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A Autonomia da USP! – O caso da FFLCH

Depois do episódio grotesco da última quinta feira, estive buscando quem pudesse me dar um panorama do que realmente rolou… sabemos o que não esperar da imprenÇa golpista, mas escutei pessoas que estiveram lá presentes relatarem a ordem dos acontecimentos. Pesquisadores da própria FFLCH inclusive, concluindo que a PM foi armar o circo planejado pelo reitor e a estudantada caiu na onda, fácil fácil… e nosso governador Geraldinho… tinha o discurso armado (em todos os sentidos), claro.

Mas tudo isso é  fofoca. O que importa vem abaixo, com sua licença, caro Lincoln, publicarei seu texto que recebi no facebook de um amigo.

 

A Autonomia da USP!

Lincoln Secco, Livre Docente em História Contemporânea na USP

Não é comum ver livros como armas. Enquanto no dia 27 de outubro de 2011 a imprensa mostrou os alunos da FFLCH da USP como um bando de usuários de drogas em defesa de seus privilégios, nós outros assistimos jovens indignados, mochila nas costas e livros empunhados contra policiais atônitos, armados e sem identificação, num claro gesto de indisciplina perante a lei. Vários alunos gritavam: “Isto aqui é um livro!”.
Curioso que a geração das redes sociais virtuais apresente esta capacidade radical de usar novos e velhos meios para recusar a violação de nossos direitos. No momento em que o conhecimento mais é ameaçado, os livros velhos de papel, encadernados, carimbados pela nossa biblioteca são erguidos contra o arbítrio.
Os policiais que passaram o dia todo da ultima quinta feira revistando alunos na biblioteca e nos pátios, poderiam ter observado no prédio de História e Geografia vários cartazes gigantes dependurados. Eram palavras de ordem. Algumas vetustas. Outras “impossíveis”. Muitas indignadas. E várias poéticas… É assim uma universidade.
A violação da nossa autonomia tem sido justificada pela necessidade de segurança e a imagem da FFLCH manchada pela ação deliberada dos seus inimigos. A Unidade que mais atende os alunos da USP, dotada de cursos bem avaliados até pelos duvidosos critérios de produtividade atuais, é uma massa desordenada de concreto com salas superlotadas e realmente inseguras. Mas ainda assim é a nossa Faculdade!
É inaceitável que um espaço dedicado á reflexão, ao trabalho, à política, às artes e também à recreação de seus jovens estudantes seja ameaçado pela força policial. Uma Universidade tem o dever de levar sua análise crítica ao limite porque é a única que pode fazê-lo. Seus equívocos devem ser corrigidos por ela mesma. Se ela é incapaz disso, não é mais uma universidade.
A USP não está fora da cidade e do país que a sustenta. Precisa sim de um plano de segurança próprio como outras instituições têm. Afinal, ninguém ousaria dizer que os congressistas de Brasília têm privilégios por não serem abordados e revistados por Policiais. A USP conta com entidades estudantis, sindicatos e núcleos que estudam a intolerância, a violência e a própria polícia.
Ela deve ter autonomia sim. Quando Florestan Fernandes foi preso em 1964, ele escreveu uma carta ao Coronel que presidia seu inquérito policial militar explicando-lhe que a maior virtude do militar é a disciplina e a do intelectual é o espírito crítico… Que alguns militares ainda não o saibam, é compreensível. Que dirigentes universitários o ignorem, é desesperador.

