vadias e os feminismos

Discutir machismo e feminismo anda tão batido que se corre sério risco de chover no molhado. Há tantos textos excelentes, de pesquisadoras de gênero, de feministas engajadas, de sociólogas, antropólogas e filósofas, que testículos como o meu vão parecer manifestinhos bravios de crianças que emburram. No entanto, em meio às mais despretensiosas conversas entre amigos (homens e mulheres legais, que se dizem combatentes do ideário machista, enfim, machos e fêmeas feministas), vira e mexe nos deparamos com declarações de arrepiar os cabelos! Acho que não podemos temer a chuva.

“O estupro é execrado pelos homens!” “Eu fui criado nessa mesma sociedade e não me tornei machista.” “Não há um aumento em relação aos crimes contra a mulher, está dentro da média esperada”. “A violência atinge a todos, independentemente do sexo”…

Intriga-me o seguinte: por que homens que se dizem feministas ficam tão chateados quando nos referimos à sociedade em que vivemos como machista e misógina? Por que é tão difícil, especialmente para os caras mais legais, entenderem que, não, o estupro e a(s) violência(s) contra a mulher não são frutos da nossa cabeça, que não precisamos ter sido estupradas para termos o direito de falar com propriedade sobre o assunto, uma vez que a opressão é sensível ao mais modesto dos nossos movimentos, e que essa não é uma prática associada apenas a alguns exemplares do sexo masculino, detentores de mentes psicopatas e criminosas?

A violência contra a mulher é um crime de poder e de ódio, reflexo de um modus cogitandi a que estamos todos submetidos.  Fomos ensinados assim e assim ensinamos (a não ser que você acorde do transe e substitua esse discurso por outro). A sociedade é doente do ponto de vista da construção de gênero (e é evidente que afirmo isso porque sou mulher!). E transmite a seus membros, sem exceção, a sua enfermidade. Aos homens, que são incapazes de entenderem o “gostosa” dirigido a uma mulher que passa na rua como uma violência. E às mulheres, que aprendem a se sentirem culpadas e a aceitarem a violência que lhes é conferida, cotidianamente, sem reagir. Pode-se definir o machismo em uma frase curta: a ideia de um feminino submetido a um masculino. Foi consolidado, junto a outros movimentos de opressão, com a vitória do capitalismo. Tão simples e tão complexo.

Não é raro, no entanto, que divergências irreconciliáveis venham se construindo dentro do próprio movimento feminista. Particularmente quando ele se organiza e propõe intervenções, manifestos, marchas e gritos. Podem os homens se manifestar no planejamento das ações feministas? (minhas opiniões, e as explicarei em outro momento, seguem entre os parêntesis: não!) A marcha das vadias é um movimento elitista, que atinge apenas a parte da sociedade que é feminista, já engajada em discussões de gênero? (sim! Mas é a única que propõe mudanças de paradigmas teóricos) Seria a slutwalk uma ação “menos concreta” e “mais ideológica” em relação ao aumento de policiamento e iluminação nas ruas? (NÃO, muito pelo contrário… essas medidas “mais ativas” são apenas paliativas e ineficientes, uma vez que, entre outros fatos, um terço dos casos de estupro ocorrem dentro de casa ou entre conhecidos!)

Explico-me um pouco melhor quanto ao último ponto. É simplesmente inexiste essa separação pretendida entre ações mais “concretas”  e ações mais ideológicas. Toda ação é ideológica  e quando se decide aumentar o policiamento das ruas, ainda que não pareça, está-se propondo que a nossa situação só poderá ser resolvida pelo mesmo Estado que nos impõe essa mesma ideologia que pretendemos abolir.

É uma faca de dois gumes pensar que a ideologia machista tenha que ser combatida com a submisão de seu discurso multi-milenar e onipresente nas sociedades conhecidas (em maior ou menor grau de tentativa de distanciamento desse discurso). De um lado, abordar a questão do ponto de vista discursivo pode parecer utópico e deveras moroso, no entanto, é ingênuo e absolutamente ineficiente imaginarmos qualquer mudança significativa e de base sem que haja, de fato, a “des-hegemonia” desse conjunto de valores e pensamentos. De outro, isso nos ata as mãos para organizarmos ações pertinentes e urgentes que resolvam, ainda que a curto prazo, os ataques acontecendo bem embaixo das nossa fuças.

