Arquivo da tag: Brasil

De(s)cu(l)pando Belo Monte

Se hoje o cenário para aquele lugar é “as obras já começaram!”, quando (e se) terminarem, a região estará transformada definitivamente. Dentre os graves impactos socioambientais, alguns são irreversíveis e outros não, mas a esperança de ver reverter muitos deles, pouco a pouco vai por água abaixo (sem trocadilho). Atraso, permissividade, ganância e truculência marcam a atuação do Ibama e das empreiteiras, que sempre acabam por varrer os programas de mitigação de impactos para baixo do tapete, restando apenas a obra, símbolo do progresso desmedido, ao melhor do estilo medicista.

Dilma sabe que esse pode ser um calcanhar de Aquiles em seu governo e parece que quer se ver livre disso o mais rápido possível, endossando o atual andar da tratoragem. Alguns artigos defendem que a atual continuada de Belo Monte não é nada mais do que um compromisso de campanha com as grande irmãs, articulado ainda na era Lula, respinga até hoje. A Presidenta já estava à frente dessa articulação na Casa Civil, mas agora é sua gestão que leva o nome dos feitos e mal feitos do governo federal.

Existem dois grandes impactos socioambientais que merecem toda a atenção em relação à construção da usina de belo monte: o caso da Volta Grande do Xingu e o caso da cidade de Altamira e demais estruturas urbanas.

TVR: O projeto prevê que a barragem principal desvie a água do rio pelos canais e só a devolva aonde você vê escrito "Turbinas". A cidade de Altamira está bem na curva logo acima do texto "Reservatório principal". Fonte: EIA-RIMA

O primeiro deles, por ser irreversível, é o mais grave e o que vem gerando mais revolta e protestos. A Volta Grande do Xingu – trecho de cerca de 100 km do Rio Xingu entre a barragem principal (Pimental) e as vilas de Belo Monte e Belo Monte do Pontal – está no denominado TVR – Trecho de Vazão Reduzida. Trata-se de um local com geologia única no mundo (Formação Xingu) e por esse motivo tem um ecossistema muito específico. Devido à formação geológica, o rio se divide em diversos pequenos canais que servem de acesso, meio de transporte, fonte de alimento, trabalho e renda para as populações indígenas e ribeirinhas. Esses meandros representam importantes referências simbólicas e patrimônio paisagístico para os habitantes do entorno, que ainda sofrem com a incerteza acerca de quais canais secarão de fato e quais permanecerão perenes.

Sobre a estrutura urbana, teremos o impacto do contingente populacional. Atraídos pelas oportunidades de emprego geradas pela obra e o alagamento de áreas densamente habitadas, estima-se que a região receberá cerca de 100 mil migrantes, entre funcionários diretos e suas famílias, além dos cidadãos em busca de novas oportunidades, diretas ou indiretas.Com a chegada desse grande contingente populacional aliada à população que será relocada, a cidade referência regional Altamira, com aproximadamente 65 mil habitantes, poderá virar do avesso. Após a demarcação das áreas alagáveis pelo lago da represa, mais de 20.000 habitantes (quase um terço da população atual) deverão ser reassentados. A cidade receberá também a vila dos engenheiros com 500 casas (cerca de 2.000 habitantes a mais), que muito provavelmente serão construídas em condomínio fechado. E ainda o tal contingente populacional indireto atraído, destino previsto para mais 40.000 pessoas em cinco anos (período da obra). Feche as contas: crescimento de 65 para mais de 105 mil!

Acontece que mais de 90% das famílias das 5.000 a serem reassentadas são de baixa renda e vivem sobre palafitas nos igarapés afluentes do Xingu; os terrenos planos da cidade estão se esgotando e o preço da terra subindo vertiginosamente; 0% do esgoto da cidade é tratado, lançado diretamente no Rio Xingu e menos de 30% das casas tem água tratada.

No Igarapé Altamira, afluente do Rio Xingu, vivem mais de 13.000 pessoas. Foto: Fernando Cavalcanti

Infelizmente, o impacto sobre a Volta Grande do Xingu não parece ter mitigação possível. As comunidades indígenas e ribeirinhas não foram devidamente ouvidas e seguem protestando. Não surgiu projeto capaz de aliviar de forma aceitável os impactos sobre os quais vão ser submetidos. No aspecto ambiental, é difícil achar, por exemplo, empresa especializada no manejo da fauna aquática capaz de garantir um sistema eficiente para transposição dos peixes e demais organismos aquáticos sobre a barragem e assim garantir as trocas bióticas que transformam aquele ecossistema em algo único.

