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Quem cuida do trabalho de reprodução da vida?

Encontrei esse desabafo por aí, na rede.  Mulheres trabalham em média 24 horas em trabalhos domésticos não remunerados (limpar a casa, cuidar de criança e das mais velhas ou mais velhos). Os homens declaram gastar um pouco mais de 9 horas nas mesmas funções. As mulheres tem rendimento 30% menos que dos homens e somos poucas no Poder Legislativo, em torno de 10%.  Quem trabalha pela reprodução da sua vida?

Mulheres em Movimento Contra a Carestia (Achei no Blog do Nassif, mas não sei quem é o artista nem em que arquivo está, se alguém souber, favor mandar os créditos)

Mulheres e Homens deveriam ser iguais, mas são diferentes quando o assunto são os filhos

Não tem como negar, todo mundo é “filho da mãe”, mas o LAZARENTO É O PAI. Não quero dizer aqui que são “filhos da puta” porque puta pra mim é gente de muito valor. Com o fim dos relacionamentos dos casais é comum que o cuidado dos filhos fique sob a responsabilidade das mulheres. Descartando a idéia de “aborto social dos pais”, mulheres seguem lutando para educar e prover sua família e seus filhos sozinha. Digo SOZINHAS, porque o estado não provém as políticas publicas necessárias para amparar em sua plenitude o direito de nossos filhos, é sempre uma luta para conseguir a vaga na creche, ter uma escola de qualidade, o que fazer com os filhos das mulheres trabalhadoras no contra turno escolar ficam em nossas casas, sozinhos ou ainda, sob a supervisão de vizinhas, por que as periferias carecem de políticas de toda ordem…. Esporte, cultura e lazer…. Falaremos também da questão de classe social, as mulheres mais pobres, são sempre as mais prejudicadas, não recebem pensão alimentícia, e quando recebem esse valor não chega a R$ 200,00, o cara que paga ainda acha que é muito dinheiro e fica querendo saber: – O que você faz com a pensão que eu te dou? Só faltou completar a frase: – “Gastou no motel”?

Eles pensam: – Toda mãe solteira é puta!

Parece que agente compra lingerie com o maldito dinheiro e nem sabe que nossas calcinhas estão todas rasgadas porque não temos dinheiro nem pra comprar qualquer coisa que não seja de uso e necessidade básica.

ENTÃO SOMOS TODAS PUTAS E ELES NÃO SABEM QUANTO CUSTA EDUCAR, CUIDAR, ZELAR POR UM FILHO.

Os filhos de mães solteiras consomem mais de 80% de sua renda, não são apenas as garantias do mínimo: roupa, sapato, alimentação, moradia, água, luz, que se gasta dinheiro hoje em dia, nossos filhos querem acesso à internet, celular… e esta é uma lista que sempre cresce todos os dias.

Eu sempre falo para o meu filho: – De cada dez palavras que você me fala, nove é pedindo para eu comprar algo. Outro dia ele disse:

– Mãe compra um tablet? Eu disse: – não tenho dinheiro, logo em seguida ele disse: – Mãe compra um IPOD, eu disse, não tenho dinheiro. Ai a próxima foi: – Mãe, porque você não compra um camaro amarelo.