O problema, na verdade, se constrói porque paira no ar a ideia, também machista em sua raiz, de que o combate imediato à violência que sofremos é um objetivo “simples” de ser alcançado. Basta que se aumente o policiamento nas ruas, as delegacias contra as mulheres, e, claro, que nós nos submetamos a certo toque de recolher e que observemos as impropriedades de nosso vestuário a as evitemos… elementar, meu caro Watson: em busca do empoderamento feminino, busca-se abrigo sob os cace(te)tes dos machos feministas que nos protegem e asseguram. Não é preciso que se exponha o ridículo desse raciocínio.

Chegamos à sinuca de bico que todo e qualquer discurso feminista tenta evitar: o que fazer, então? Não que eu pretenda, aqui, gritar Eureka! e resolver o problema do mundo! Mas acredito na força das palavras e acho que um discurso só pode ser debatido frente a um outro. É imprescindível que o machismo seja combatido em todos os seus componentes. Da indignação do pai ou do marido ou do namorado que teve a sua propriedade violentada (sim, o crime de estupro no Brasil é considerado um crime contra a moral e os costumes e não contra a mulher! E não, não estou deslegitimando o sentimento verdadeiro e solidário de nossos machos feministas, apenas aponto-lhes onde mora o machismo na sua fala) aos atos de ódio de fato, entre eles, o simples desrespeito verbal de um “elogio” entre desconhecidos na rua.

Mariana Musa

Grammaticus non erubescet soloecismo, si sciens fecit; erubescet, si nesciens

Em uma discussão inflamada na casa de uns amigos na semana passada, ouvi de uma pessoa querida que eu deveria acautelar-me quanto a certas exasperações argumentativas, sob o risco de me tornar tão radical quanto um Bolsonaro. Confesso que a grave denúncia me fez repensar alguns de meus posicionamentos, mas, para o meu alívio intelectual, bem em seguida, tive a venturança de (muito, muito  sem querer!)  esbarrar com esse texto (como o classificarei sem desobedecer ao meu amigo?) absolutamente perolar da estupidez crônica de um completo ignorante do assunto.

Reinaldo Azevedo comete uma série de gravíssimos erros epistemológicos quanto ao escopo  da disciplina que propõe entender o funcionamento da linguagem humana (a.k.a. a linguística e seus respectivos e tão variados ramos). O jornalista argumenta que certo livro indicado pelo MEC (que ensina professores e alunos a pensarem a língua como um organismo vivo, praticado, formulado e reformulado invariavelmente por diversos grupos de pessoas, diferentes em suas culturas, e ativas no processo de criação e colocação da linguagem em funcionamento), uma vez que pertence à nova “onda” intitulada pelo ilustríssimo de “pobrismo”, nada mais faz além de assassinar o dialeto incrível, intocável, imaculado e sacro da “Norma Padrão” (!).

Ai, ai, é difícil definir por onde devo começar. Vamos ver, sugiro algumas perguntas ao homem (in)culto: o que seria a “clara apologia da destruição da norma culta da língua”, caríssimo senhor? Por acaso imaginas que falemos da maneira como se escreve(u)? Ou sugeres que a segunda pessoa deva voltar a ser a pessoa de referência do vocativo, dado que Machado assim convocava? Ou talvez devamos falar em versos, emulando o Pessoa? Quem sabe então não possamos todos nos expressar como um Guimarães, mas como o Riobaldo não como o Manuelzão, é claro! Talvez estejas a argumentar, então, que violamos a Língua Padrão quando escrevemos vc ou tc num bate-papo deselegante do facebook… Mas não foi mesmo um dos Andrade quem advertiu certa vez “Deixa disso camarada. Me dá um cigarro”?

