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Quem tem medo do “politicamente correto”?

 Quais são os limites do humor? Existe uma “patrulha do pensamento” atualmente no Brasil? Quando a “opinião” fere e violenta o espaço do outro? A “onda” do politicamente correto anda solta pelo país? Estas e outras questões tomaram conta das redes sociais, blogs e da mídia nas últimas semanas. Até mesmo entre os integrantes do Tabnarede o assunto sobre a “liberdade de expressão” tem gerado acirradas polêmicas e, por isso, decidi partir para uma pequena “provocação”. Eventos como o lançamento da paródia “Casa dos Autistas” na MTV, a entrevista de Rafinha Bastos, na revista Rolling Stone defendendo uma de suas “piadas” (estuprador de “mulher feia” não merece cadeia, mas “abraço”) e ainda as declarações anti-semitas de Danilo Gentili sobre a polêmica do metrô em Higienópolis foram alguns dos tópicos presentes em nossos debates. O argumento recorrente: se o policiamento continuar, não haverá mais humor, não haverá mais liberdade de fazer rir, de fazer arte. A pergunta que anda a me atormentar? Ao combater a divulgação de preconceitos e estereótipos, estamos nos transformando em uma “polícia sisuda” do “politicamente correto”?

Segundo Idelber Avelar, a expressão “politicamente correto” se firmou na língua inglesa como “parte de uma ofensiva da direita estadunidense nas chamadas guerras culturais dos anos 1980 e 1990”, referindo-se a um “suposto autoritarismo policialesco” da esquerda na linguagem. O termo abrangeria tudo, classe, raça, gênero, nacionalidade e orientação sexual.  Diante do crescimento das lutas e movimentos sociais pela igualdade de direitos, pelo fim da discriminação, a direita, mal acostumada com o status quo de perpetuar preconceitos, desigualdades e ódios entre as diferenças, resolveu reagir classificando tudo de “politicamente correto”, argumentando estar a sociedade tornando-se refém da tal “patrulha”. Tornou-se senso comum dizer que não se podia fazer nenhuma piada, comentário despretensioso ou mesmo cantar a amiga de trabalho, por medo de processos e acusações da “polícia do comportamento”.

Como em vários outros aspectos de nossa cultura, insiste-se no Brasil em copiar os gringos.  Durante um seminário organizado pelo Instituo Millenium em março deste ano, cujo tema era “Liberdade em debate”, Reinaldo Azevedo, por exemplo, afirmou que o teste de capacidade de “conviver com a diferença é aceitar que o outro exponha a sua verdade, por mais estúpida que pareça”, desde que “não se viole o direito do outro”. Para ele, orientada pelo “espírito da reparação e da correção das desigualdades”, existiria hoje no Brasil uma “polícia do pensamento”, que limitaria essas liberdades. Tonet Camargo, procurador de Justiça, por sua vez, criticou a censura “em nome do politicamente correto” e, retomando o caso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Lobato, afirmou que não sabia como não haviam proibido marchinhas de carnaval como “Amélia” e o “O teu cabelo não nega”. Camargo defendeu o fim do “patrulhamento” e falou na necessidade de não se “perder o humor”, nem ameaçar a “criação artística”.  Chegada a vez de Marcelo Tas, este declarou possuir um “defeito de fabricação”, o de ser “espírito de porco”, um defeito que, segundo ele, o defendia de “extremismos” “muito comuns em sua profissão”. Atribuindo a moda do “politicamente correto” aos jornalistas, Tas concluiu que desafiava o “coro do consenso” por uma questão de saúde mental”. “É “um peso muito grande ser correto em tudo” e o humor funcionaria como uma “vacina” contra isso, garantiu o jornalista e criador do CQC.