O desenvolvimento econômico e o movimento gerado pelas obras, por outro lado, poderiam ser encarados como um paradigma de benefício socioambiental. Dentre os projetos apresentados ao Ibama no Plano Básico Ambiental (que garantiu a tal inédita Licença Provisória de Instalação), está uma visão de como Altamira poderia se tornar a “capital verde” da Amazônia. O plano apresentado, por exemplo, já prevê vetores de crescimento urbano, ou seja, dá diretrizes de possíveis lugares para onde a cidade poderá crescer a partir do reassentamento de um terço de sua população. Propõe o envolvimento entre proprietários de terras, governo municipal e o consórcio da usina para definição de locais de novos loteamentos em espaços que não ofereçam riscos à população e que tenham fácil acesso aos serviços básicos de saneamento, educação e saúde. Os igarapés de onde sairão as famílias poderiam ser recuperados e transformados em grandes reservas ambientais urbanas, parques para recreação, ócio, prática de esportes e educação ambiental dos cidadãos. O plano prevê ainda a instalação de infraestrutura completa de coleta de esgotos e abastecimento de água.

Cidade de Altamira hoje. Fonte: Google Earth

Observe que áreas habitadas estão em azul, pois serão alagadas, ou em verde, pois por falta de habitabilidade se tornarão parques. Fonte: FortXingu

Já que a obra está em curso, minha esperança é não ver apenas a obra e sua energia gerada, mas sim ver mais de 40.000 pessoas (tanto a população urbana quanto a rural) serem retiradas da situação de extrema vulnerabilidade social para uma situação digna, vivendo em uma região dinâmica e estruturada.

Ainda que as chances de ver esses projetos executados sejam pequenas, os envolvidos nos movimentos que legitimamente insistem em barrar as obras que me perdoem, mas se o cenário pintado acima vingasse, eu desculparia Belo Monte.

Calasan

Anúncios

Cesare Battisti e a Esquerda Festiva

Voi per la vostra giovane età, non avete sperimentato sulla vostra carne, la storia di questo secolo. Forse non l’avete abbastanza studiata (nemmeno quella più recente) e contate sull’ignoranza e l’inesperienza di altri giovani per farne i vostri seguaci. Voglio credere che non vi rendiate conto della corruzione che potreste esercitare così, sulle loro coscienze, né delle conseguenze innominabili che ne ricadrebbero su di loro. (Elsa Morante – Lettera alle Brigate Rosse)

 

Não tenho o balacobaco do Mino Carta pra defender a extradição do Battisti, mas posso falar de uma experiência político-pessoal que me faz entender melhor o complexo social das disputas políticas. Pra deixar claro, sou a favor da extradição de Cesare Battisti desde que com pouco colarinho.

Obviamente, acompanhando pela mídia contra o povo, parece que já retumbam os motores dos porta-aviões da marina militare rumo à costa brasileira, comandados pelo cappo berluscano intento de recuperar (à qualquer custo) sua dignidade incorporada num muleque travesso que virou ídolo de milhares de ignóbeis. Parece também que o Brasil é um antro de revolucionários arrependidos que só querem tomar caipirinha sob a égide da vitória do novo socialismo. Réles e inocentes criminosos, mirem-se no exemplo de Mr. Biggs, deveria clamar a mídia.

Praticamente, aos fatos: O Brasil concede asilo. Ficamos com o Stroessner, com o Oviedo, o Lucio Gutierrez. Estes sim, não merecem a atenção da nossa mídia democrática, nem para fins de memória ou esclarecimento. Juntos, mataram mais de 5 mil. Acabamos de inocentar para toda a eternidade o Daniel Dandas, matamos aos poucos valores sem preço; mas o italiano terrorista, esse sim, deveríamos jogá-los aos leões para exercer o papel de paladino da justiça global.

Formado na esquerda festiva, classe média carioca (uma classe média de verdade, das dificuldades de meados dos 80, em que se gastava o mínguo troco sobrado, não em parcelas de TV, mas em chopp e amendoim), estava claro pra mim que não teria a menor identidade com a chatice dos monotemáticos da revolução, dos “sensualistas sem coração”, e dos ateus dogmáticos. Cultivar o intelecto por meio da ebriedade sempre foi mais frutífero e nossa marca registrada.

Não tardou para deparar-me com alguns daqueles. Vejo em Battisti um pentelho crescido que, na juventude, alheio de alegria, humor e sobrevivência, encarou de maneira radical seu desprezo pelo tipo de sociedade que lhe era imposta. Até aí, sem problemas. Vejo-o também, como o radical dos radicais, sem apreço pela humanidade por debaixo de suas sombrancelhas em V e mostrando do que era capaz pela vitória dos justos. Ahh inocência juvenil que não se aprende. Tivesse ele nascido em Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, talvez tornar-se ia um mago. Acabou apertando gatilhos, pobrezinho, em nome de uma causa que nem o Denis (o pimentinha) defenderia hoje. Quem nasce pra Battisti, nunca chega a Ernesto Guevara, diria o filósofo grego.

A festa e o afeto pela libertação de Battisti é tão boçal quanto a manifestação dos italianos na frente da embaixada em Roma. É quase ridículo usar uma figura como ele a fim de mostrar seu apreço político pela justiça social, igualdade, solidariedade e liberdade.