Seu texto, aqui o resumo, segue arrolando desvarios e apenas desvela a falta de conhecimento que possuis acerca de todo e qualquer processo envolvendo os fenômenos da linguagem! Atenho-me a um único exemplo descabido, ao argumentar que não poderia haver no Português uma regra de flexão da oração que não funcionasse em todos os seus termos , dizes: “Português não é inglês, por exemplo. Na nossa língua, os adjetivos têm flexão de gênero e número, e os verbos, de número. Quem dominar com mais eficiência esse instrumental terá vantagens competitivas vida afora. O que esses mestres estão fazendo, sob o pretexto de respeitar o universo do “educando”, como eles dizem, é contribuir para mantê-lo na ignorância.”. Ora, e em momento nenhum paraste para pensar por que não? Por que as línguas e as variantes linguísticas dessa mesma língua também não poderiam, assim como uma língua o é em relação a uma outra, serem diferentes??? A resistência a esse tipo de entendimento do funcionamento linguístico, no entanto, é facilmente explicável politicamente: é necessário que a elite acredite que tudo o que é consoante com a sua moral, em sentido estrito de hábito e costume, é “melhor”! Daí a irrevogabilidade de se preterir grande parte dos estudos desenvolvidos pela Linguística, bem como pelas Ciências Sociais, Filosofia, História, etc.

Senhor Azevedo, a discussão que o senhor tenta promover, além de simplista, é absurda, imbuída de toda a burrice arrogante, tão comum a maioria dos textos produzidos pela revista a que o senhor se liga. Nem pretendo começar a argumentar que entendeste perfeitamente a discussão que promove o material e de que maneira reverteste completamente a situação para que a crítica suprisse as tuas aspirações oposicionistas. A língua, ainda que os conservadores da “moral” e dos “bons costumes” venham a morrer de infelicidade com essa nova informação, não pode (e nunca pôde) ser mantida estável pela elite dominante, absolutamente crente da “superioridade” do dialeto que pratica (e, nesse caso, ignorante, inclusive, das vicissitudes e idiossincrasias fundantes de duas modalidades tão distintas quanto a oralidade e a escrita), mas creio que isso o saibas e muito bem!

Quanto aos que, de fato, não o sabem, lamento por vós! E traduzo o trecho que me serviu como título, retirado de uma das epístolas de um grande filósofo romano, de quem talvez já tenhais ouvido falar. Sêneca ensina “o gramático não enrubescerá com um solecismo, se o cometeu sabendo, mas enrubescerá, se o cometeu ignorando”. Oxalá, um pouquinho mais instruídos, deixeis de produzir asneiras como as proferidas nesses textinhos vis. No mais, só tenho isso a dizer: meu amigo tinha toda a razão, argumentações exasperadas são um perigo… para os ignorantes que insistem em se manter no espectro seguro, porém infértil da sua ignorância.

Mariana Musa

Quem tem medo de quem tem medo do “politicamente correto”? Ou: porque a discussão sobre esse discurso não faz nenhum sentido.

Em textos recém publicados no nosso Tab, Ana Flávia C. Ramos e Pajé Lara discutem os limites do chamado “humor preconceituoso” e a liberdade que deve ter a liberdade de toda a nossa expressão.

Os autores, em menor sintonia entre si, mas em maior sintonia, pelo menos,  com o nosso universal, ao intentarem delimitar o direito (inalienável!) das “minorias” em contestar o conteúdo ofensivo e discriminatório presente em piadas e outras produções de cunho literário, sociológico, filosófico etc., ainda que tenham construído, em diferentes aspectos, uma argumentação consistente do ponto de vista da legitimidade que deve ser conferida a esse movimento, deslizam, a meu ver, na análise do “funcionamento” desse discurso.

A polêmica, penso, tem sido colocada à partir de um ponto de vista enviesado. Não se trata de discutir se se deve ou não bradar à favor ou contra o discurso do politicamente correto. Se tal discurso é predominantemente da esquerda ou da direita. Se se pode fazer humor ou arte sem que se utilize de meios “ditos” escusos. Essa é uma questão falsa em termos do funcionamento da linguagem.

E é uma questão falsa por um motivo muito simples, um discurso politicamente correto, qualquer um que ele venha a ser, não existe. O que existe é apenas a sua tentativa, impossível todavia de realizar-se discursivamente. Afinal, só faz sentido que se troque “gay” por “homossexual” uma vez que se insista na classificação das pessoas de acordo com a sua sexualidade (exemplo fácil: uma pessoa branca, quando descreve uma outra desconhecida, produz essa frase: ”era aquele branco sentado no banco da frente”?).