Particularmente detesto a expressão “polícia do politicamente correto” e noto, cada vez mais, que as pessoas que a usam para alegar qualquer tipo de censura estão, geralmente, naquilo que podemos chamar de “zona de conforto”. Geralmente são brancas, magras, heterossexuais, de classe média ou alta e, porque não, do sexo masculino. Não sofrem, nem de perto, nada do que usualmente algumas minorias costumam enfrentar no dia-a-dia. Muitos dos defensores do “se dizer aquilo que bem entender” costumam, inclusive, utilizar uma estratégia recorrente: a tática do “preconceito invertido”. Alegam que tem o direito de serem racistas, homofóbicos e machistas. A liberdade, segundo elas, serve para isso. Vitimizam-se, dizem estar sendo perseguidas por suas opiniões. Alguns chegam, inclusive, a naturalizar o preconceito. Nada mais eficiente que naturalizar diferenças. O próprio Bolsonaro, na semana passada, alegou estar em voga uma onda de “heterofobismo”, dizendo se sentir perseguido.

Então, por que censurar Rafinha Bastos? Deixa ele falar de mulher feia, incitar seu estupro, afinal de contas será uma das poucas oportunidade dela (em um ato de generosidade de algum homem) fazer sexo. É só piada. O que tem de errado estereotipar gordos? Quase não há um padrão de beleza onde a ditadura do ser magro sufoca e ridiculariza quem está acima do peso, não é? O próprio Rafinha Bastos disse que obesidade é apenas sinônimo de preguiça. Como evitar que adolescentes cheguem à escola e ridicularizem o seu amigo gordinho? Todo mundo faz, o “cara do CQC” faz. Gentili, em 2009, associou negros a macacos, ao fazer piada sobre jogadores de futebol. Sem nenhum pedido de desculpa, apesar da polêmica, o “comediante” seguiu em frente “desafiando” o “coro do consenso”, provocando. Assim como fez com os judeus de Higienópolis. Deixa ele, ele é artista, ele pode.

A MTV também não deve ser tolhida no seu direito de fazer uma simples paródia, um trocadilho com a sua “Casa dos Autistas”. Porque não satirizar quem é portador dessa síndrome, fazê-los passar por imbecis? Tudo “patrulha”, falta de “leveza de espírito”, gente que não tem humor, dizem alguns. Por que ser criterioso com a distribuição pública nas escolas do livro de Lobato? Está certo, ele era racista, mas era coisa do tempo dele, “particularidades históricas”, alegam alguns. É arte. A resposta possível: nem todos no tempo dele divulgavam ideias racistas, Lobato fez uma de muitas outras escolhas possíveis. Vamos distribuir o livro na rede pública, fazer com que cada criança negra se sinta discriminada, associada à história que a professora lê para os amiguinhos. Não, alegam alguns, deve-se aproveitar a ocasião para debater o racismo. Errado. Se o objetivo é discutir racismo, a estratégia menos recomendável é contar uma história infantil que servirá para que piadas sejam feitas na hora do intervalo. A criança negra não precisa e não deve ser exposta a esse tipo infeliz de estratégia pedagógica. Quem quiser ler as Caçadas de Pedrinho que vá até a biblioteca, que compre o livro e leia em casa. Ninguém está censurando a obra. O que não dá para aceitar é o uso do dinheiro público para divulgar uma obra que ajuda a reforçar preconceitos contra negros.

Impossível não concordar com Reinaldo Azevedo (não, esta não é a provocação!). Conviver coletivamente é sim saber respeitar escolhas, é ter a liberdade de, inclusive, defender verdades “estúpidas”. Concordo também que o limite dessa tolerância é não violar o direito do outro. Azevedo, entretanto, esqueceu-se de dizer como se viola o direito do outro. Explicação vaga nas palavras do jornalista, podemos definir que se viola o direito do outro quando se incita a violência, o ódio, quando se prega o extermínio do outro, quando se fere a dignidade, a auto-estima, quando se alega superioridade ou mesmo quando se exclui o diferente em seus direitos de cidadania. Na semana passada, Azevedo alegou que estava ocorrendo “preconceito invertido” contra os moradores de Higienópolis, que estes também tinham direito de se manifestar sobre obras em seu bairro, como cidadãos. Essa história de “preconceito invertido” é, na minha opinião, estratégia oca, fácil de combater, balela da direita, que sempre teve poder decisório sobre tudo, que sempre teve seus interesses acima de todos os demais cidadãos, que já vivencia uma série de privilégios e que não tem o direito de banir uma obra com apenas 3500 assinaturas, prejudicando muitos outros milhares de pessoas que dependem do transporte público.