Lincoln Secco
Universidade de São Paulo (USP)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) – Departamento de História
Av. Professor Lineu Prestes, 338
05508-900 – São Paulo – SP – Brasil

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Às ruas… Contra o Baixo Astral (continuação)

Caros leitores, Aqui vai minha resposta ao debate travado na último segunda-feira. Tudo que está entre aspas são recortes de comentários feitos no texto anterior e podem ser lidos na íntegra aqui.
  1. Quem leu o texto completo teve a oportunidade de saber que eu disse que são vários os grupos acampados na Praça da Catedral e que dentre eles, está o grupo Anonymous, mal definido por mim como um grupo de “hackers”, tendo em vista que “hackerativismo” quer dizer mais do que a palavra usada no post e realmente contempla o link postado nos comentários por “Fernando”. Além do mais, ocupar praças e debater com a sociedade não se resume em dizer que se tratam de “hackers”.
  2. Por se tratar de um coletivo sem centralidade, entendo que nem todos os Anonymous, nem todos os acampamentos são a favor de coisas como Ficha Limpa ou ainda acampam contra a corrupção. Meu relato se restringe ao movimento de Campinas, mas pode ser útil para pensar outras localidades.

Ocupa Campinas

3. Eu estive no Acampamento por mim mesma. E eu fiz a foto que coloquei no post, que está por mim assinada. Pois bem, isso derruba todos os convites de “visite o acampamento e verá que é diferente”. As informações que debato no texto foram colhidas lá: li cartazes, troquei idéias, o que inclusive levou um de vocês a escrever em caixa alta “”EU JÁ NÃO TE EXPLIQUEI QUE…”. Quem está mal informado são os comentaristas, visto que há vários indícios no próprio post e vindo dos próprios militantes que derruba a tese de que “”hahahahahaha desinformada!”

4. “O acampamento tem autorização da prefeitura e da SETEC para ocupar a praça… mais do que isso, tem apoio da POPULAÇÃO.” Era exatamente esta idéia que eu gostaria de problematizar, ter apoio da prefeitura para acampar quer dizer pouca coisa diante do meu argumento que foi o de destacar a importância de se ocupar espaços públicos, de se fazer movimento social a despeito das leis, nem sempre feitas para contemplar a população e raramente aplicadas a todos. A desobediência civil é parte histórica do ativismo por alargamento de direitos e contra movimentos imperialistas, como foi o ato conhecido como o A20, ocorrido em 2001.

5. Em minha visita ao acampamento, me foi oferecido assinar um abaixo-assinado e pelo afastamento do prefeito Demétrio, por sua vez já afastado, e pelo Ficha Limpa. Portanto, não é verdade que “Pensamos em sistema financeiro, em filosofia de vida e não em ficha limpa.” Sou contra o ficha limpa e não esperava uma bandeira como essa de um movimento organizado por jovens e que se diz libertário. O projeto de se limitar os nomes de candidatos a cargos públicos nada mais é do que uma tentativa de tutelar o povo que, na visão de quem o defende “não sabe votar não é o pobre e sim o geral.” e, portanto, não seria capaz de pensar por si mesmo. Assim, o grupo que se diz libertário, que divulga em seu vídeo que “procura estimular a população a formular suas próprias idéias” defende também a bandeira de se eleger alguns como sendo mais libertários que os outros e acaba por sugerir a submissão do povo aos seus próprios interesses, que podem ser democráticos e populares, ou não. Pelo visto, ou não.

6.  Voltando ao “EU JÁ NÃO TE EXPLIQUEI QUE O UNICO MODO DE MUDAR A SOCIEDADE REALMENTE E DESTRUIR O SISTEMA CAPITALISTA É RETIRAR DOS POLITICOS O CARGO DE INTERMEDIARIO DOS PROCESSOS DECISÓRIOS LEGISLATIVOS, PERMITINDO QUE A SOCIEDADE DECIDA POR SI MESMA, DE FORMA DIRETA?”

Não. Não adianta mudar a forma do Estado enquanto a organização social e política for capitalista, mas deixemos isso para especialistas.

Ou melhor, não deixemos. A única forma de mudar a sociedade é por ela mesma, com autonomia e liberdade das classes subalternas. Caso contrário, quando grupos nascem e acreditam espalhar a verdade e eximem o povo da autonomia da própria transformação, geram estados totalitários, como a história já mostrou.

