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Às ruas… Contra o Baixo Astral!

Buzine contra Corrupção! Manifestantes na Avenida Francisco Glicério (A foto é minha mesmo)

Depois de receber muitos convites pelas redes sociais. Depois de Occupy Wall Street. Depois do texto que eu escrevi há tempos. Pois bem, achei que devíamos voltar nossa atenção para o Acampa Campinas (não tem link pois não encontrei nada que não fosse do Facebook ou do Orkut). Trata-se de um movimento que consiste em acampar na Praça da Catedral (um lugar tradicional de manifestação dos movimentos sociais de Campinas), formar um coletivo apartidário, fazer flashmobs contra corrupção e pedir o afastamento do prefeito da cidade de Campinas, Demétrio Vilagra, do Partido dos Trabalhadores, por sua vez, já afastado pela Câmara Municipal há vários dias. Os manifestantes pertencem a um grupo conhecido como Anonymous, mas há outros grupos de jovens que também aderiram ao movimento.

Vou poupar o leitor da descrição minuciosa mas já aviso que esse texto é mais sobre Campinas que sobre o resto do mundo. Ou não?

A minha surpresa foi muito grande. Eu achava que não era possível que jovens que se deram ao trabalho de se organizar e ocupar a praça pública pudessem estar tão voltados a causas tão conservadoras. Não vou aqui me ater as ausências, não há um zine, uma rádio livre ou qualquer meio de comunicação que os registre que não seja a grande imprensa. Registro não é pouco, é o que fica, é o que marca e o que acumula para próximas ações, mas eu disse que não ia criticar por ausência de ação.

Os Anonymous e os demais grupos que acampam na Catedral reivindicam que a corrupção não pode acabar com o Brasil (assim, muito Brasil, quase nacionalismo) e pregam a aprovação do Ficha Limpa. E eu me pergunto, o que é corrupção? No sentido mais político, segundo Houaiss é:  “emprego, por parte de grupo de pessoas de serviço público e/ou particular, de meios ilegais para, em benefício próprio, apropriar-se de informações privilegiadas, acarretando crime de lesa-pátria”.

Eu já sempre achei estranho grupos que se organizam por meio da desobediência civil terem gostado tanto de lutar contra corrupção. Afinal, acampar na praça pública sem autorização da prefeitura é usar de algo público de forma ilegal. Eu não acho que isso impede um movimento legítimo de ocupar a referida praça, só acho que a bandeira deslegitima a desobediência civil. A praça é do povo como o céu é do condor, dizia o poeta. O espanto maior é ver que ali se reivindica a identidade Anonymous, hackers que promovem várias ações na internet, dentre elas planejam acabar com o Facebook ainda este ano, plataforma que, contraditoriamente, usam para se organizar em Campinas.

E segue! Eles são pelo Ficha Limpa, um projeto de lei que, no mínimo, tutela a população como se ela não soubesse votar, como se não fizesse escolhas de acordo com os próprios interesses. Isso partir de setores mais conservadores, eu entenderia, mas de um movimento de jovens acampados?

A bandeira “Fora Demétrio” também causa espanto. Depois de quase vinte anos em que a direita não vence uma eleição em Campinas, assumiu o poder de forma para lá de controversa, na última semana. A cassação do ex-prefeito Hélio não é a mesma coisa que um afastamento, mas aí é outra história. O que impressiona é a juventude tomar de pronto a pauta dos grandes jornais da região e não se preocupar com a correlação de forças envolvida num processo em que a direita assume a prefeitura sem ter vencido as eleições (com apoio do PSOL, mas esta conversa é outra); houve um tempo que o inadmissível era isso! Quem ganha e quem perde com o afastamento do Demétrio? Para o acampamento, pouco importa. O que importa é lutar pela moralidade na política. Moralidade?

Lutar por mais participação política não é mais pauta de movimento social da juventude, tendo em vista que ainda é uma parte da sociedade alijada de políticas públicas? Transferir a culpa das mazelas políticas a todos políticos parece ser tarefa bem mais fácil do que compreender que a república brasileira, recém fundada e em pleno processo de construção, clama por participação popular num governo de esquerda que jamais fechou o canal de diálogo, nem mesmo com parte da sociedade que não é organizada, como nas Conferências Nacionais.

A impressão que temos de que a sociedade saiu às ruas em 2011 precisa ser analisada com mais calma, não pode ser tomada como a expressão de indignação de um povo. Parte dessas manifestações encontra o apoio da mídia corporativa e não parece estar atenta a questões populares.

Junte tudo: um movimento apartidário, mas que não é autônomo, quase nacionalista, que luta pela moralidade, que saiu na capa da Veja (e não foi como Tática da Baderna, notem bem) e “está nem aí” para a participação popular. Que resultado deu aí?

Glaucia Fraccaro

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