Arquivo da categoria: Ensino Público

Repressão e movimento social – Pode polícia no campus?

Fora PM (Fonte: Por ora, desconhecida)

Na noite da última terça-feira, dia 01/11, a assembleia geral dos estudantes da USP deliberou ocupar o prédio da reitoria da universidade. Esta ocupação é uma continuidade da ocupação da administração da FFLCH, meio pelo qual os estudantes vêm desde quinta-feira passada se manifestando pelo fim do convenio entre USP e PM firmado pelo reitor João Grandino Rodas em setembro.

            O confronto ocorrido entre estudantes da USP e a Policia Militar teve início após a prisão de três estudantes que portavam maconha no campus da universidade. Durante a condução dos mesmos à delegacia, centenas de estudantes cercaram o carro da polícia para tentar impedir a detenção. A intensa discussão entre alunos e PMs terminou em confronto com direito a gás lacrimogênio, cassetetes, pedras e chutes.

            De lá pra cá meu desgosto só cresce com relação à mídia, estudantes reacionários e demais legalistas que se esforçam em fazer uma leitura absolutamente simplista e limitada da questão afim de deslegitimar o movimento que vem sendo tocado por esses estudantes. O tom com o qual a questão vem sendo abordada, ridiculariza o movimento, desvia a atenção das pautas levantadas e apresenta os manifestantes como filhos maconheiros da classe média. Enquanto isso, para qualquer pessoa que esteja um pouco mais interessada nos fatos e nas questões que deles foram levantadas, fica claro que os estudantes da USP que resistiram à ação policial pelo direito de fumar maconha não estão em busca de privilégios: a mobilização é pelo fim da militarização e do proibicionismo dentro e fora do campus.

            De fato as duas questões levantadas: militarização e proibicionismo, se apresentam como problemas centrais da realidade brasileira e os acontecimentos universitários da última semana só fazem sentido se pensados de maneira ampla.

Polícia e Ditadura Militar (Fonte: Portal do Sindicato dos Químicos de São Paulo)

           Por um lado, a PM no Brasil, cuja estrutura atual é presente da ditadura militar, se constitui na força policial mais violenta do mundo, autora de torturas e assassinatos em massa principalmente nas periferias do país. Por outro, vemos a falência da injustificada legislação proibicionista vigente no Brasil há quase 100 anos. A combinação desses dois absurdos é uma polícia repressiva absolutamente violenta que, gozando de ampla legitimidade, coibi livremente práticas culturais recreacionais que não afetam ninguém senão seus próprios consumidores.

            As reivindicações destes estudantes da USP estão longe de defender a universidade como território de exceção ou livre das leis. Pelo contrário, o que elas buscam é, ao reagir sobre a ofensiva militarizada dentro da universidade, questionar também o poder, repressão e controle social se conjugam num contexto mais amplo e extremamente injusto.

            Quando nos vemos diante dos últimos fatos ocorridos na USP deveríamos parar para pensar o óbvio: se, em plena democracia, é possível essa truculência com universitários de classe média, o que não se faz com negros e pobres das periferias do país e que não são de interesse de ninguém, muito menos da mídia? Ao contrario, preferimos debochar dos movimentos sociais como subterfúgio para nos omitir das questões de violência, opressão e criminalização da pobreza. Nos escondendo atrás do “estou fazendo a minha parte”, continuamos no nosso individualismo burguês sendo cúmplices dessa política opressiva e classista.

Por Thamires Regina Sarti Ribeiro Moreira, feminista, historiadora, vive na Moradia Estudantil da Unicamp e estuda drogas e prostituição na capital carioca da Bèle Époque.

Autora convidada para o TabnaRede

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A Autonomia da USP! – O caso da FFLCH

Depois do episódio grotesco da última quinta feira, estive buscando quem pudesse me dar um panorama do que realmente rolou… sabemos o que não esperar da imprenÇa golpista, mas escutei pessoas que estiveram lá presentes relatarem a ordem dos acontecimentos. Pesquisadores da própria FFLCH inclusive, concluindo que a PM foi armar o circo planejado pelo reitor e a estudantada caiu na onda, fácil fácil… e nosso governador Geraldinho… tinha o discurso armado (em todos os sentidos), claro.

Mas tudo isso é  fofoca. O que importa vem abaixo, com sua licença, caro Lincoln, publicarei seu texto que recebi no facebook de um amigo.

 

A Autonomia da USP!

