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Repressão e movimento social – Pode polícia no campus?

Fora PM (Fonte: Por ora, desconhecida)

Na noite da última terça-feira, dia 01/11, a assembleia geral dos estudantes da USP deliberou ocupar o prédio da reitoria da universidade. Esta ocupação é uma continuidade da ocupação da administração da FFLCH, meio pelo qual os estudantes vêm desde quinta-feira passada se manifestando pelo fim do convenio entre USP e PM firmado pelo reitor João Grandino Rodas em setembro.

            O confronto ocorrido entre estudantes da USP e a Policia Militar teve início após a prisão de três estudantes que portavam maconha no campus da universidade. Durante a condução dos mesmos à delegacia, centenas de estudantes cercaram o carro da polícia para tentar impedir a detenção. A intensa discussão entre alunos e PMs terminou em confronto com direito a gás lacrimogênio, cassetetes, pedras e chutes.

            De lá pra cá meu desgosto só cresce com relação à mídia, estudantes reacionários e demais legalistas que se esforçam em fazer uma leitura absolutamente simplista e limitada da questão afim de deslegitimar o movimento que vem sendo tocado por esses estudantes. O tom com o qual a questão vem sendo abordada, ridiculariza o movimento, desvia a atenção das pautas levantadas e apresenta os manifestantes como filhos maconheiros da classe média. Enquanto isso, para qualquer pessoa que esteja um pouco mais interessada nos fatos e nas questões que deles foram levantadas, fica claro que os estudantes da USP que resistiram à ação policial pelo direito de fumar maconha não estão em busca de privilégios: a mobilização é pelo fim da militarização e do proibicionismo dentro e fora do campus.

            De fato as duas questões levantadas: militarização e proibicionismo, se apresentam como problemas centrais da realidade brasileira e os acontecimentos universitários da última semana só fazem sentido se pensados de maneira ampla.

Polícia e Ditadura Militar (Fonte: Portal do Sindicato dos Químicos de São Paulo)

           Por um lado, a PM no Brasil, cuja estrutura atual é presente da ditadura militar, se constitui na força policial mais violenta do mundo, autora de torturas e assassinatos em massa principalmente nas periferias do país. Por outro, vemos a falência da injustificada legislação proibicionista vigente no Brasil há quase 100 anos. A combinação desses dois absurdos é uma polícia repressiva absolutamente violenta que, gozando de ampla legitimidade, coibi livremente práticas culturais recreacionais que não afetam ninguém senão seus próprios consumidores.

            As reivindicações destes estudantes da USP estão longe de defender a universidade como território de exceção ou livre das leis. Pelo contrário, o que elas buscam é, ao reagir sobre a ofensiva militarizada dentro da universidade, questionar também o poder, repressão e controle social se conjugam num contexto mais amplo e extremamente injusto.

            Quando nos vemos diante dos últimos fatos ocorridos na USP deveríamos parar para pensar o óbvio: se, em plena democracia, é possível essa truculência com universitários de classe média, o que não se faz com negros e pobres das periferias do país e que não são de interesse de ninguém, muito menos da mídia? Ao contrario, preferimos debochar dos movimentos sociais como subterfúgio para nos omitir das questões de violência, opressão e criminalização da pobreza. Nos escondendo atrás do “estou fazendo a minha parte”, continuamos no nosso individualismo burguês sendo cúmplices dessa política opressiva e classista.

Por Thamires Regina Sarti Ribeiro Moreira, feminista, historiadora, vive na Moradia Estudantil da Unicamp e estuda drogas e prostituição na capital carioca da Bèle Époque.

Autora convidada para o TabnaRede

A Autonomia da USP! – O caso da FFLCH

Depois do episódio grotesco da última quinta feira, estive buscando quem pudesse me dar um panorama do que realmente rolou… sabemos o que não esperar da imprenÇa golpista, mas escutei pessoas que estiveram lá presentes relatarem a ordem dos acontecimentos. Pesquisadores da própria FFLCH inclusive, concluindo que a PM foi armar o circo planejado pelo reitor e a estudantada caiu na onda, fácil fácil… e nosso governador Geraldinho… tinha o discurso armado (em todos os sentidos), claro.