Sobre o humor, sobre a tal da arte, ela que se sofistique, que aceite os desafios de fazer graça sem impor ao outro a discriminação, a violência das palavras e a incitação ao ódio. Muitos fazem humor de qualidade, sem partir para estereótipos grosseiros. Evitar certos tipos de comentários não tem nada a ver com censura, tem a ver com conquistas importantes das minorias (mulheres, gays, negros) e de movimentos sociais que decidiram não tolerar mais a divulgação explícita de antigos ódios e preconceitos, que reverberam cotidianamente no trabalho, na escola e na mídia. Aquilo que é tachado de “humor” ganha significações muito maiores que só fazer graça.

Ana Flávia C. Ramos

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Racismo e Homofobia

Desde a decisão do STF por equiparar as uniões estáveis homoafetivas às heterossexuais, ganhou força no discurso homofóbico a “preocupação” em torno da adoção de crianças por casais gays. Para justificar o posicionameno contrário a essa possibilidade, os homofóbicos, então, recorrem ao discurso do “natural” e às pesquisas imaginárias, que apostam no surgimento de problemas psicológicos em crianças que não vivem sob os aspectos da “família natural”.

Geralmente, esses estudos (não encontrados nem mesmo pelo Google) nos apontam grandes problemas que, antes do reconhecimento das uniões estáveis homoafetivas como família, jamais haviam se colocado para a sociedade. Por exemplo, como uma criança poderia sobreviver em uma família sem mulher? Como ficam os filhos criados em um lar com duas mães?

Definitivamente, são problemas com os quais a sociedade brasileira (e por que não dizer Ocidental?) nunca precisou lidar, mas que, agora, devido à decisão do Supremo teremos que nos preocupar. Afinal, quem já tinha ouvido falar de uma família em que a mãe morreu no parto e o pai teve que criar a filha sozinho, sem a figura feminina? Ou, de algum caso em que a mãe (solteira) mora com sua mãe (viúva) e ambas educam o filho (ou neto)?

Mas, não se esqueçam de que é somente devido ao ineditismo da constituição de famílias que não contariam com a figura materna ou paterna que alguns homofóbicos se afirmam contrários à decisão do STF. Esse argumento, dizem eles, não é preconceituoso: “Discordar não é desrespeitar”; “Uma coisa é a opinião sobre o que é melhor para as crianças e para a sociedade, outra, é o preconceito”. Para essas pessoas, contarei uma história.

Com o final do reinado de D. Pedro I, começaram a aparecer secretamente no Brasil ideias abolicionistas e que pregavam a “mistura de raças”. A sociedade imperial (os deputados, os senadores, a opinião pública, os cristãos brancos) rechaçava ambos os discursos, exigia punições aos abolicionistas e via com maus olhos os brancos que se relacionavam com negros: isso era um absurdo, um acinte à sociedade brasileira. Existia na mente dessa sociedade reacionária a ideia de uma família “natural” que deveria ser composta ou só de negros ou só de brancos.

As personagens e os acontecimentos dessa história não são fictícios. Qualquer semelhança com situações e pessoas atuais não é mera coincidência.

Carolina Souza

Mães que abandonam seus filhos e as chagas de Obaluaiê

Keith Haring, Sem título, 1993, tinta, 84 x 84

Conta-se na mitologia yorubá que Obaluaiê (orixá das curas) nasceu repleto de pústulas, e, por isso, sua mãe Nanã teria abandonado o recém-nascido a própria sorte numa floresta. O bebê-orixá entretanto, foi encontrado por Iemanjá, que cuidou das feridas e criou o menino, até que ele atingisse idade suficiente para seguir seus próprios desígnios.