7. “No nosso grupo temos até morador de rua,”

O que dizer desse comentário? Até morador de rua! O leitor desse comentário deve considerar isto inusitado?

Agressões Pessoais e atentados contra a liberdade de expressão por parte do grupo Anonymous de Campinas

A princípio, eu não pensei em destacar as agressões. Elas são a forma que toma a birra quando a pessoa se sente contrariada e tinha esperança de que, ao passar a raiva, o debate de idéias livres e libertárias teria início. Como isto não ocorreu, vamos aos xingamentos:

8. “voce é digna de risadas, patética.”

Como se responde isso? Com “boba, feia, chata e fedida”?

9. “Qualquer comissionada ou pessoa com interesse econômicos partidários (no caso nitidamente o PT) pode escrever….”

Minha biografia é de fácil acesso, eu escrevo textos, dou minha opinião, tenho Curriculum Lattes, tenho perfil no Facebook. Para tomar conhecimento dela, não se requer acesso a banco de dados privilegiados, como disse um comentarista. Vejo que descobriram meu nome completo! Vejo que viram que sou militante do Partido dos Trabalhadores, algo que nunca escondi! Pois eu também trabalho para a fundação da entidade como historiadora e não sou comissionada, como afirmaram. E sim, qualquer um pode escrever e usar a internet: comissionados, historiadores, libertários, Anonymous, jogadores de futebol, donas de casa, e por aí vai. E que bom, ou não?

Milito num partido fundado em 1982 pela classe trabalhadora. O Partido dos Trabalhadores nunca fugiu da luta pela democracia, pelos direitos sociais e é parte constituinte da república ainda em construção que clama por participação popular e não pelo abandono das instâncias de poder; que não se furtou de se apropriar do feminismo e da luta contra a homofobia desde sua carta programática; está à frente dum projeto político que tirou 15 milhões da miséria, estes sujeitos que vocês acreditam proteger ao dizer que eles “não sabem votar”. E exijo respeito por minha escolha política;

Faço minha militância fora do horário de trabalho, o que me fez postar o texto à 1 da manhã da madrugada anterior e a resposta apenas 24 horas depois.

No entanto, levantar meus dados como vocês fizeram se parece com a prática da Polícia Política. O Departamento de Ordem Política e Social, dos anos 1960 e 1991 usava desse expediente, levantar dados sobre militantes de esquerda e persegui-los (tortura-los) até que desistissem do projeto político. Vocês não deixaram nada a desejar para a polícia da Ditadura Militar brasileira, contra a qual os militantes do PT lutaram arduamente contra. Além de levantar meus dados, me enviaram centenas de email com o conteúdo: WE ARE ANONYMOUS, WE NOT FORGIVE (Somos Anonymous, não perdoamos). Alguns vírus tentaram se instalar no meu HD. Vejo que o ativismo na internet de vocês se voltou contra mim porque não concordo com alguns dos seus pontos de vista. Fui eleita inimiga por não concordar? O objetivo das ameaças é me botar medo? É me calar?

Informo orgulhosa que isto ainda é um país livre e que a liberdade de expressão me é garantida, como a de vocês. Nenhum dos comentários no Tabnarede foram apagados ou censurados. A liberdade de vocês é tão importante quanto a minha. E não é porque eu sou filiada a um partido político que eu não posso desfrutar da liberdade de dizer o que eu penso, escrever, opinar e discutir. Nem eu, nem os outros 1 milhão de filiados.

10. “Eu acredito bastante na luta por uma sociedade mais igualitária.”

