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Ai, como é estúpido! Ou a “cotismofobia”

Recentemente, as declarações do deputado federal pelo PP-RJ, Jair Bolsonaro, “escandalizaram” o Brasil. Quem diria que um deputado que se elegeu defendendo a ditadura militar, a proibição de homossexuais nas Forças Armadas e o controle de natalidade (aplicado a pessoas de baixa renda), seria capaz de pronunciar frases tão avessas ao convívio em sociedade e ao respeito pelas identidades sociais?

Espanto à parte, o que gostaria de tratar aqui não são tanto suas opiniões (ou crimes) contra os negros, mas algo que parece ter passado batido no meio de tamanho exercício de alteridade. Queria falar sobre sua “cotismofobia”.

As palavras de Jair Bolsonaro no programa CQC da Bandeirantes foram: “eu não entraria num avião pilotado por um cotista e nem aceitaria ser operado por um médico cotista”. Agora, como alguém pode se sentir seguro com um legislativo composto por Bolsonaro e companhia? O mínimo que se espera de um deputado é que ele conheça a causa que está defendendo ou atacando.

O sistema de cotas propõe que 50% das vagas nas universidades federais seja disputada por alunos egressos da rede pública de ensino. Há casos, como a UFBA, em que foram criadas subcotas nesse sistema para atender proporcionalmente a grupos específicos (negros, egressos de escolas públicas, índios etc.). Ou seja, os tais cotistas disputam entre si a entrada na universidade. Como é esse disputa? O mesmo vestibular e as mesmas provas pelas quais passam todos os ingressantes em instituições de ensino superior. Como são essas provas? Elas exigem o mesmo conteúdo de que você ou Jair Bolsonaro já devem ter se esquecido. Que conteúdo seria esse? A taxonomia das plantas, os dispositivos do Tratado de Methuen, a reação química que transforma gordura em sabão, quais são os gases nobres, e por aí vai.

Os alunos de baixa renda, que estudam nas escolas públicas, concorrem entre si e aqueles com melhor aproveitamento ingressam na universidade. Mas, como questionaria um Bolsonaro, essa concorrência entre candidatos provenientes de uma pior qualidade de ensino não vai diminuir o nível do conhecimento produzido na universidade e, consequentemente, do profissional formado? Com certeza, ó cotismofóbicos! Teremos um volume maior de médicos que não sabem os nomes das capitais dos países africanos, de engenheiros que não conhecem o Index da Igreja Católica, de jornalistas que não entendem a Lei de Ohm e, obviamente, de pilotos que jamais conseguiriam fazer decolar ou aterrissar um avião sem essas informações.

Carolina Souza