Hoje faz uma semana que os veículos de comunicação mostraram as cenas gravadas por uma câmera de segurança em que uma mulher caminha até uma caçamba de entulho e lá deixa um embrulho. O pacote, descoberto por um catador de lixo, continha um bebê de poucos dias de vida. Essa não é a primeira história de abandono de filhos recém-nascidos realizados pelas mães, a exemplo da lenda narrada.

Compartilho outra, nem atual, nem mitológica. Numa tarde qualquer por volta do 1900, um grupo de crianças que saia do colégio nas imediações da Avenida Paulista, avistou uma caixa de papelão que se mexia. Ao aproximarem-se descobriram o frágil corpinho de um bebê. Nos autos policias que se lavraram a partir do falecimento do minúsculo ser, ficou registrado que a vítima era da cor parda. A partir desse fato, algumas pessoas apresentaram-se para testemunhar: tinham categoricamente avistado uma mulher de cor escura largar um pacote na avenida. A comoção popular chegou aos jornais, e esperava-se arduamente pela punição daquela que, tendo o privilégio de parir, não era digna o bastante para manter sua cria. Foram enviados destacamentos aos hospitais da região, e toda mulher negra ou parda que procurasse por socorro clínico devia ser avaliada, para que se houvesse a certeza de que seus problemas não eram oriundos do infortúnio que gerou a morte do rebento abandonado. Não conseguiram, alhures, encontrá-la.

Quando ouvi pela primeira vez a história de Obaluaiê, abandonado pela mãe, coberto de chagas, obviamente me compadeci do indefeso. A senhora de idade que me narrou a lenda, entretanto, emendou sem pestanejar: na minha crença não julgamos as mães que abandonam seus filhos, elas tiveram seus motivos.

Penso que há um motivo para que uma história de abandono de incapaz seja parte constituinte de um mito ligado às raízes da cultura brasileira. É assustador realmente pensar que uma mãe, ao acabar de parir, tenha abandonado o seu filho. Mas é ainda mais aterrorizante pensar nos descaminhos que a levaram a tal “opção”. Como é possível pensarmos em termos de julgamento, e ainda de prévia condenação, sem questionar o que historicamente faz com que essa mácula se repita acintosamente?

Parece que tudo que envolve a vida de um ser indefeso torna-se sagrado, e , de fato, o direito a vida deve ser assim considerado. Mas, será que nessa áurea que envolve o ser puro não deveria estar inclusa também a mãe, como parte indissociável da criação? Porque, que quando a sociedade passa a discutir a crueldade do abandono não chega a óbvia conclusão de que as políticas públicas de saúde exigem revisão urgente para que esta história não se repita? Será que é cruel também discutir o aborto frente à vida que luta numa caçamba? Parece insuportavelmente óbvio que os direitos reprodutivos da mulher perpassam diversas questões tantas vezes já abordadas, mas sempre tratadas por um raso moralismo. Entre a compaixão pelo recém-nascido abandonado e a imputação da monstruosidade à mãe, o que está mais evidente é o total desamparo de uma mulher frente a uma gravidez indesejada.

Há ainda que se considerar que um outro mito acompanha esta discussão. Aquele em que apenas a mulher é responsável pelo recém nascido. Como que para cumprir uma função “anti-machismo” e calar comentários óbvios demais, a principal matéria jornalística sobre o assunto informa: o pai da bebê, que trabalha no mesmo local que a mãenão tinha sido encontrado pela reportagem. Mas quem realmente o procurou? Antes do abandono na caçamba, houve o abandono de uma grávida com seis filhos. Isso é menos cruel? Que régua nós, cidadãos, usamos para medir tais eventos?