Este comentário foi o mais legal! A luta por uma sociedade mais igualitária é a luta de todos nós, os da esquerda, os não partidários, os libertários. E foi isto que me moveu a escrever o primeiro post. Preocupada com o avanço de pensamentos conservadores e reacionários eu visitei a ocupação para me encher de esperança. A frustração de ver bandeiras como Ficha Limpa e a celebração de um golpe que a ala mais conservadora da cidade de Campinas (herdeira dos cafeicultores escravistas) proferiu contra o estado democrático foi grande. Ao elencar as coisas que vi, eu desejei estar errada e que as demandas por liberdade aparecessem na indignação dos comentários. Ledo engano, o pensamento reacionário avançou com os muitos comentadores, em agressões pessoais, xingamentos, para não falar das ameaças que recebi por email. Aos que me ameaçaram com objetivo de me calar, aviso: NO PASSARÁN!

Comício pelas Diretas Já, na Praça da Sé, 25 de janeiro de 1984 (Foto: Oswaldo Palermo)

Glaucia Cristina Candian Fraccaro

Às ruas… Contra o Baixo Astral!

Buzine contra Corrupção! Manifestantes na Avenida Francisco Glicério (A foto é minha mesmo)

Depois de receber muitos convites pelas redes sociais. Depois de Occupy Wall Street. Depois do texto que eu escrevi há tempos. Pois bem, achei que devíamos voltar nossa atenção para o Acampa Campinas (não tem link pois não encontrei nada que não fosse do Facebook ou do Orkut). Trata-se de um movimento que consiste em acampar na Praça da Catedral (um lugar tradicional de manifestação dos movimentos sociais de Campinas), formar um coletivo apartidário, fazer flashmobs contra corrupção e pedir o afastamento do prefeito da cidade de Campinas, Demétrio Vilagra, do Partido dos Trabalhadores, por sua vez, já afastado pela Câmara Municipal há vários dias. Os manifestantes pertencem a um grupo conhecido como Anonymous, mas há outros grupos de jovens que também aderiram ao movimento.

Vou poupar o leitor da descrição minuciosa mas já aviso que esse texto é mais sobre Campinas que sobre o resto do mundo. Ou não?

A minha surpresa foi muito grande. Eu achava que não era possível que jovens que se deram ao trabalho de se organizar e ocupar a praça pública pudessem estar tão voltados a causas tão conservadoras. Não vou aqui me ater as ausências, não há um zine, uma rádio livre ou qualquer meio de comunicação que os registre que não seja a grande imprensa. Registro não é pouco, é o que fica, é o que marca e o que acumula para próximas ações, mas eu disse que não ia criticar por ausência de ação.

Os Anonymous e os demais grupos que acampam na Catedral reivindicam que a corrupção não pode acabar com o Brasil (assim, muito Brasil, quase nacionalismo) e pregam a aprovação do Ficha Limpa. E eu me pergunto, o que é corrupção? No sentido mais político, segundo Houaiss é:  “emprego, por parte de grupo de pessoas de serviço público e/ou particular, de meios ilegais para, em benefício próprio, apropriar-se de informações privilegiadas, acarretando crime de lesa-pátria”.

Eu já sempre achei estranho grupos que se organizam por meio da desobediência civil terem gostado tanto de lutar contra corrupção. Afinal, acampar na praça pública sem autorização da prefeitura é usar de algo público de forma ilegal. Eu não acho que isso impede um movimento legítimo de ocupar a referida praça, só acho que a bandeira deslegitima a desobediência civil. A praça é do povo como o céu é do condor, dizia o poeta. O espanto maior é ver que ali se reivindica a identidade Anonymous, hackers que promovem várias ações na internet, dentre elas planejam acabar com o Facebook ainda este ano, plataforma que, contraditoriamente, usam para se organizar em Campinas.

E segue! Eles são pelo Ficha Limpa, um projeto de lei que, no mínimo, tutela a população como se ela não soubesse votar, como se não fizesse escolhas de acordo com os próprios interesses. Isso partir de setores mais conservadores, eu entenderia, mas de um movimento de jovens acampados?