Mas tudo isso é  fofoca. O que importa vem abaixo, com sua licença, caro Lincoln, publicarei seu texto que recebi no facebook de um amigo.

 

A Autonomia da USP!

Lincoln Secco, Livre Docente em História Contemporânea na USP

Não é comum ver livros como armas. Enquanto no dia 27 de outubro de 2011 a imprensa mostrou os alunos da FFLCH da USP como um bando de usuários de drogas em defesa de seus privilégios, nós outros assistimos jovens indignados, mochila nas costas e livros empunhados contra policiais atônitos, armados e sem identificação, num claro gesto de indisciplina perante a lei. Vários alunos gritavam: “Isto aqui é um livro!”.
Curioso que a geração das redes sociais virtuais apresente esta capacidade radical de usar novos e velhos meios para recusar a violação de nossos direitos. No momento em que o conhecimento mais é ameaçado, os livros velhos de papel, encadernados, carimbados pela nossa biblioteca são erguidos contra o arbítrio.
Os policiais que passaram o dia todo da ultima quinta feira revistando alunos na biblioteca e nos pátios, poderiam ter observado no prédio de História e Geografia vários cartazes gigantes dependurados. Eram palavras de ordem. Algumas vetustas. Outras “impossíveis”. Muitas indignadas. E várias poéticas… É assim uma universidade.
A violação da nossa autonomia tem sido justificada pela necessidade de segurança e a imagem da FFLCH manchada pela ação deliberada dos seus inimigos. A Unidade que mais atende os alunos da USP, dotada de cursos bem avaliados até pelos duvidosos critérios de produtividade atuais, é uma massa desordenada de concreto com salas superlotadas e realmente inseguras. Mas ainda assim é a nossa Faculdade!
É inaceitável que um espaço dedicado á reflexão, ao trabalho, à política, às artes e também à recreação de seus jovens estudantes seja ameaçado pela força policial. Uma Universidade tem o dever de levar sua análise crítica ao limite porque é a única que pode fazê-lo. Seus equívocos devem ser corrigidos por ela mesma. Se ela é incapaz disso, não é mais uma universidade.
A USP não está fora da cidade e do país que a sustenta. Precisa sim de um plano de segurança próprio como outras instituições têm. Afinal, ninguém ousaria dizer que os congressistas de Brasília têm privilégios por não serem abordados e revistados por Policiais. A USP conta com entidades estudantis, sindicatos e núcleos que estudam a intolerância, a violência e a própria polícia.
Ela deve ter autonomia sim. Quando Florestan Fernandes foi preso em 1964, ele escreveu uma carta ao Coronel que presidia seu inquérito policial militar explicando-lhe que a maior virtude do militar é a disciplina e a do intelectual é o espírito crítico… Que alguns militares ainda não o saibam, é compreensível. Que dirigentes universitários o ignorem, é desesperador.

Lincoln Secco
Universidade de São Paulo (USP)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) – Departamento de História
Av. Professor Lineu Prestes, 338
05508-900 – São Paulo – SP – Brasil

Às ruas… Contra o Baixo Astral (continuação)

Caros leitores, Aqui vai minha resposta ao debate travado na último segunda-feira. Tudo que está entre aspas são recortes de comentários feitos no texto anterior e podem ser lidos na íntegra aqui.
  1. Quem leu o texto completo teve a oportunidade de saber que eu disse que são vários os grupos acampados na Praça da Catedral e que dentre eles, está o grupo Anonymous, mal definido por mim como um grupo de “hackers”, tendo em vista que “hackerativismo” quer dizer mais do que a palavra usada no post e realmente contempla o link postado nos comentários por “Fernando”. Além do mais, ocupar praças e debater com a sociedade não se resume em dizer que se tratam de “hackers”.
  2. Por se tratar de um coletivo sem centralidade, entendo que nem todos os Anonymous, nem todos os acampamentos são a favor de coisas como Ficha Limpa ou ainda acampam contra a corrupção. Meu relato se restringe ao movimento de Campinas, mas pode ser útil para pensar outras localidades.