Na mesma matéria sobre o caso da Praia Grande há um “entusiasmo de Salém” pela mãe ter sido encontrada. A mulher afirma que não pode criar mais um filho, porque é mãe de outros seis, e que para sustentá-los ganha salário de R$600. A reportagem alardeia que apenas três desses filhos são menores de idade, mas não nos informa sobre quantos dependem dessa parca renda.

O advogado da mãe afirma que ela está com depressão pós-parto e arrependida. Fica um certo clima de que a “depressão pós-parto” seria uma desculpa esfarrapada para um ato de crueldade premeditado. Mas que mulher no mundo escolheria ter um filho pelo prazer de abandoná-lo? É a mesma discussão de outrora: nenhuma mulher deseja abortar um filho, nem abandoná-lo. Por mais insana que ela seja, isso não é uma escolha. Entretanto, todas as mulheres são constitucionalmente obrigadas a levar adiante uma gravidez indesejada, correndo o risco inclusive de padecer de outros males, como o tormento de se ver só e sem condições de criar um bebê.

As chagas das crianças brasileiras são mais profundas que a caçamba da Praia Grande. Obaluaiê se fez homem e orixá, segundo tal cultura, e traz consolo para os pobres filhos abandonados, mostrando uma história de superação. Mas por ora, temos que superar a insistência em demonizar mulheres alijadas de autonomia sobre seu corpo e que sofrem ausência de direitos.

Lívia Tiede

Ai, como é estúpido! Ou a “cotismofobia”

Recentemente, as declarações do deputado federal pelo PP-RJ, Jair Bolsonaro, “escandalizaram” o Brasil. Quem diria que um deputado que se elegeu defendendo a ditadura militar, a proibição de homossexuais nas Forças Armadas e o controle de natalidade (aplicado a pessoas de baixa renda), seria capaz de pronunciar frases tão avessas ao convívio em sociedade e ao respeito pelas identidades sociais?

Espanto à parte, o que gostaria de tratar aqui não são tanto suas opiniões (ou crimes) contra os negros, mas algo que parece ter passado batido no meio de tamanho exercício de alteridade. Queria falar sobre sua “cotismofobia”.

As palavras de Jair Bolsonaro no programa CQC da Bandeirantes foram: “eu não entraria num avião pilotado por um cotista e nem aceitaria ser operado por um médico cotista”. Agora, como alguém pode se sentir seguro com um legislativo composto por Bolsonaro e companhia? O mínimo que se espera de um deputado é que ele conheça a causa que está defendendo ou atacando.

O sistema de cotas propõe que 50% das vagas nas universidades federais seja disputada por alunos egressos da rede pública de ensino. Há casos, como a UFBA, em que foram criadas subcotas nesse sistema para atender proporcionalmente a grupos específicos (negros, egressos de escolas públicas, índios etc.). Ou seja, os tais cotistas disputam entre si a entrada na universidade. Como é esse disputa? O mesmo vestibular e as mesmas provas pelas quais passam todos os ingressantes em instituições de ensino superior. Como são essas provas? Elas exigem o mesmo conteúdo de que você ou Jair Bolsonaro já devem ter se esquecido. Que conteúdo seria esse? A taxonomia das plantas, os dispositivos do Tratado de Methuen, a reação química que transforma gordura em sabão, quais são os gases nobres, e por aí vai.

Os alunos de baixa renda, que estudam nas escolas públicas, concorrem entre si e aqueles com melhor aproveitamento ingressam na universidade. Mas, como questionaria um Bolsonaro, essa concorrência entre candidatos provenientes de uma pior qualidade de ensino não vai diminuir o nível do conhecimento produzido na universidade e, consequentemente, do profissional formado? Com certeza, ó cotismofóbicos! Teremos um volume maior de médicos que não sabem os nomes das capitais dos países africanos, de engenheiros que não conhecem o Index da Igreja Católica, de jornalistas que não entendem a Lei de Ohm e, obviamente, de pilotos que jamais conseguiriam fazer decolar ou aterrissar um avião sem essas informações.