A bandeira “Fora Demétrio” também causa espanto. Depois de quase vinte anos em que a direita não vence uma eleição em Campinas, assumiu o poder de forma para lá de controversa, na última semana. A cassação do ex-prefeito Hélio não é a mesma coisa que um afastamento, mas aí é outra história. O que impressiona é a juventude tomar de pronto a pauta dos grandes jornais da região e não se preocupar com a correlação de forças envolvida num processo em que a direita assume a prefeitura sem ter vencido as eleições (com apoio do PSOL, mas esta conversa é outra); houve um tempo que o inadmissível era isso! Quem ganha e quem perde com o afastamento do Demétrio? Para o acampamento, pouco importa. O que importa é lutar pela moralidade na política. Moralidade?

Lutar por mais participação política não é mais pauta de movimento social da juventude, tendo em vista que ainda é uma parte da sociedade alijada de políticas públicas? Transferir a culpa das mazelas políticas a todos políticos parece ser tarefa bem mais fácil do que compreender que a república brasileira, recém fundada e em pleno processo de construção, clama por participação popular num governo de esquerda que jamais fechou o canal de diálogo, nem mesmo com parte da sociedade que não é organizada, como nas Conferências Nacionais.

A impressão que temos de que a sociedade saiu às ruas em 2011 precisa ser analisada com mais calma, não pode ser tomada como a expressão de indignação de um povo. Parte dessas manifestações encontra o apoio da mídia corporativa e não parece estar atenta a questões populares.

Junte tudo: um movimento apartidário, mas que não é autônomo, quase nacionalista, que luta pela moralidade, que saiu na capa da Veja (e não foi como Tática da Baderna, notem bem) e “está nem aí” para a participação popular. Que resultado deu aí?

Glaucia Fraccaro

Ajoelhaço – tem muito homem disposto a pedir perdão!

O movimento cultural Cooperifa tem dado um belo exemplo da movimentação que pode ser feita para contribuir com o fim da violência contra as mulheres. Os homens se prontificam a assumir a culpa e tentar se redimir. E as mulheres totalmente livres a aceitá-las ou não.

2009

2010

 

 

Por que temos medo de andar na rua de noite? Marcha das vadias e os feminismos

Discutir machismo e feminismo anda tão batido que se corre sério risco de chover no molhado. Há tantos textos excelentes, de pesquisadoras de gênero, de feministas engajadas, de sociólogas, antropólogas e filósofas, que testículos como o meu vão parecer manifestinhos bravios de crianças que emburram. No entanto, em meio às mais despretensiosas conversas entre amigos (homens e mulheres legais, que se dizem combatentes do ideário machista, enfim, machos e fêmeas feministas), vira e mexe nos deparamos com declarações de arrepiar os cabelos! Acho que não podemos temer a chuva.

“O estupro é execrado pelos homens!” “Eu fui criado nessa mesma sociedade e não me tornei machista.” “Não há um aumento em relação aos crimes contra a mulher, está dentro da média esperada”. “A violência atinge a todos, independentemente do sexo”…

Intriga-me o seguinte: por que homens que se dizem feministas ficam tão chateados quando nos referimos à sociedade em que vivemos como machista e misógina? Por que é tão difícil, especialmente para os caras mais legais, entenderem que, não, o estupro e a(s) violência(s) contra a mulher não são frutos da nossa cabeça, que não precisamos ter sido estupradas para termos o direito de falar com propriedade sobre o assunto, uma vez que a opressão é sensível ao mais modesto dos nossos movimentos, e que essa não é uma prática associada apenas a alguns exemplares do sexo masculino, detentores de mentes psicopatas e criminosas?

