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Sobre o aperto de mão entre Lula e Maluf

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“Vamos examinar as realizações do governo Lula e ver se o sistema político que forçou essas alianças impediu as coisas essenciais do governo Lula. Não impediu. Você tem 18 milhões que saíram da linha da miséria, 32 milhões que saíram da linha da pobreza, 40 milhões de empregos novos com elevação salarial. Você tem 73 Conferências Nacionais com 70 mil pessoas participando para decidir sobre todos” (Marilena Chauí, em entrevista à Caros Amigos de 2011)

Seguem alguns comentários a respeito da aliança PT-PP em São Paulo: 1) É curioso perceber que até agora o PP do Maluf esteve na base de apoio ao Kassab e ao Alckmin (inclusive ocupando cargos nos dois governos) e ninguém criticava ou reprovava tal aliança. Agora que o PP fechou com o Haddad, então, o Maluf foi redescoberto, ou melhor, o mau caratismo do Maluf (quanto a isso não existe dúvida alguma) voltou com toda a força à mídia. E tal fato (a volta do Maluf e suas patifarias) nas manchetes da imprensa favorece um lado muito claramente na disputa eleitoral. É preciso, portanto, tomar cuidado nas análises para não ser pautado pelas escolhas da grande imprensa. 2) Partidos como o do Maluf e todos os demais de pequeno ou médio porte não têm um programa político definido (exceção são os de extrema esquerda), justamente para poderem estar sempre ao lado do governo (ao fundar o PSD, uma típica agremiação de médio porte, Kassab disse que se tratava de um partido com “vocação governista”). Um dos instrumentos fundamentais para a sobrevivência desses partidos é justamente o voto personificado (“na pessoa”) em detrimento do voto em um partido (ou programa). Eles têm horror a qualquer reforma política que se aproxime de um modelo parlamentarista, em que o fundamento seja o voto em um partido e não em pessoas. Não é à toa que esses partidos de pequeno e médio porte vivem atraindo famosos (do mundo do esporte, da música, artes, etc) para suas legendas, pois assim conseguem um número estrondoso de votos e ainda escamoteiam a falta de programa (o PMDB é o único dos grandes partidos que também não apresenta um programa partidário muito definido, com a finalidade de estar sempre no poder) 3) O PT tem uma postura muito clara de alianças dentro do atual espectro político, qual seja, oposição ao PSDB/DEM (que possuem um programa vinculado ao neoliberalismo) e a outras legendas pequenas de extrema direita, associada com uma busca por alianças com os demais partidos (seja o PMDB, PP, PR, etc). Aliás, essa é a estratégia do próprio PSDB/DEM, só que com os polos invertidos (oposição ao PT e legendas de extrema esquerda e busca de alianças com os demais). Também não me agrada o PP de Maluf (e todos os demais partidos que não tem programa político definido), mas sem eles dificilmente se ganha eleição ou consegue se governar. Assim, é um cinismo da imprensa criticar a estratégia de alianças do PT e poupar a outros grandes partidos como o PSDB/DEM/PMDB. Ou melhor, não é cinismo só revela sua posição dentro do jogo político eleitoral. Enquanto não for feita uma reforma política séria, o sistema de alianças vai continuar sendo uma necessidade. 4) O nosso atual sistema político-eleitoral foi construído durante a ditadura militar e é moldado de forma a preservar o status quo, o que significa que ele funciona para deixar de fora qualquer programa que pretenda transformações sociais, econômicas e políticas. Vejo a atuação do PT como resultado de uma estratégia que visa ocupar os espaços políticos existentes no Brasil e a partir daí tentar fazer a diferença. Essa é a ideia! É importante chegar ao poder e construir um governo (mesmo com todas as amarras do jogo político) que traga transformações e melhoria na qualidade de vida para a população. E, em minha opinião, o PT tem conseguido produzir enormes avanços para o país (talvez nem tanto como esperávamos ou não no ritmo que queríamos), mas as diferenças com governos PSDB/DEM, por exemplo, são brutais. Não dá para ficar de fora do jogo esperando uma revolução acontecer, tem que construir as condições para as mudanças, tem que ocupar os espaços e tentar minar ao máximo o sistema perverso de exclusão que vivemos.

Ricardo Pirola

A consciência política do “povão”

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em documento que pretende orientar a oposição no cenário político atual explicitou sua opinião sobre os “movimentos sociais” ou “povão”, como ele mesmo prefere. Segundo FHC, não caberia à oposição disputar o voto das “massas carentes e pouco informadas”, pois já estariam cooptadas com “benesses e recursos” do governo do PT, que contaria inclusive com o apoio da mídia.

FHC tem demonstrado um desespero cada vez maior com o papel secundário que ocupa no jogo político atual e com as comparações de seu governo com o de seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Há três eleições presidenciais que o seu partido não vence, sendo que em duas delas concorreu com seu “afilhado político”, José Serra. Além disso, ao final do ano de 2010, Lula encerrou seu mandato com quase 90% de aprovação, enquanto FHC chegou ao fim de seu governo em 2002 com um índice de apenas 40%. De fato, são derrotas difíceis de engolir.

Dizer que o “povão” não passa de uma massa carente e pouco informada é, no mínimo, um grande erro de estratégia política. A repercussão de seu texto foi negativa inclusive dentro do próprio PSDB e de outros partidos aos quais é coligado. Todos sabem que não é nada rentável, em termos eleitorais, se indispor com a maioria dos eleitores brasileiros. Contudo, o texto revela muito mais do que um erro de estratégia, escancara a visão de FHC sobre a sociedade brasileira. Ao dizer que o “povão” é cooptado por conta de benesses e recursos do governo do PT, FHC transforma esse mesmo “povão” em simples massa de manobra política. Um grupo disforme, sem visão própria da situação em que vive, volúvel às “benesses e recursos” do governo. Nada poderia ser mais preconceituoso e errôneo do que isso.