Naquela hora, eu pensei como mãe solteira que tenho de pagar todas as contas da casa e garantir a você todas as necessidades básicas de alimentação, moradia, vestuário…. e por isso não compro mais nada, nada mesmo, nem uma calcinha nova, então pensei que há quase dois anos, vivo com as mesmas duas calças Jens no guarda roupa e já tive que trocar seu guarda-roupa 3 vezes nos últimos seis meses porque você esta em fase de crescimento e perde tudo tão rápido. Hora é o pé que não pára de crescer, é a roupa que ta curta e apertada, é a meia, a cueca, o gibi, a figurinha, o joguinho, É POR ISSO QUE EU NÃO TENHO UM CAMARO AMARELO, QUE NÃO TENHO CARRO NENHUM, E TENHO QUE O TEMPO TODO DIZER PRA VOCE QUE NÃO TENHO DINHEIRO AFINAL EU NEM TENHO UMA VIDA MAIS. Tudo que faço é acordar de madrugada, organizar para você ir a escola, limpar a casa antes de sair para o trabalho, trabalhar, trabalhar como uma vaca, para no fim do mês, ver todo meu salário sumir em 5 dias e pagar todas as contas sozinhas porque decidi ser mãe solteira. Quando chego do trabalho corro fazer o jantar, organizar o banho, fazer a lição de casa, colocar a roupa na maquina, uffa! Eu tenho uma maquina! Mais ainda falta Lavar a louça, passar a roupa…. as vezes me vejo andando pela casa perdida … porque são tantas coisas para fazer que tem dia que nem quero começar, antes de acabar a noite ainda sentamos para contar historia, ler um livro, afinal, você precisa incentivar seu filho ler, para que ele seja uma pessoa bem sucedida no futuro, ele tem que ser bom aluno, todo fracasso escolar de seu filho será responsabilidade sua (MAE SOLTEIRA), porque o pai…. ahhhhh!!!! esse ninguém nunca lembra onde está. Muitas mulheres casadas ainda não perceberam que TAMBEM são mães solteiras!!! Na verdade eu não decidi ser mãe solteira. O ser proprietário do espermatozóide acha que a vida de pai começa e termina ali, depois da gozada e nós mulheres é que ficamos sem dormir pelo resto da vida. Naturalmente os homens são caracterizados pela sociedade por completa incapacidade de cuidar dos filhos, por isso a maior parte das decisões judiciais são favoráveis que os filhos fiquem sobre a guarda das mães. Pergunto-me: Quais são as reais condições paternas que protegem os homens de assumir a responsabilidade com os cuidados de seus filhos? Quais são as reais punições àqueles que não cumprem com seu devido direito? Porque as mulheres são punidas por não acatarem a um casamento infeliz para o resto de suas vidas? Para que um homem assuma a guarda legal do filho é necessário que se prove a incapacidade da mãe para só depois permitir que o pai tenha a guarda legal do filho na justiça, as condições paternas só são levadas em consideração caso as condições maternas sejam desfavoráveis, refletindo a estrutura da sociedade patriarcal a cerca da matéria em pauta. Chegam dizer a todo o momento que as crianças ficam melhores em companhia da mulher porque “mãe é mãe”. Isso reforça a idéia de que vivemos em uma estrutura desigual entre homens e mulheres. A Supremacia da maternidade gerenciada por décadas reforça os estereótipos do “ser mulher”, isso contraria o principio constitucional da igualdade de homens e mulheres, pai e mãe, e da lógica pressuposta no estatuto da criança e do adolescente que transcende as relações de gênero e afirma o direito à proteção integral assegurando-lhes as faculdades de seu desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade. Ainda que, a lei trate como igual o direito do pai e da mãe em exercer o poder familiar, ainda que todas as leis reafirmem que homens e mulheres são iguais em direitos e deveres, ainda que as leis enfatizem que é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder publico assegurar com absoluta prioridade a efetivação dos direitos de nossas crianças e adolescentes agora substitua a “família, comunidade, sociedade e poder publico” por “ mãe solteira”, “mulheres” e veja o tamanho de tudo que somos atribuídas a cuidar na ausência da família, da comunidade, sociedade e principalmente poder publico. Reestruturemos a sociedade para que as mulheres sejam realmente livres, obriguemos o estado a reduzir nossa jornada de trabalho, salários dignos, escolas de qualidade, políticas de lazer para as mulheres e a responsabilização dos homens que não cuidam de seus filhos. Com a Constituição Federal de 1988, a filiação passou, então, a ser regida pela prioridade absoluta à pessoa do filho, com igualdade entre o pai e a mãe. Na verdade, a justiça desse país tramita com base nos novos valores constitucionais e traz o instituto da guarda compartilhada, alem de determinar que a guarda monoparental fosse atribuída a quem tivesse melhores condições de criar a criança e o adolescente: NESTE CASO ÀS MULHERES, exploradas pelos baixos salários no mercado de trabalho, serviçal do trabalho domestico e cultural, realidade prática que demonstra a prevalência da guarda monoparental materna, impondo a investigação dos parâmetros sociais e culturais que, de algum modo, repercutem na atualidade. Exercer a guarda de um filho equivale a dar-lhe educação, carinho, afeto, respeito, atenção, sustento, alimentação, moradia, roupas, lazer, recursos médicos e terapêuticos; significa acolher em casa, sob vigilância e amparo; significa instruir, dirigir, moralizar, aconselhar; significa propiciar-lhe uma vida digna. A supremacia materna cultural presumida criminaliza as mulheres que defendem a igualdade no exercício da maternidade x paternidade. A divisão sexual do trabalho impõe à mulher a condição de desempenhar funções exclusivas na sociedade do universo feminino, portanto, estão sujeitadas a mendigar pagamento de pensão alimentícia ao genitor pela falta de capacidade do homem em atribuir as tarefas do cotidiano em sua rotina. Me poupe! Na verdade, o trabalho doméstico, não é reconhecido pelo sistema capitalista como um produto de exploração do universo feminino e sim como um dom natural das mulheres. Nega a estrutura patriarcal que se forma a sociedade sexista, num reconhecimento implícito da falta de capacidade do homem, quando na verdade é a zona de conforto para que a vida dos homens seja regado de bem estar e mordomias, claro que pagas com a mão de obra gratuita oferecida pelas mulheres. Se homens e mulheres são iguais em direitos, nós queremos: -redução da jornada de trabalho; -restaurantes populares; seria ótimo não ter que cozinhar todos os dias -Lavanderias populares; seria ótimo não ter que passar horas e horas lavando e passando – creches noturnas; seria ótimo marcar um cinema e ter com quem deixar seu filho; – escolas em período integral, laica, gratuita e de qualidade; assim íamos parar de ficar pedindo favores aos vizinhos e parentes que adoram jogar na sua cara os favores realizados.