Custa à esquerda entender que existem milhões de Josés, Joãos, Marias e Rosas, que mesmo ao preço da miséria, da opressão, da humilhação viva do cotidiano, da injustiça que lhes bate a porta toda a manhã, da revolta que são obrigados a engolir a seco, sobrevivem produzindo e rindo, lutando e ensinando cada criança que a parte mais importante é a vida que é e a que será, numa luta sábia e cheia de ginga que dribla as teorias e burocracias das salas de aula e gabinentes.

Pra mim, se o Tarso deixou, larga a mão, deixa o italiano quieto. Daí vem o governo Italiano dizer que o Brasil “não está pronto pra ser uma grande potência”. Ah é. Grande potência é aquela que nutre o facismo, que fomenta grupos terroristas, que bombardeia a Líbia e que elege o Berlusconi, claro. Assino embaixo da carta de Elsa Morante, que um trecho reproduzi la em cima.

Não me intrometo na questão juridica, mas que é patético eleger uma figura insignificante para a luta pela justiça social e ceder a ela momentos de protesto, textos, propagandas e políticas, isso é. Eu mesmo já me arrependi de perder o tempo que perdi escrevendo esse texto, mas foi mais em glória a formação festiva do que em desprezo por aqueles que nutrem algum sentimento honroso ao revolucionarismo sem graça do Battisti. Só por isso, valeu a pena.

Pajé Lara

Basta de descaso com a educação pública

A Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte se calou diante do discurso indignado da professora Amanda Gurgel. Em audiência pública com a presença da secretária de educação daquele estado, no dia 11 de maio de 2011, a professora Amanda Gurgel traçou um relato do descaso com a educação pública no Rio Grande do Norte, mas que pode muito perfeitamente retratar a situação de muitas escolas em todo o país. São Paulo sabe muito bem disso. “A educação nunca foi prioridade”, lamenta Amanda Gurgel. Está na hora desse lamentável quadro começar a mudar. Chega de tolerância e paciência com o descaso da educação pública no Brasil.

Fome de quê?

Se durante uma semana ficarmos assistindo às programações da TV aberta ou fechada veremos a dedicação exaustiva das emissoras aos programas de beleza, saúde e bem-estar. Os jornais impressos também ampliaram seus suplementos, adicionando semanalmente artigos de bem-estar, alimentação, esporte, saúde, beleza, etc. É tanto verde, tanto sustentável, tanta “dica”, receita, técnicas e novidades que dão preguiça só de pensar. Às vezes fico me perguntando se eles estão falando com seus pares “super saudáveis” ou com aqueles que realmente precisam.

O bem-estar virou tema até na área de recursos humanos. Um monte os consultores de imagem, headhunters do mercado de trabalho não se esgotam em dar dicas de aparência: “não use decote”, “não use roupa apertada”, “mantenha um peso saudável”, e até mesmo o Estado negou, meses atrás, o ingresso de uma professora no concurso público, pois ela era obesa para os padrões. Ok, de que padrões a gente está falando mesmo? Beleza? Saúde? Segurança alimentar? nutricional?

Se for em busca de um padrão institucional, só em 2004 o IBGE começou a mensurar o perfil de segurança alimentar no Brasil e somente no ano passado foi estabelecido, pela primeira vez a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Claro que antes disso, sabemos que o Brasil sempre enfrentou sérios desafios com a fome e a pobreza absoluta.

No entanto, esses números parecem incoerentes quando comparados com o aumento de pessoas com problemas de sobrepeso, obesidade ou que sofrem com as doenças decorrentes da má alimentação e do aumento de peso no Brasil. Aliás, já se tornaram um problema de saúde pública e ganham cada vez mais espaço na mídia, aliados ao crescimento do número de cirurgias estéticas e gástricas – especialidades essas que colocam o Brasil entre os primeiros no número de cirurgias plásticas realizadas.

Mas é fato que durante anos ouvimos falar da pobreza e da fome no Brasil, e pra sair do senso-comum, o perfil de segurança alimentar no Brasil, elaborado pelo IBGE, detectou que em 2009, 30,2% da população brasileira se encontrava em situação de insegurança alimentar grave, moderada ou leve, índices esses que se concentram majoritariamente nas regiões Norte e Nordeste. E onde está esse gargalo entre a insegurança alimentar e o número crescente da obesidade?

Sem contar as dicas de especialistas da boa forma, tenho cada vez mais convicção de que a alimentação faz parte de um conjunto de políticas para além do combate à fome. A relação que estabelecemos com a comida (muitas vezes, paranóica) perpassa sim por uma política de educação, de economia, de orientação. Obesos subnutridos é a incoerência para um país que por décadas lida com a insegurança alimentar. Diminuir o consumo de certos alimentos, mudar padrões alimentares, propor novos olhares e novas escolhas para a comida e para a sua produção é um desafio quando o poder de compra e a oferta de produtos estão escancarados para nós. Escolher o que comer e quando comer ainda não é uma realidade para todos, mas caminhamos para isso e, para tanto, pautar a alimentação como um ponto político de saúde, educação e de economia é um assunto muito mais do que estético.

Gisela C. Geraldi