Os movimentos sociais ou o “povão”, diferentemente do que pensa FHC, têm sua própria visão política, não é massa que se molda de acordo com o maior ou menor volume de “benesses e recursos”. O que FHC não percebe (ou talvez tenha medo de perceber) é que o “povão” tem agido em relação ao governo do PT de Lula e Dilma como uma classe social. E como toda classe social se move em nome de seus próprios interesses (a partir de experiências herdadas e partilhadas) em oposição a outros grupos socais. Historicamente as elites resistem em ver nas camadas mais baixas a possibilidade de ação e organização própria. Na história do Brasil, por exemplo, aos escravos foi sempre negada a capacidade de lutar por seus próprios objetivos, sem a tutela e ação dos brancos. FHC, em outros tempos, colaborou para a construção da imagem dos escravos como sendo incapazes de “ação autonômica”, cuja “consciência registrava e espelhava, passivamente, os significados sociais que lhe eram impostos”.

Os escravos, contudo, fizeram muito mais do que foi capaz de ver FHC. Organizaram-se coletivamente em movimentos de rebeldia contra a escravidão, entraram na justiça em nome da libertação do cativeiro, juntaram-se em grupos para comprar a alforria e brigaram dia a dia por cada espaço cotidiano nas fazendas ou cidades do Brasil. O que revela não só o quanto os cativos sabiam exatamente o que desejavam, como ainda tinham a plena consciência das mais diversas estratégias que os conduziria à liberdade. É certo que, há alguns anos atrás, o “ilustre” sociólogo pediu para que todos esquecessem o que ele havia escrito, mas como ele insiste em reciclar velhas idéias, é difícil não voltar à baila.

A ligação dos movimentos sociais com o governo PT não nasceu durante os últimos anos em que o partido esteve no comando da presidência do Brasil. Fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores congregou (e ainda congrega) militantes de movimentos sindicais, de trabalhadores rurais, de grupos de defesa da igualdade das mulheres e de luta pela igualdade racial. O próprio Lula, presidente de honra do partido, foi um migrante pobre, operário e líder sindical, antes de ser eleito duas vezes para presidir o Brasil. A trajetória, portanto, de formação do partido e do próprio Lula (sua principal liderança) ajuda a entender a maior proximidade que o governo do PT tem com os movimentos socais. Mas isso ainda não explica tudo.

O “povão” elegeu Lula por duas vezes seguidas e votou ainda em sua candidata à presidência do Brasil porque se sentiu representado por ele e seu partido. Os projetos sociais do governo PT (na presidência de Lula e agora na de Dilma) foram ao encontro dos interesses do “povão”.  Não são simples benesses como diz FHC, representaram para milhões de brasileiros e brasileiras a possibilidade de fazer três refeições ao dia, de não ter que se submeter a trabalhos extenuantes em troca de comida ou salários indignos pelo país a fora e de poder mandar os filhos para a escola, ao invés de ter que mandá-los para o trabalho para complementar a renda familiar. O Brasil ainda não é o país justo e igualitário que esperamos, mas mudanças cotidianas, revolucionárias, têm sido feitas na vida de muitos brasileiros. Para entender seus significados, porém, é preciso olhar o “povão” mais de perto. Algo que FHC parece insistir em não querer fazer.

Ricardo F. Pirola

FHC e a “novidade” das redes sociais

A sabedoria popular recomenda cautela ao se falar daquilo que não se conhece. Fernando Henrique Cardoso não deve ter aprendido bem essa lição (dizem que ele não é popular). Segundo a imprensa, em manifesto que pretende orientar a oposição para reconquistar o poder político, o ex-presidente defende a utilização das redes sociais na internet. Ele destaca que a classe média já não participa mais da vida política do país como antigamente, mas está presente em lugares onde os partidos praticamente não existem, como as redes sociais.

O curioso é que FHC deu uma entrevista recentemente dizendo que não utilizava nem twitter, nem facebook, duas das mais populares redes sociais na internet. (Ver vídeo abaixo – 2 minutos e 38 até 3 minutos e 50. É recomendável pular o resto…rs). Em entrevista para seus “amigos” do Manhattan Connection, o ex-presidente disse que o twitter é para aqueles que estão interessados em saber “o que você está fazendo o dia inteiro” (para bom entendedor, aqueles que não têm mais nada a fazer a não ser acompanhar o dia a dia das celebridades). Segundo jura FHC, ele está “fora desse jogo de prestígio, dessa coisa toda”. E prossegue: “o Serra ficou fascinado, e eu achei que foi a melhor coisa que ele fez pra sinalizar uma comunicação com os jovens, eu achei, foi o Twitter. Agora, eu próprio não faço. Eu uso o resto, eu uso o IPAD, BLACKBERRY, enfim, esse tipo de coisa eu uso, eu já estou há muito tempo assimilado”.

Ora, FHC não usa, mas recomenda. Uma dúvida, porém, fica no ar: se o Serra ficou fascinado pelo twitter e se sua campanha fez uso intenso dessa e de outras redes sociais na última eleição, por que FHC fala no assunto como uma grande novidade? Onde estava o ex-presidente em outubro de 2010? O manifesto de FHC nem bem chegou e já promete revelar “grandes novidades”.

Ricardo F. Pirola