A violência contra a mulher é um crime de poder e de ódio, reflexo de um modus cogitandi a que estamos todos submetidos.  Fomos ensinados assim e assim ensinamos (a não ser que você acorde do transe e substitua esse discurso por outro). A sociedade é doente do ponto de vista da construção de gênero (e é evidente que afirmo isso porque sou mulher!). E transmite a seus membros, sem exceção, a sua enfermidade. Aos homens, que são incapazes de entenderem o “gostosa” dirigido a uma mulher que passa na rua como uma violência. E às mulheres, que aprendem a se sentirem culpadas e a aceitarem a violência que lhes é conferida, cotidianamente, sem reagir. Pode-se definir o machismo em uma frase curta: a ideia de um feminino submetido a um masculino. Foi consolidado, junto a outros movimentos de opressão, com a vitória do capitalismo. Tão simples e tão complexo.

Não é raro, no entanto, que divergências irreconciliáveis venham se construindo dentro do próprio movimento feminista. Particularmente quando ele se organiza e propõe intervenções, manifestos, marchas e gritos. Podem os homens se manifestar no planejamento das ações feministas? (minhas opiniões, e as explicarei em outro momento, seguem entre os parêntesis: não!) A marcha das vadias é um movimento elitista, que atinge apenas a parte da sociedade que é feminista, já engajada em discussões de gênero? (sim! Mas é a única que propõe mudanças de paradigmas teóricos) Seria a slutwalk uma ação “menos concreta” e “mais ideológica” em relação ao aumento de policiamento e iluminação nas ruas? (NÃO, muito pelo contrário… essas medidas “mais ativas” são apenas paliativas e ineficientes, uma vez que, entre outros fatos, um terço dos casos de estupro ocorrem dentro de casa ou entre conhecidos!)

Explico-me um pouco melhor quanto ao último ponto. É simplesmente inexiste essa separação pretendida entre ações mais “concretas”  e ações mais ideológicas. Toda ação é ideológica  e quando se decide aumentar o policiamento das ruas, ainda que não pareça, está-se propondo que a nossa situação só poderá ser resolvida pelo mesmo Estado que nos impõe essa mesma ideologia que pretendemos abolir.

É uma faca de dois gumes pensar que a ideologia machista tenha que ser combatida com a submisão de seu discurso multi-milenar e onipresente nas sociedades conhecidas (em maior ou menor grau de tentativa de distanciamento desse discurso). De um lado, abordar a questão do ponto de vista discursivo pode parecer utópico e deveras moroso, no entanto, é ingênuo e absolutamente ineficiente imaginarmos qualquer mudança significativa e de base sem que haja, de fato, a “des-hegemonia” desse conjunto de valores e pensamentos. De outro, isso nos ata as mãos para organizarmos ações pertinentes e urgentes que resolvam, ainda que a curto prazo, os ataques acontecendo bem embaixo das nossa fuças.

O problema, na verdade, se constrói porque paira no ar a ideia, também machista em sua raiz, de que o combate imediato à violência que sofremos é um objetivo “simples” de ser alcançado. Basta que se aumente o policiamento nas ruas, as delegacias contra as mulheres, e, claro, que nós nos submetamos a certo toque de recolher e que observemos as impropriedades de nosso vestuário a as evitemos… elementar, meu caro Watson: em busca do empoderamento feminino, busca-se abrigo sob os cace(te)tes dos machos feministas que nos protegem e asseguram. Não é preciso que se exponha o ridículo desse raciocínio.

Chegamos à sinuca de bico que todo e qualquer discurso feminista tenta evitar: o que fazer, então? Não que eu pretenda, aqui, gritar Eureka! e resolver o problema do mundo! Mas acredito na força das palavras e acho que um discurso só pode ser debatido frente a um outro. É imprescindível que o machismo seja combatido em todos os seus componentes. Da indignação do pai ou do marido ou do namorado que teve a sua propriedade violentada (sim, o crime de estupro no Brasil é considerado um crime contra a moral e os costumes e não contra a mulher! E não, não estou deslegitimando o sentimento verdadeiro e solidário de nossos machos feministas, apenas aponto-lhes onde mora o machismo na sua fala) aos atos de ódio de fato, entre eles, o simples desrespeito verbal de um “elogio” entre desconhecidos na rua.