Ocupa Campinas

3. Eu estive no Acampamento por mim mesma. E eu fiz a foto que coloquei no post, que está por mim assinada. Pois bem, isso derruba todos os convites de “visite o acampamento e verá que é diferente”. As informações que debato no texto foram colhidas lá: li cartazes, troquei idéias, o que inclusive levou um de vocês a escrever em caixa alta “”EU JÁ NÃO TE EXPLIQUEI QUE…”. Quem está mal informado são os comentaristas, visto que há vários indícios no próprio post e vindo dos próprios militantes que derruba a tese de que “”hahahahahaha desinformada!”

4. “O acampamento tem autorização da prefeitura e da SETEC para ocupar a praça… mais do que isso, tem apoio da POPULAÇÃO.” Era exatamente esta idéia que eu gostaria de problematizar, ter apoio da prefeitura para acampar quer dizer pouca coisa diante do meu argumento que foi o de destacar a importância de se ocupar espaços públicos, de se fazer movimento social a despeito das leis, nem sempre feitas para contemplar a população e raramente aplicadas a todos. A desobediência civil é parte histórica do ativismo por alargamento de direitos e contra movimentos imperialistas, como foi o ato conhecido como o A20, ocorrido em 2001.

5. Em minha visita ao acampamento, me foi oferecido assinar um abaixo-assinado e pelo afastamento do prefeito Demétrio, por sua vez já afastado, e pelo Ficha Limpa. Portanto, não é verdade que “Pensamos em sistema financeiro, em filosofia de vida e não em ficha limpa.” Sou contra o ficha limpa e não esperava uma bandeira como essa de um movimento organizado por jovens e que se diz libertário. O projeto de se limitar os nomes de candidatos a cargos públicos nada mais é do que uma tentativa de tutelar o povo que, na visão de quem o defende “não sabe votar não é o pobre e sim o geral.” e, portanto, não seria capaz de pensar por si mesmo. Assim, o grupo que se diz libertário, que divulga em seu vídeo que “procura estimular a população a formular suas próprias idéias” defende também a bandeira de se eleger alguns como sendo mais libertários que os outros e acaba por sugerir a submissão do povo aos seus próprios interesses, que podem ser democráticos e populares, ou não. Pelo visto, ou não.

6.  Voltando ao “EU JÁ NÃO TE EXPLIQUEI QUE O UNICO MODO DE MUDAR A SOCIEDADE REALMENTE E DESTRUIR O SISTEMA CAPITALISTA É RETIRAR DOS POLITICOS O CARGO DE INTERMEDIARIO DOS PROCESSOS DECISÓRIOS LEGISLATIVOS, PERMITINDO QUE A SOCIEDADE DECIDA POR SI MESMA, DE FORMA DIRETA?”

Não. Não adianta mudar a forma do Estado enquanto a organização social e política for capitalista, mas deixemos isso para especialistas.

Ou melhor, não deixemos. A única forma de mudar a sociedade é por ela mesma, com autonomia e liberdade das classes subalternas. Caso contrário, quando grupos nascem e acreditam espalhar a verdade e eximem o povo da autonomia da própria transformação, geram estados totalitários, como a história já mostrou.

7. “No nosso grupo temos até morador de rua,”

O que dizer desse comentário? Até morador de rua! O leitor desse comentário deve considerar isto inusitado?