Carolina Souza

Lei Maria da Penha em Cordel

achamos no Dimas Roque por Tião Simpatia

Nenhuma escola é uma ilha

Tragédias como a ocorrida na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro, sempre provocam grande comoção pública, indignação e, obviamente, tristeza pelas muitas crianças perdidas no atentado. Além desses sentimentos, tais fatos provocam também um grande tsunami de “especialistas”, mobilizados em velocidade estonteante pela mídia, para dar laudos e explicações quase matemáticas sobre as motivações do assassino. O atirador Wellington Menezes de Oliveira, segundo as informações desses “cientistas da tragédia” (que variam de “criminólogos” a policiais militares), era tímido, solitário, filho adotivo, “usuário” constante do computador (a “droga” dos tempos modernos segundo os “analistas”), ateu, islâmico, fanático, fundamentalista, portador do vírus da AIDS e, provavelmente, vítima de bullying na escola.

Certamente não há como contestar que todo ato humano, e por isso histórico, se explica a partir da análise de uma cadeia de relações complexas. Como digo aos alunos, nada tem resposta simples e direta. Entretanto, o tipo de questão levantada para entender o terrível ato de Wellington Menezes de Oliveira diz muito mais sobre nós mesmos do que sobre ele. Todos os nossos preconceitos estão embutidos nessas respostas. De fato, não sabemos, e talvez nunca saibamos, por que exatamente ele atirou contra cada uma das crianças (em sua maioria meninas), assim como não sabemos sobre as reais motivações dos muitos atentados como esse, ocorridos em países como Estados Unidos e Dinamarca. Mesmo depois de tudo o que se discutiu, ainda é difícil, por exemplo, explicar Columbine (abril de 1999).

Uma das coisas que mais tem me chamado a atenção é a recorrência da explicação que elege o bullying escolar como um dos fatores que podem desencadear esse tipo de ato violento. A explicação não é nova, Columbine é prova disso. Há mais de dez anos atrás, dois meninos entram em uma escola, de capa preta (quase como em um filme hollywoodiano) e atiram em seus colegas. “Especialistas”, gringos agora, se apressam em dizer as razões: divórcio nas famílias, videogames, filmes violentos, Marilyn Manson, porte de armas facilitado e, como não poderia faltar, bullying na escola.

É inegável que o bullying é uma realidade. É indiscutível que ele é extremamente nocivo e doloroso aos alunos que sofrem com ele. É evidente que há urgência em iniciar um debate para saber como sanar o problema. Mas a pergunta que fica é: o que de fato é o bullying? Ele é um sinal (histórico) de que? E ainda mais: ele é um problema restrito à escola? Por que os alunos são tão cruéis com seus colegas?

Michael Moore, cineasta norte-americano explosivo, tentou dar a sua interpretação para o atentado de Columbine com o documentário Bowling for Columbine (2002).  Moore, ao invés de repetir os clichês da mídia, foi implacável na destruição do senso comum das justificativas moralistas para o evento. Item por item, desde a desagregação da família, Manson, até a polêmica questão do porte de armas foram desconstruídos em sua narrativa. O foco centrou-se em respostas muito mais interessantes, localizadas não nos dois jovens assassinos, mas na sociedade americana. O imperialismo militarista dos Estados Unidos, a ação violenta em outros países, a política do medo (incentivada pelo Estado e pela grande mídia), que reforça e superestima dados sobre a violência urbana, sobre o fim de mundo, e, principalmente, a intolerância com todo tipo de diferença. Racismo, preconceito, homofobia, conflitos religiosos e luta de classes são só alguns dos ingredientes do caldeirão de ódios em que se transformou a sociedade americana.