Mariana Musa

(Nova) Luta por direitos sociais no Brasil

Comício pelas Diretas Já, na Praça da Sé, 25 de janeiro de 1984 (Foto: Oswaldo Palermo)

A turba se insurgiu em 2011, e olha que o ano nem acabou. Gosto de pensar que os fatos não são isolados. Nos últimos seis meses, nos levantamos contra o elitismo da classe média texana paulista com a Marcha da Gente Diferenciada em Higienópolis, a da Maconha, a das Vadias, a pela Liberdade. Ainda teve as greves de professores, das Etec´s e Fatec´s paulistas às universidades da Bahia; manifestações coroadas com a maior Parada Gay do mundo, que conglomerou 4 milhões de seres humanos na Avenida Paulista. Em meio a isso, o Supremo Tribunal Federal legalizou a união civil homossexual. Ainda no porvir desse ano, devemos contabilizar as já tradicionais Marcha das Margaridas e o Grito dos Excluídos. Pelo menos.

Se unirmos num argumento apenas esses fatos, vamos concluir que os movimentos sociais brasileiros não se calaram diante dos avanços promovidos por oito anos de um governo que privilegiou o social. A sociedade organizada não deixou de lado a crítica: partiu a praça pública e mostrou onde estão parte das falhas. Para começar, isso já é uma brilhante constatação, pasmemos nós, a de que a ultra-esquerda brasileira está redondamente enganada: governos de esquerda não servem como amortecedores da luta de classes. Pelo contrário, são esses governos que não temem a organização popular e que enfrentam democraticamente um ambiente político hostil de fortes críticas em nome do alargamento dos direitos sociais.

No entanto, os ares de progresso e avanço, ainda que conduzidos por mais de oito anos de governo do Partido dos Trabalhadores, não deveriam se resumir ao que postulam o partido ou o governo. A ministra Carmem Lúcia, ao votar a favor da legalidade da Marcha da Maconha, lembrou (já que insistimos em esquecer) que a praça pública brasileira foi esvaziada debaixo de porrete por muitos anos e que ocupa-la, é a missão de qualquer povo que queira construir a própria república. Pois bem, não surpreende que isso se desdobre num sério enfrentamento com a ala conservadora da sociedade.

A cada conquista progressista, setores conservadores como a Igreja respondem virulentamente seja na imprensa, seja no parlamento (vide o sofrível desabafo da ex-vedete Miriam Rios), seja nas ruas. Ao passo que marcha da maconha seja reconhecida legítima, a liberdade de expressão de quem é contra ela também está garantida. Garantidíssima, aliás. Trata-se do efeito colateral, repito, de um povo que almeja construir a própria república.

Diante desse cenário, não parece ser historicamente viável permitir que o velho costume pouco republicano brasileiro, o de relegar o debate e a disputa por ideias às classes dominantes, se perpetue no país. É hora de entender que presidentes são eleitos em meio à controversas correlações de forças, que nem sempre (ou quase nunca) atendem às reivindicações dos movimentos sociais, e que cabe à eles a transformação da cultura política brasileira, antes mesmo de se exigir que o que nos indigna se torne crime na letra da lei.

Para que realmente se assuma o enfrentamento com o pensamento conservador, não basta gritarmos feito Miriams Rios ou Bolsonaros em blogs ou mesas de bar (ainda que seja nesses espaços que esquerda festiva prefira se congregar), ou ainda de nos ocuparmos com o velho embate “a mídia contra o povo”. É preciso tomar a praça pública, disputar discursos e renovarmos a cultura política do país. É fundamental que se coloquem boas idéias no lugar das estúpidas para que novos projetos e os movimentos sociais não se tornem reféns da política federal. Vai uma república novíssima aí?

Esse post é um pouco uma resposta ao texto da Gisela Geraldi.