Agressões Pessoais e atentados contra a liberdade de expressão por parte do grupo Anonymous de Campinas

A princípio, eu não pensei em destacar as agressões. Elas são a forma que toma a birra quando a pessoa se sente contrariada e tinha esperança de que, ao passar a raiva, o debate de idéias livres e libertárias teria início. Como isto não ocorreu, vamos aos xingamentos:

8. “voce é digna de risadas, patética.”

Como se responde isso? Com “boba, feia, chata e fedida”?

9. “Qualquer comissionada ou pessoa com interesse econômicos partidários (no caso nitidamente o PT) pode escrever….”

Minha biografia é de fácil acesso, eu escrevo textos, dou minha opinião, tenho Curriculum Lattes, tenho perfil no Facebook. Para tomar conhecimento dela, não se requer acesso a banco de dados privilegiados, como disse um comentarista. Vejo que descobriram meu nome completo! Vejo que viram que sou militante do Partido dos Trabalhadores, algo que nunca escondi! Pois eu também trabalho para a fundação da entidade como historiadora e não sou comissionada, como afirmaram. E sim, qualquer um pode escrever e usar a internet: comissionados, historiadores, libertários, Anonymous, jogadores de futebol, donas de casa, e por aí vai. E que bom, ou não?

Milito num partido fundado em 1982 pela classe trabalhadora. O Partido dos Trabalhadores nunca fugiu da luta pela democracia, pelos direitos sociais e é parte constituinte da república ainda em construção que clama por participação popular e não pelo abandono das instâncias de poder; que não se furtou de se apropriar do feminismo e da luta contra a homofobia desde sua carta programática; está à frente dum projeto político que tirou 15 milhões da miséria, estes sujeitos que vocês acreditam proteger ao dizer que eles “não sabem votar”. E exijo respeito por minha escolha política;

Faço minha militância fora do horário de trabalho, o que me fez postar o texto à 1 da manhã da madrugada anterior e a resposta apenas 24 horas depois.

No entanto, levantar meus dados como vocês fizeram se parece com a prática da Polícia Política. O Departamento de Ordem Política e Social, dos anos 1960 e 1991 usava desse expediente, levantar dados sobre militantes de esquerda e persegui-los (tortura-los) até que desistissem do projeto político. Vocês não deixaram nada a desejar para a polícia da Ditadura Militar brasileira, contra a qual os militantes do PT lutaram arduamente contra. Além de levantar meus dados, me enviaram centenas de email com o conteúdo: WE ARE ANONYMOUS, WE NOT FORGIVE (Somos Anonymous, não perdoamos). Alguns vírus tentaram se instalar no meu HD. Vejo que o ativismo na internet de vocês se voltou contra mim porque não concordo com alguns dos seus pontos de vista. Fui eleita inimiga por não concordar? O objetivo das ameaças é me botar medo? É me calar?

Informo orgulhosa que isto ainda é um país livre e que a liberdade de expressão me é garantida, como a de vocês. Nenhum dos comentários no Tabnarede foram apagados ou censurados. A liberdade de vocês é tão importante quanto a minha. E não é porque eu sou filiada a um partido político que eu não posso desfrutar da liberdade de dizer o que eu penso, escrever, opinar e discutir. Nem eu, nem os outros 1 milhão de filiados.

10. “Eu acredito bastante na luta por uma sociedade mais igualitária.”

Este comentário foi o mais legal! A luta por uma sociedade mais igualitária é a luta de todos nós, os da esquerda, os não partidários, os libertários. E foi isto que me moveu a escrever o primeiro post. Preocupada com o avanço de pensamentos conservadores e reacionários eu visitei a ocupação para me encher de esperança. A frustração de ver bandeiras como Ficha Limpa e a celebração de um golpe que a ala mais conservadora da cidade de Campinas (herdeira dos cafeicultores escravistas) proferiu contra o estado democrático foi grande. Ao elencar as coisas que vi, eu desejei estar errada e que as demandas por liberdade aparecessem na indignação dos comentários. Ledo engano, o pensamento reacionário avançou com os muitos comentadores, em agressões pessoais, xingamentos, para não falar das ameaças que recebi por email. Aos que me ameaçaram com objetivo de me calar, aviso: NO PASSARÁN!