E por fim, gostaria que as mulheres, mães solteiras tivessem a coragem de desabafar a pressão desta sociedade machista e de verdade parar de se culpar por não conseguir fazer tudo que deseja. E assim entregar aos pais solteiros a guarda de seus filhos para que a sociedade pare de dizer que somos mais capazes que os homens e sim, que somos iguais em direitos. Portanto ambos temos condições igualitárias no desenvolvimento da maternidade x paternidade de nossos filhos.

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Uma vitória das domésticas e da classe trabalhadora

Nessa última terça-feira o Brasil deu um passo memorável quanto ao reconhecimento de que as trabalhadoras e trabalhadores domésticos têm os mesmos direitos e são iguais a quaisquer outros trabalhadores do país, beneficiando mais de 6,6 milhões de pessoas. Esse número não é pouca coisa, pelo contrário, corresponde a quase o dobro da população do Uruguai, é quase igual á população do Paraguai e pouco abaixo da população da Suíça.

Votação do primeiro turno da PEC das Domésticas na Câmara (Acervo de Erika Kokai)

Votação do primeiro turno da PEC das Domésticas na Câmara (Acervo de Erika Kokai)

Para a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República – SPM, a aprovação, por unanimidade, da conhecida como “PEC das Domésticas” em segundo turno do Senado foi uma demonstração de que a sociedade brasileira amadureceu na compreensão de que, por uma questão de justiça social, era necessário equiparar os direitos das trabalhadoras domésticas ao restante das e dos trabalhadores.

A Constituição Federal, em seu art. 7º, arrola os direitos dos trabalhadores urbanos e rurais brasileiros, porém, grande parte desses direitos não englobaram as trabalhadoras domésticas. Com a aprovação da Emenda Constitucional, a categoria passa a ter 17 direitos a mais, como o salário família, o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço obrigatório, o seguro-desemprego, a garantia de salário-mínimo, a jornada de trabalho de 44 horas semanais, o pagamento de adicional por hora extra, entre outros.

Para a SPM, essa conquista vai além dos ganhos concretos e tem também um significado importante para a ampliação da autonomia econômica das mulheres, principalmente considerando que elas são hoje as principais responsáveis em 37,4% das famílias brasileiras e, na metade delas, estão sozinhas, sem um companheiro. Nessa situação se encaixam, seguramente, um grande número de empregadas domésticas.

Como em todos os momentos em que se aprova algo novo, as incertezas quanto aos impactos da nova lei podem causar um certo desconforto inicial, porém, a grande maioria das pessoas do país reconhece o valor e a justeza dessa aprovação. A nova legislação, que será promulgada pelo Congresso e entrará em vigor na próxima terça-feira, dia 2 de abril, denota um avanço importante nos direitos conquistados com a Constituição de 1988 e é motivo de orgulho para todos e todas aquelas que almejam a consolidação da democracia e buscam um Brasil justo e igualitário.