Como crescer no Colorado, na “livre” América, e não ser conspurcado por esses valores? Como não idolatrar armas e achar que elas são um meio prático de solucionar problemas? Como viver imune a uma sociedade individualista, capitalista, que divide os seus cidadãos o tempo todo em “winners” e “loosers”? E mais ainda, como não se deixar levar por uma sociedade que até hoje não consegue lidar com a diferença entre brancos e negros? Uma sociedade que até os anos 1960 não oferecia direitos, oportunidades e tratamentos iguais a todos os seus cidadãos, tem o que para oferecer ao pensamento dos estudantes? Os americanos, ainda hoje, estão preparados para o respeito à diferença? A relação que eles mantêm com os muçulmanos diz muito. Definitivamente a liberdade e o respeito ainda não se transformaram em uma unanimidade por lá.

É claro que mesmo Moore não chega a dar respostas definitivas sobre a questão. E mais ainda: é evidente que ele considera a forma pela qual a instituição ESCOLA trata seus alunos (hierarquias e classificações hostis), ignorando muitas vezes o bullying, tem sua responsabilidade no massacre. Assim como é nítido que a venda facilitada de armas e munição são coadjuvantes importantes da história. Mas Moore foi corajoso ao lançar em cada um dos americanos a responsabilidade da tragédia e discutir aquilo que ninguém teve coragem (ou má fé) de fazer. Nem a mídia, nem o governo, nem a sociedade. É preciso encarar os “monstros”, com franqueza, e não apenas “satanizar” o ambiente escolar, para dar algum significado para esses eventos.

Ontem no Terra Magazine o antropólogo Roberto Albergaria afirmou que a mídia e a sociedade brasileira desejavam o impossível: explicações para um “desvario sem significado”. Segundo ele, o que Wellington Menezes praticou foi o que os estudos franceses chamam de “violência pós-moderna”, caracterizada por uma ruptura irracional, sem explicação. De fato, talvez tenha sido um “ato irracional”, fruto de um momento de insanidade. Mas acredito que esse tipo de resposta não nos ajuda a resolver coisas importantes sobre nós mesmos. A tragédia no Realengo, a meu ver, pode e deve ser início de um debate importante sobre a nossa sociedade.

A tragédia na escola do Rio de Janeiro acontece num contexto bastante relevante. Em outubro de 2009, Geyse Arruda foi hostilizada por seus colegas de faculdade porque, segundo eles, ela não sabia se vestir de modo “apropriado” para freqüentar as aulas. Em junho de 2010, Bruno, goleiro do Flamengo, é suspeito de matar a ex-namorada, Elisa Samudio, por não querer pagar pensão ao filho. Suposta garota de programa, Samudio foi hostilizada na opinião de muitos brasileiros. Após rompimento, Mizael Bispo, inconformado, mata sua ex-namorada Mércia Nakashima em maio de 2010. Em novembro de 2010, grupos de jovens agridem homossexuais na Avenida Paulista, enquanto Mayara Petruso incita o assassinato de nordestinos pelo Twitter. E mais recentemente, em cadeia nacional, Jair Bolsonaro faz discurso de ódio contra homossexuais e negros. Tudo isso instigado e complementado pelo discurso intolerante, preconceituoso, conservador e mentiroso do candidato José Serra à presidência da República. A mídia? Estava ao lado de Serra, corroborando em suas artimanhas, reforçando preconceitos contra Dilma, contra as mulheres e contra os tantos mais “adversários” do candidato tucano.

Wellington matou mais meninas na escola carioca. Se, por um lado, jamais saberemos as reais razões que o fizeram agir dessa forma, por outro sabemos o quanto a sociedade brasileira tem sido, no mínimo, indulgente com atos de intolerância, machismo, ódio e preconceito contra mulheres, negros e homossexuais. Se não há uma ligação direta entre esses diversos acontecimentos, eles pelo menos nos fazem pensar o quanto vale a vida de alguém em um contexto de tantos ódios? Quantas mulheres morrerão hoje vítimas do machismo? Quantos gays sofreram violência física? Quantos negros sentirão declaradamente o ódio racial que impregna o nosso país? O que é o bullying se não o prolongamento para a escola desse tipo de mentalidade? Quantas pessoas apoiaram as declarações de ódio de Bolsonaro via Facebook? Aquilo que acontece no ambiente escolar nada mais é do que um microcosmo do que a sociedade elege como valores primordiais. E o Brasil, que por tanto tempo negou a “pecha” de racista e preconceituoso, vê sua máscara cair.