Comício pelas Diretas Já, na Praça da Sé, 25 de janeiro de 1984 (Foto: Oswaldo Palermo)

Glaucia Cristina Candian Fraccaro

Às ruas… Contra o Baixo Astral!

Buzine contra Corrupção! Manifestantes na Avenida Francisco Glicério (A foto é minha mesmo)

Depois de receber muitos convites pelas redes sociais. Depois de Occupy Wall Street. Depois do texto que eu escrevi há tempos. Pois bem, achei que devíamos voltar nossa atenção para o Acampa Campinas (não tem link pois não encontrei nada que não fosse do Facebook ou do Orkut). Trata-se de um movimento que consiste em acampar na Praça da Catedral (um lugar tradicional de manifestação dos movimentos sociais de Campinas), formar um coletivo apartidário, fazer flashmobs contra corrupção e pedir o afastamento do prefeito da cidade de Campinas, Demétrio Vilagra, do Partido dos Trabalhadores, por sua vez, já afastado pela Câmara Municipal há vários dias. Os manifestantes pertencem a um grupo conhecido como Anonymous, mas há outros grupos de jovens que também aderiram ao movimento.

Vou poupar o leitor da descrição minuciosa mas já aviso que esse texto é mais sobre Campinas que sobre o resto do mundo. Ou não?

A minha surpresa foi muito grande. Eu achava que não era possível que jovens que se deram ao trabalho de se organizar e ocupar a praça pública pudessem estar tão voltados a causas tão conservadoras. Não vou aqui me ater as ausências, não há um zine, uma rádio livre ou qualquer meio de comunicação que os registre que não seja a grande imprensa. Registro não é pouco, é o que fica, é o que marca e o que acumula para próximas ações, mas eu disse que não ia criticar por ausência de ação.

Os Anonymous e os demais grupos que acampam na Catedral reivindicam que a corrupção não pode acabar com o Brasil (assim, muito Brasil, quase nacionalismo) e pregam a aprovação do Ficha Limpa. E eu me pergunto, o que é corrupção? No sentido mais político, segundo Houaiss é:  “emprego, por parte de grupo de pessoas de serviço público e/ou particular, de meios ilegais para, em benefício próprio, apropriar-se de informações privilegiadas, acarretando crime de lesa-pátria”.

Eu já sempre achei estranho grupos que se organizam por meio da desobediência civil terem gostado tanto de lutar contra corrupção. Afinal, acampar na praça pública sem autorização da prefeitura é usar de algo público de forma ilegal. Eu não acho que isso impede um movimento legítimo de ocupar a referida praça, só acho que a bandeira deslegitima a desobediência civil. A praça é do povo como o céu é do condor, dizia o poeta. O espanto maior é ver que ali se reivindica a identidade Anonymous, hackers que promovem várias ações na internet, dentre elas planejam acabar com o Facebook ainda este ano, plataforma que, contraditoriamente, usam para se organizar em Campinas.

E segue! Eles são pelo Ficha Limpa, um projeto de lei que, no mínimo, tutela a população como se ela não soubesse votar, como se não fizesse escolhas de acordo com os próprios interesses. Isso partir de setores mais conservadores, eu entenderia, mas de um movimento de jovens acampados?

A bandeira “Fora Demétrio” também causa espanto. Depois de quase vinte anos em que a direita não vence uma eleição em Campinas, assumiu o poder de forma para lá de controversa, na última semana. A cassação do ex-prefeito Hélio não é a mesma coisa que um afastamento, mas aí é outra história. O que impressiona é a juventude tomar de pronto a pauta dos grandes jornais da região e não se preocupar com a correlação de forças envolvida num processo em que a direita assume a prefeitura sem ter vencido as eleições (com apoio do PSOL, mas esta conversa é outra); houve um tempo que o inadmissível era isso! Quem ganha e quem perde com o afastamento do Demétrio? Para o acampamento, pouco importa. O que importa é lutar pela moralidade na política. Moralidade?