Tuiteira de 59 anos é acusada de ser robô programado pelo governo para atingir Veja

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Para justificar campanha contra Veja no Twitter, Reinaldo Azevedo acusa tuiteira de ser um robô programado pelo governo para atingir alvos políticos. Blogueiro também censurou comentário da acusada rebatendo denúncia.

Em “Como Fraudar a Internet“, Reinaldo Azevedo afirma que o perfil @lucy_in_sky_ “foi programado para identificar mensagens de outros usuários que contivessem os termos-chave dos tuitaços, replicando-as”. Seria perfeito para explicar mais um protesto contra a revista, se a dona do perfil não fosse uma pacata carioca de 59 anos, estudiosa do comportamento humano, amante dos animais e profissional da saúde. “Foi como tomar um tapa na cara”, conta ela.

Lucy (sua identidade será preservada), soube por amigos, no sábado que seu perfil era acusado de operar um esquema fraudulento para atacar a revista Veja com hashtags como #VejaTemMedo e #VejaBandida. “Trabalho e estudo. Não tenho muito para dar minha opinião, mas acho importante fazê-la. Por isso tantos retuítes”.

O perfil de Lucy tem exatos 3 anos. “Entrei no twitter, a princípio, por curiosidade, mas depois percebi todo o alcance social e político. Procuro participar de vários tuitaços que mostrem minha opinião política. Participei do #ForçaLula e sempre que posso faço campanha contra crueldade com animais”.

A conta de Reinaldo Azevedo é simples, mas não fecha. Ele usa o exemplo da China, que recruta jovens com tempo disponível para lançar mensagens de apoio ao governo na internet. Na cabeça da Veja, o regime chinês é muito parecido com o brasileiro. Nada faria mais sentido se o governo também pagasse militantes para detonar inimigos políticos.

Afinal, quem fica na frente de um computador, num final de semana, sem ser pago? Só para fazer política? “Quando eu vejo algum tweet que expresse minhas opiniões e posições, eu retuíto”. Diante de tantos RTs contra Veja, Reinaldo Azevedo criou uma fantasia: Lucy era um programa criado por petistas com a única intenção de detonar Veja “O que me impressionou na reportagem da Veja foi a história detalhada que eles inventaram, dizendo como é que eu “funcionava” como robô. Teve até infográfico”

Na noite de ontem, Lucy acessou o blog de Reinaldo Azevedo e deixou uma mensagem, afirmando ser dona do perfil acusado de ser robô. Seu comentário foi censurado e Azevedo continua afirmando que Lucy não passa de uma ficção virtual.

@pagina2: Você já deu RT na Mariana Godoy e na Real Morte elogiando a Regina Casé. Não é propriamente um RT anti-Veja, não é?

@lucy_in_sky: Claro que não!!!! rs Não sei por que cismaram com isso!

@pagina2: Como reagiu quando viu seu perfil na Veja?

@lucy_in_sky: Foi muito ruim ver na Veja meu perfil exposto daquela maneira, e ainda mais, “provando” que sou um robô. Foi um tapa na cara.

@pagina2: Quem é você, o que gosta de fazer?

@lucy_in_sky: Sou profissional da saúde e que tenho 59 anos. Adoro ler, ir ao cinema (recentemente vi “Medianeras”, um filme argentino sobre a nossa contemporaneidade virtual). Não tenho filhos, não gosto de futebol. Faço caminhadas no calçadão, sempre que tenho tempo.

@pagina2: Como usa o twitter?

@lucy_in_sky: Me interesso muito por tudo o que diga respeito ao nosso mal-estar contemporâneo, que faz, muitas vezes, que só possamos fazer política pela internet. Sou partidária dos direitos humanos e também dos animais, não suporto injustiça contra os mais fracos.

Por @pagina2 – publicado originalmente em http://pastebin.com/20yg4Fig

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o texto acima é uma entrevista de @pagina2 com @lucy_in_sky apontada pela revista Veja como sendo um robô a mando do Governo contra a liberdade de imprensa

A sua honra não é sua

"Sua ignorância é mais chocante que a minha promiscuidade"