Não  reconhecer que existam “maiorias” e “minorias” sociais é ingênuo. A manobra do contra-argumento do “preconceito inverso” é capenga. E imaginar que é possível que exista uma sociedade em que todos convivam juntos, mão à mão e em Paz é utópico. Todos praticamos algum tipo de preconceito! Sempre praticamos e sempre praticaremos (a questão, no entanto, é deveras mais séria quando nos encontramos inseridos em qualquer maioria). O que nos resta é  identificar a que conjunto de ideias nossos preconceitos nos remetem e que grupos de pessoas virão a se sentir (por óbvio!) ofendidos quando, e assim que, as expressarmos.

O problema, então, (indagarão meus amigos) é insolúvel? É impossível (con)vivermos numa sociedade sem preconceitos,? Estamos fadados a eternamente reagir a um grupo de pensamentos diametralmente oposto aos nossos? E a resposta é sim, mas com uma ressalva fundamental. Gentili, Bastos, Taz e cia ilimitada não cessam, por isso, de serem os imbecis visíveis que quem reagiu a suas piadas preconceituosas acha que eles são. No meu entender, eles devem ser reavaliados não como vítimas indefesas do espectro do politicamente correto e de sua patrulha sisuda, mas sim como os representantes que de fato são de certo grupo ideológico (dominante) com o qual não nos identificamos e contra o qual evidentemente sempre haveremos de reagir (e esse “nós” é facultativamente inclusivo).

As diferenças serão eternamente construídas, como argumenta muito bem o texto meio-galhardo, meio-bravio do Pajé. A prática do ódio associado à diferença, no entanto, é o que se configura como o verdadeiro vício a combatermos.

Mariana Musa

A força das palavras

É digno de extremo pesar reconhecer que o texto inaugural do nosso Tablóide tenha necessariamente que versar sobre os ímpios acontecimentos que se deram mais recentemente em nosso país.

“Aí cai na mão daquele ilustre ministro moreno escuro do supremo e já viu, né?”, disse em plenário certo deputado. Outro desses deputados, a quem acho ainda menos digna a menção, em caso amplamente divulgado pela mídia, associou o relacionamento com uma mulher negra à promiscuidade.

Já havia pensado no tema desse texto desde o primeiro ocorrido. Eu falaria sobre a falácia do “politicamente correto”. De como é simplista a noção de que a Língua pode ser capaz de cercear e reger as relações sociais. De como é inútil substituir-se “viado ou sapatão” por homossexual, “cabeça chata ou amarelo”, por nordestino, “preto ou moreno escuro”, por afro-descendente, etc. E de como não se exclui um conjunto de idéias preconcebidas apenas trocando-lhes, latebrosamente, o vocativo!

Aí veio a confirmação da minha tese. Expressa-se, em rede nacional e em absoluto desprovimento de pudor, uma opinião racista e preconceituosa sem que, imediatamente, se declare voz de prisão ao meliante!

Não entender as opiniões proferidas por esse e por outros delinqüentes como a violência que elas são é o que nutre todo o problema. É mister que se sublinhe a diferença entre uma opinião polêmica e um crime.

É crime contra o ser humano que se pense em superioridade advinda de qualquer característica física, conduta sexual, classe social, gênero ou orientação religiosa.

É crime que se discrimine outro ser humano em qualquer instância, seja ela prática ou ideológica, baseando-se em um conjunto de pensamentos pré-moldados histórica ou culturalmente.

É crime que se atente contra a integridade física E/OU moral de qualquer outro cidadão.

Os passos que devem ser dados para que se alcance plenamente essa percepção são lentos e demasiado largos. De forma nenhuma garantidos pela letra da Lei, e nem perto de serem garantidos pela inserção ingênua de uma nova palavra ou expressão ao vocabulário padrão e pronto, tudo resolvido!

Trata-se de uma árdua caminhada, que exige completa atenção, uma vez que é tão mais difícil vencer o lugar-comum das pré-concepções quanto é mais gratificante. Uma caminhada cuja garantia de sucesso reside apenas no pensamento de que seu fim ainda corre muito longe. Mas, acima de tudo, demanda a completa solidarização com os mais prejudicados ao longo desse caminho, as vítimas cotidianas dessa violência. E exige mais, que lutemos da única maneira efetivamente possível: que nunca nos ocultemos perante a violência e que, por cansaço ou simples desgosto pela humanidade, nos calemos!

Mariana Musa