Lutar por mais participação política não é mais pauta de movimento social da juventude, tendo em vista que ainda é uma parte da sociedade alijada de políticas públicas? Transferir a culpa das mazelas políticas a todos políticos parece ser tarefa bem mais fácil do que compreender que a república brasileira, recém fundada e em pleno processo de construção, clama por participação popular num governo de esquerda que jamais fechou o canal de diálogo, nem mesmo com parte da sociedade que não é organizada, como nas Conferências Nacionais.

A impressão que temos de que a sociedade saiu às ruas em 2011 precisa ser analisada com mais calma, não pode ser tomada como a expressão de indignação de um povo. Parte dessas manifestações encontra o apoio da mídia corporativa e não parece estar atenta a questões populares.

Junte tudo: um movimento apartidário, mas que não é autônomo, quase nacionalista, que luta pela moralidade, que saiu na capa da Veja (e não foi como Tática da Baderna, notem bem) e “está nem aí” para a participação popular. Que resultado deu aí?

Glaucia Fraccaro

Crítica por esporte

Nas três Conferências Nacionais do Esporte (2004, 2006 e 2010) a população brasileira se manifestou a favor da criação de um Sistema Nacional do Esporte Lazer. Um sistema que pudesse orientar as funções, direitos e deveres de cada entidade ou organização ligada ao esporte, que pudesse nortear claramente os gastos públicos na área, que regulamentasse as relações entre o público e o privado e que finalmente determinasse as responsabilidades de municípios, estados e governo federal com relação ao esporte e lazer como direitos da população.

Ao invés de construir um Sistema Nacional de Esporte e Lazer, o Governo Federal e o Ministério do Esporte preferiram priorizar a sediação da Copa do Mundo e das Olimpíadas – algo que, por incrível que pareça, nunca foi uma demanda popular deliberada nas Conferências. De fato  a estratégia do governo foi um sucesso, já que a Copa e as Olimpíadas serão no Brasil.

Com isso os investimentos na área aumentaram muito, ganhamos visibilidade, esporte agora é questão de Estado e não mais de um único ministério. E assistimos agora a uma sucessão de escândalos envolvendo o ministro do esporte, membros de seu partido, ONGs “sem fins lucrativos”, federações, enfim, diversas organizações que na prática participam de um sistema esportivo nacional que não é normatizado.

As investigações dos escândalos que estão surgindo são urgentes e se forem levadas a fundo podem desnudar muito do que pode estar debaixo do tapete. Qualquer pessoa ligada ao esporte e lazer na região de Campinas já ouviu falar das irregularidades da relação Estado – ONG Bola prá Frente, denúncias requentadas pelo Fantástico, mas que existem desde 2007. A realização das investigações devem dar um passo efetivo para estancar a sangria de dinheiro público mal aplicado no esporte brasileiro, mas o fim dos escândalos só será possível quando as regras do jogo forem mais claras, quando um sistema nacional delimitar as incumbências do Estado e limitar o repasse de verbas públicas à ONGs.

Mas hoje nos perguntamos: quais são as regras desta área? Quais são as responsabilidades de cada ente governamental ou privado? O governo pode fazer contrato com ONGs? Qual o papel das prefeituras para a democratização do esporte nacional? Quem fiscaliza os programas da área? Pode dar dinheiro público para federações e confederações? Nada disso tem uma normatização nacional. Por isso governo faz o que quer e a mídia transforma o que bem entende em escândalo.