Em 1828, Policena fez uma denúncia contra Joaquina e sua filha Maria Josefa, acusando as duas últimas de a terem ferido gravemente. Acusava-as também de ter falado injuriosas palavras. Policena declarou que, passando em frente da casa das rés, ouviu muito barulho e pedindo silêncio a elas, foi levada para dentro onde foi ofendida e apanhou de porretes. As rés não negaram que bateram em Policena e admitiram que disseram algumas palavras. Disseram que deveriam ser liberadas, pois o que falaram à Policena, era verdade, ela era prostituta. Para as rés, Policena vivia em concubinato, era prostituta e tinha comportamento lascivo, deixando qualquer homem desviado de sua família. Quase em sua totalidade, exceto por uma, as testemunhas não viram o acontecido e pouco podiam declarar se não o que ouviram. Mas, impressionantemente, todos que testemunharam concordavam que Policena era prostituta por ser “publicamente conhecida como fadista.” Policena cantava fados, música portuguesa, em festas e vivia com um homem, o que para as testemunhas eram provas concretas de seu comportamento lascivo de prostituta. “Andar passeando”, “ser fadista”, “viver amasiada” podiam ser lembrados para caracterizar a mulher como prostituta quando fosse conveniente. Para as agressoras, lembrar que Policena estava sempre presente em festas, cantando, levou o foco da acareação para a própria Policena e não para a agressão. A sentença proferida pelo Juiz resume bem como as mulheres que tinham uma vida no espaço público eram consideras: “Ela (Policena) não é merecedora da indenização de injuria que procurou e da qual não pode cobrar coisa alguma vista a publica renúncia que fez da estima pública, quando como dos autos consta-se que conserva em variada e continua devassidão.” Em 2011, o Superior Tribunal de Justiça inocentou o estuprador de três meninas de 12 anos. Para o juiz responsável, as meninas “já se dedicavam à prática de atividades sexuais desde longa data”, retirando, assim, a presunção de estupro quando há relação sexual com menores de 14 anos. Em um futuro próximo, aquele que estuprar uma criança poderá sempre se servir do argumento de que a vítima era prostituta e se safar da acusação. Mas o que é ser prostituta para os agressores e homens da justiça? É a mulher que não tem honra. Quando se é mulher, sempre questionam sobre sua honra, seja hoje, ou há 200 anos atrás. Para muitos, ao sair de casa desacompanhada, passear sozinha, ir a festas, as mulheres abrem mão de poderem ser consideradas honradas e, por consequência, podem sofrer qualquer tipo de violência. Ao existirem, perdem direitos. Perdem o direito de defesa, de serem consideradas vítimas. Podem ser xingadas, violentadas, espancadas, porque deixaram de ser humanas, porque só são mulheres.

Laura Candian Fraccaro (historiadora)

Repressão e movimento social – Pode polícia no campus?

Fora PM (Fonte: Por ora, desconhecida)

Na noite da última terça-feira, dia 01/11, a assembleia geral dos estudantes da USP deliberou ocupar o prédio da reitoria da universidade. Esta ocupação é uma continuidade da ocupação da administração da FFLCH, meio pelo qual os estudantes vêm desde quinta-feira passada se manifestando pelo fim do convenio entre USP e PM firmado pelo reitor João Grandino Rodas em setembro.

            O confronto ocorrido entre estudantes da USP e a Policia Militar teve início após a prisão de três estudantes que portavam maconha no campus da universidade. Durante a condução dos mesmos à delegacia, centenas de estudantes cercaram o carro da polícia para tentar impedir a detenção. A intensa discussão entre alunos e PMs terminou em confronto com direito a gás lacrimogênio, cassetetes, pedras e chutes.

            De lá pra cá meu desgosto só cresce com relação à mídia, estudantes reacionários e demais legalistas que se esforçam em fazer uma leitura absolutamente simplista e limitada da questão afim de deslegitimar o movimento que vem sendo tocado por esses estudantes. O tom com o qual a questão vem sendo abordada, ridiculariza o movimento, desvia a atenção das pautas levantadas e apresenta os manifestantes como filhos maconheiros da classe média. Enquanto isso, para qualquer pessoa que esteja um pouco mais interessada nos fatos e nas questões que deles foram levantadas, fica claro que os estudantes da USP que resistiram à ação policial pelo direito de fumar maconha não estão em busca de privilégios: a mobilização é pelo fim da militarização e do proibicionismo dentro e fora do campus.

            De fato as duas questões levantadas: militarização e proibicionismo, se apresentam como problemas centrais da realidade brasileira e os acontecimentos universitários da última semana só fazem sentido se pensados de maneira ampla.