Lincoln Secco, Livre Docente em História Contemporânea na USP

Não é comum ver livros como armas. Enquanto no dia 27 de outubro de 2011 a imprensa mostrou os alunos da FFLCH da USP como um bando de usuários de drogas em defesa de seus privilégios, nós outros assistimos jovens indignados, mochila nas costas e livros empunhados contra policiais atônitos, armados e sem identificação, num claro gesto de indisciplina perante a lei. Vários alunos gritavam: “Isto aqui é um livro!”.
Curioso que a geração das redes sociais virtuais apresente esta capacidade radical de usar novos e velhos meios para recusar a violação de nossos direitos. No momento em que o conhecimento mais é ameaçado, os livros velhos de papel, encadernados, carimbados pela nossa biblioteca são erguidos contra o arbítrio.
Os policiais que passaram o dia todo da ultima quinta feira revistando alunos na biblioteca e nos pátios, poderiam ter observado no prédio de História e Geografia vários cartazes gigantes dependurados. Eram palavras de ordem. Algumas vetustas. Outras “impossíveis”. Muitas indignadas. E várias poéticas… É assim uma universidade.
A violação da nossa autonomia tem sido justificada pela necessidade de segurança e a imagem da FFLCH manchada pela ação deliberada dos seus inimigos. A Unidade que mais atende os alunos da USP, dotada de cursos bem avaliados até pelos duvidosos critérios de produtividade atuais, é uma massa desordenada de concreto com salas superlotadas e realmente inseguras. Mas ainda assim é a nossa Faculdade!
É inaceitável que um espaço dedicado á reflexão, ao trabalho, à política, às artes e também à recreação de seus jovens estudantes seja ameaçado pela força policial. Uma Universidade tem o dever de levar sua análise crítica ao limite porque é a única que pode fazê-lo. Seus equívocos devem ser corrigidos por ela mesma. Se ela é incapaz disso, não é mais uma universidade.
A USP não está fora da cidade e do país que a sustenta. Precisa sim de um plano de segurança próprio como outras instituições têm. Afinal, ninguém ousaria dizer que os congressistas de Brasília têm privilégios por não serem abordados e revistados por Policiais. A USP conta com entidades estudantis, sindicatos e núcleos que estudam a intolerância, a violência e a própria polícia.
Ela deve ter autonomia sim. Quando Florestan Fernandes foi preso em 1964, ele escreveu uma carta ao Coronel que presidia seu inquérito policial militar explicando-lhe que a maior virtude do militar é a disciplina e a do intelectual é o espírito crítico… Que alguns militares ainda não o saibam, é compreensível. Que dirigentes universitários o ignorem, é desesperador.

Lincoln Secco
Universidade de São Paulo (USP)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) – Departamento de História
Av. Professor Lineu Prestes, 338
05508-900 – São Paulo – SP – Brasil

Centro Paula Souza: Farra com o dinheiro e com a educação pública

Amanhã (30/08) a partir das 15h está previsto o início da discussão e votação do PLC 43/2011 na Assembleia Legislativa do Estado São Paulo. Esse é o projeto de lei complementar que o governo de Geraldo Alckmin apresentou à Câmara dos Deputados como resultado da greve dos servidores do Centro Paula Souza (conhecido no Twitter como #circopaulasouza) entre maio e junho deste ano.

Em princípio, o que gostaríamos de acreditar é que, após 16 anos de desvalorização de docentes e funcionários administrativos,  o governo do PSDB enfim iria cumprir as inúmeras leis trabalhistas e constitucionais que nos regem e nos daria os devidos reajustes e (por que não?) aumentos reais. Mas isso não acontecerá.

Apesar da vitória da greve (lembro que em 18 de março o reajuste oferecido foi de zero%) por conseguirmos um reajuste de 11%, esse índice não é nem de longe o necessário para cumprir a lei, afinal faz cinco anos que nosso salário está congelado. De acordo com os cálculos do Sinteps, as perdas salariais dos docentes chega a 58% e as dos funcionários administrativos, a 71%.

Infelizmente, todo esse descaso com a educação pública não para aí. Nesse mesmo PLC 43/2011 constam também os índices de reajuste dos servidores da administração do Centro Paula Souza, entre eles,  o da diretora superintendente, Laura Laganá, que receberá a bagatela de 74% de aumento. Assim, o dinheiro que Alckmin e o PSDB afirmam há anos não existir para a educação poderá ser encontrado no holerite de vários de seus cargos de confiança a partir do mês que vem.

Para você não se esquecer das peripécias dos governos do PSDB e do Centro Paula Souza, há uma reportagem apresentada na Rede Record denunciando a posse ilegal de um terreno público pela Rede Globo.

Esse terreno, dias depois, passaria a fazer parte de um convênio entre o Governo do Estado de São Paulo e a Rede Globo para a construção de mais uma ETEC. Porque com o PSDB é assim: escola contruída gera propaganda, boa educação pública não.

Carolina Souza