Não adianta culpar o bullying, achando que ele é um problema de jovens, um problema das escolas. Não adiante grades e detectores de metal nas entradas ou a proibição da venda de armas. Como professora, sei que o que os alunos reproduzem em sala nada mais é do que ouviram da boca de seus pais ou na mídia. Não adiante pedir paz e tolerância no colégio enquanto a mídia e a sociedade fazem outra coisa. Na escola, o problema do bullying é tratado como algo independente da realidade política, econômica e social do país. Mas dá pra separar tudo isso? Dá pra colocar a questão só em “valores” dos adolescentes, da influência do malvado do computador ou dos videogames? Ou é suficiente chamar o ato de Wellington de uma “violência pós-moderna” sem explicação? Das muitas agressões cotidianas, a da escola do Realengo é apenas uma demonstração da potencialidade de nossos ódios. A única coisa que me pergunto é: teremos a coragem de fazer esse tipo de discussão?

Ana Flávia C. Ramos

Do inegável empoderamento feminino



Esse post nasceu por culpa de duas criaturas. Uma que me pediu para falar da Dilma (e a relação com a Vale, ver aqui post do Tijolaço) e outro que brigou comigo no Twitter no dia da final do Big Brother Brasil 2011. E estreio, aqui, um pouco em resposta à eles porque seria impossível fazer a primeira coisa e responder ao segundo sem antes falar de algo inquietante – o reforço do protagonismo feminino.

Eu poderia começar a falar do século XIX, cacoete de historiadora, mas vou me ater aos últimos meses. Não há como negar o reforço na busca pelo protagonismo feminino que significou a vitória de Dilma Roussef nas última eleições presidencias. Os argumentos são variados: vai desde a menina de seis anos (filha de uma amiga) que ficou encantada com a possibilidade de também ser, ela mesma, presidenta da república até a vitória de uma mulher no Big Brother Brasil.

Eu vou pular a parte que tenho que me justificar porque assisto esse programa. É fato que outras mulheres já levaram o milhão de reais em outras edições que haviam apelado mais para a origem pobre das ganhadoras do que centrado na trajetória delas. No entanto, o ineditismo da vitória de Maria ficou por conta da moça ser uma espécie de “periguete”, que não esconde desejos, paixões e frustrações em ambiente público, a “inimiga íntima de toda mulher”, como disse aqui a Clarissa. E ainda assim ser reconhecida e premiada em seu protagonismo.

Tenho para mim que o episódio merece meu destaque porque eu não saberia o que pensar da vitória de Maria se a gente não tivesse eleito uma mulher (também pouco adequada aos padrões que se formulam sobre a mulher) para presidenta da república. E vice-versa. Até porque, no ano anterior, o público do BBB havia escolhido um heterossexual, branco e homofóbico como seu herói. Não acho possível que isso seja tão vazio de sentido.

Foi aí que na última terça-feira, para a ira de um amigo historiador, eu comparei as duas. E isso, para alguns, pode ser escandalizador, uma insolência: comparar a “gostosa fútil” com uma poderosa estadista. Minha veia de historiadora social (e feminista um pouco empolgada) não consegue desvincular a relação entre Maria e Dilma na busca pelo protagonismo feminino. Eu confesso que não pesquisei a biografia da BBB, mas não preciso esperar que ela tenha pós-graduação em filosofia para reconhecer a contribuição que sua vitória num reality show significou nesse sentido. Vou deixar de argumentar aqui, para não falar do operário-presidente.

O reforço do protagonismo feminino é inegável e pode até mesmo ter reinaugurado uma guinada do feminismo no Brasil dos dias de hoje. Destacado isso agora, na próxima posso me ater mais a atuação de Dilma como presidenta, mas não abro mão da história social, viu Gália?