É importante que se respeite a deliberação popular manifestada no espaço legítimo das Conferências Nacionais do Esporte e que se crie o Sistema Nacional do Esporte. Agora mais do que nunca normatizar a área é necessário!

Lia Castelan, especial para o Tabnarede

Pessoal, vamo rachá um estádio?!

[pausa na nossa programação para uma proposta indecente]

Só pra não deixar passar em branco o curioso da rápida mudaça de postura pública em manchetes do Estadão e do G1:

Jun/10 “Prefeitura de SP nega projeto de estádio para Copa de 2014. Kassab diz que não investirá dinheiro público em estádio da Copa”

Nov/10 “Para Kassab, estádio do Timão fica fora da Copa se não for ampliado.
Prefeito de São Paulo disse que não vai investir dinheiro na ampliação e recoloca Morumbi, Arena Palestra e Pacaembu na disputa para ser sede”

Jun/11 “Kassab foca esforços no estádio do Corinthians: ‘Não tem plano B’. Prefeito descarta Pacaembu, Morumbi e Arena Palestra para a Copa do Mundo de 2014. ‘Não temos tempo para nenhuma outra alternativa’, diz ele”

Jul/11 “Câmara de SP aprova projeto que dá incentivo de 420 milhões ao estádio do Corinthians (projeto redigido pelo próprio Kassab)”

Qual respeito podemos esperar de um trio fedorento composto por Ricardo Teixeira, Andres Sanches e Kassab? Postura pública, é o que esses cidadãos declaram aos jornalões que injetam essas manchetes diariamente em 99% dos lares e bares do Brasil. Eles já sabiam desde o começo o fim dessa história, mas enquanto acertavam a mamata, pediram pros amigos da imprenÇa fechar as cortinas.

A tal ‘falta de memória do povo brasileiro’, que é tema em todas as eleições, está em grande parte na abordagem desses meios de comunicação. Fazem questão de esquecer o que publicaram e sempre falam do tema como se fosse a primeira vez.
Como todo curintiano espero por estádio decente desde sempre… mas curitiano ou não, você também está pagando essa conta. Eu tô meio duro ultimamente, não queria contribuir com essa causa agora, sabe?

Calasan

O Corolário Cepacol – O pensamento político tucano

BondBoca e Boca de Caçapa

Os leitores de Tabnarede (e d’el estupendo grouchomarxista também) já tiveram oportunidade de debater o artigo de FHC na semana passada. Apenas com intuito de refrescar a memória, vou lembrar que o ex-presidente tentou dar uma orientação política de oposição ao seu PSDB. Nas tais linhas expressou que, daqui para a frente, o “povão” é classe que permanecerá alinhada ao Partido dos Trabalhadores, mas que um novo estrato social estava disponível à disputa política: A Nova Classe C.

A opinião do ex-presidente tomou ares de tese de Sociologia e foi assim que ganhou a hasta pública. Os jornalistas alinhados com o projeto FHC/PSDB não demoraram a reproduzir a opinião de FHC em seus próprios termos. O curioso é que esses termos expressam um profundo asco da pobreza. Para eles, pobre, além de não ter consciência política, é fedido pronto e acabou. E, ainda para eles, quando o povão ascende socialmente, a primeira atitude é de providenciar o fim do suposto futum – é o Corolário Cepacol.

Explico: Cristiana Lobo ao se aventurar por análises que desvendassem a Nova Classe C (na Globo News, no último fim de semana, assista aqui só a partir do 5º minuto) afirmou que é o consumo que os caracteriza, principalmente o desejo de possuir mercadorias como o enxaguante bucal, “afinal todo mundo quer ir cheirosinho para o baile funk”.

Só para lembrar a Cantanhede, durante a convenção do PSDB de 2010, disse esfuziante em matéria para a TV Uol: “Parece até que o PSDB tá virando um partido de massa, mas uma massa cheirosa”.

E, assim, se formula um corolário de pensamento político tucano.

Glaucia Fraccaro