Polícia e Ditadura Militar (Fonte: Portal do Sindicato dos Químicos de São Paulo)

           Por um lado, a PM no Brasil, cuja estrutura atual é presente da ditadura militar, se constitui na força policial mais violenta do mundo, autora de torturas e assassinatos em massa principalmente nas periferias do país. Por outro, vemos a falência da injustificada legislação proibicionista vigente no Brasil há quase 100 anos. A combinação desses dois absurdos é uma polícia repressiva absolutamente violenta que, gozando de ampla legitimidade, coibi livremente práticas culturais recreacionais que não afetam ninguém senão seus próprios consumidores.

            As reivindicações destes estudantes da USP estão longe de defender a universidade como território de exceção ou livre das leis. Pelo contrário, o que elas buscam é, ao reagir sobre a ofensiva militarizada dentro da universidade, questionar também o poder, repressão e controle social se conjugam num contexto mais amplo e extremamente injusto.

            Quando nos vemos diante dos últimos fatos ocorridos na USP deveríamos parar para pensar o óbvio: se, em plena democracia, é possível essa truculência com universitários de classe média, o que não se faz com negros e pobres das periferias do país e que não são de interesse de ninguém, muito menos da mídia? Ao contrario, preferimos debochar dos movimentos sociais como subterfúgio para nos omitir das questões de violência, opressão e criminalização da pobreza. Nos escondendo atrás do “estou fazendo a minha parte”, continuamos no nosso individualismo burguês sendo cúmplices dessa política opressiva e classista.

Por Thamires Regina Sarti Ribeiro Moreira, feminista, historiadora, vive na Moradia Estudantil da Unicamp e estuda drogas e prostituição na capital carioca da Bèle Époque.

Autora convidada para o TabnaRede

Crítica por esporte

Nas três Conferências Nacionais do Esporte (2004, 2006 e 2010) a população brasileira se manifestou a favor da criação de um Sistema Nacional do Esporte Lazer. Um sistema que pudesse orientar as funções, direitos e deveres de cada entidade ou organização ligada ao esporte, que pudesse nortear claramente os gastos públicos na área, que regulamentasse as relações entre o público e o privado e que finalmente determinasse as responsabilidades de municípios, estados e governo federal com relação ao esporte e lazer como direitos da população.

Ao invés de construir um Sistema Nacional de Esporte e Lazer, o Governo Federal e o Ministério do Esporte preferiram priorizar a sediação da Copa do Mundo e das Olimpíadas – algo que, por incrível que pareça, nunca foi uma demanda popular deliberada nas Conferências. De fato  a estratégia do governo foi um sucesso, já que a Copa e as Olimpíadas serão no Brasil.

Com isso os investimentos na área aumentaram muito, ganhamos visibilidade, esporte agora é questão de Estado e não mais de um único ministério. E assistimos agora a uma sucessão de escândalos envolvendo o ministro do esporte, membros de seu partido, ONGs “sem fins lucrativos”, federações, enfim, diversas organizações que na prática participam de um sistema esportivo nacional que não é normatizado.

As investigações dos escândalos que estão surgindo são urgentes e se forem levadas a fundo podem desnudar muito do que pode estar debaixo do tapete. Qualquer pessoa ligada ao esporte e lazer na região de Campinas já ouviu falar das irregularidades da relação Estado – ONG Bola prá Frente, denúncias requentadas pelo Fantástico, mas que existem desde 2007. A realização das investigações devem dar um passo efetivo para estancar a sangria de dinheiro público mal aplicado no esporte brasileiro, mas o fim dos escândalos só será possível quando as regras do jogo forem mais claras, quando um sistema nacional delimitar as incumbências do Estado e limitar o repasse de verbas públicas à ONGs.

Mas hoje nos perguntamos: quais são as regras desta área? Quais são as responsabilidades de cada ente governamental ou privado? O governo pode fazer contrato com ONGs? Qual o papel das prefeituras para a democratização do esporte nacional? Quem fiscaliza os programas da área? Pode dar dinheiro público para federações e confederações? Nada disso tem uma normatização nacional. Por isso governo faz o que quer e a mídia transforma o que bem entende em escândalo.

É importante que se respeite a deliberação popular manifestada no espaço legítimo das Conferências Nacionais do Esporte e que se crie o Sistema Nacional do Esporte. Agora mais do que nunca normatizar a área é necessário!

Lia Castelan, especial para o Tabnarede

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