Glaucia Fraccaro

República, socialismo e PT – Tabeiros enfrentam debate proposto por Juarez Guimarães

Tabeiros, leitores e simpatizantes enfrentaram numa dessas redes sociais o debate proposto por Juarez Guimarães no artigo “A esquerda e a república” publicado no portal Carta Capital no dia 15 de junho de 2010. A discussão saiu da cabeça da Renatinha, isso explica ela ser a interlocutora dos comentários. O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Cartaz do PT do Pará, 1980. Faz parte da exposição PT 30 ANOS realizada pelo Centro Sérgio Buarque de Holanda em 2010.

 Os comentários e análises seguem aqui:

José Gabriel Labaki Tomaselli

Rezinha, muito bom o texto. No blog, tento o tempo todo argumentar que demonizar a política e os políticos é uma estratégia do poder para o PSDB. Se o Estado não presta, então diminua-o a ponto de poder jogá-lo na privada, como dizia o Reagan. A tucanada não tem nada pra apresentar, a não ser a diminuição do Estado. Como FHC é extremamente rejeitado, o eleitorado brasileiro não aceita a diminuição da máquina pública. Resta então, o ataque moralista udenista anti-corrupção.

O PT no governo nunca buscou o socialismo, embora internamente essa ainda seja a busca para setores do partido. Lembro quando em 2001 lá na Unicamp teve uma série de debates sobre os 140 anos da Comuna de Paris e a principal discussão era essa, o movimento foi socialista ou republicano. Essa briga é velha de guerra. Ser republicano significa aceitar o capitalismo e isso é muito difícil pra esquerda. Quando o Meirelles foi para o BC em 2003, eu juro que decidi romper com o maior de todos. Por alguns minutos, mas que pensei, pensei.

Mas o republicanismo é inclusivo, capitalismo para todos. Por isso a estratégia de desenvolvimento baseado no consumo. E aí sobra ataque dos dois lados, esquerda e direita. A direita por considerar imoral o crédito fácil para pobre comprar geladeira, isso quebra o país. A esquerda por considerar imoral a sociedade consumista. Tanto de um lado quanto de outro, o argumento contra o governo é moralista. E política não pode ser feita à base da moral. Nunca!

 Mariana Musa

me permite um adendozinho, zé? “ser republicano significa aceitar o capitalismo” não é um pouco anacrônico? Afinal, Roma era uma república (cunhou o termo aliás)… [é uma dúvida só… fiquei pensando depois que li vcs!] Um bjão saudoso

José Gabriel Labaki Tomaselli

Tem razão Musa, Roma era uma república, mas não é anacronismo não. Com a Idade Média o conceito de república foi abandonado por uma sociedade de privilégios. A ideia de república só foi retomado com o fim do Antigo Regime (Iluminismo, Revolução Americana, Francesa e Industrial). Após o surgimento do socialismo, ser republicano significava aceitar o capitalismo, pensando nos ideais de igualdade à la Rousseau, não na igualdade marxista ou anarquista. Foi nesse sentido que falei em república, capitalismo com inclusão de todos no capitalismo. Foi isso que o lulopetismo buscou, atingindo resultados expressivos. Discussão longa e prazerosa que merece uma mesa de bar, acha não?

Mariana Musa

acho demais!!! vamos marcar mesmo? Entendi o seu ponto agora, a construção moderna do ideário de república, a partir do advento do socialismo, está ligada ao capitalismo… perfeito! Pensei no anacronismo simplesmente pq a frase solta não se aplica à antiguidade… (certeza que a Rê vai ficar com invejinha da nossa super cerveja pra discutir esses conceitos no Bar!!! hahaha)

 Glaucia Fraccaro

Chamo Bernardo Cotrim para falar a quantas anda o socialismo petista. Tento pensar historicamente, se o PT conseguir consolidar a republica ja vai ser pra lah de transformador porque o Estado brasileiro esteve muito ocupado (ate 2002) em servir ao PRP paulista.

Quem foi convocado ao debate ou quiser participar, comenta aqui: