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Cesare Battisti e a Esquerda Festiva

Voi per la vostra giovane età, non avete sperimentato sulla vostra carne, la storia di questo secolo. Forse non l’avete abbastanza studiata (nemmeno quella più recente) e contate sull’ignoranza e l’inesperienza di altri giovani per farne i vostri seguaci. Voglio credere che non vi rendiate conto della corruzione che potreste esercitare così, sulle loro coscienze, né delle conseguenze innominabili che ne ricadrebbero su di loro. (Elsa Morante – Lettera alle Brigate Rosse)

 

Não tenho o balacobaco do Mino Carta pra defender a extradição do Battisti, mas posso falar de uma experiência político-pessoal que me faz entender melhor o complexo social das disputas políticas. Pra deixar claro, sou a favor da extradição de Cesare Battisti desde que com pouco colarinho.

Obviamente, acompanhando pela mídia contra o povo, parece que já retumbam os motores dos porta-aviões da marina militare rumo à costa brasileira, comandados pelo cappo berluscano intento de recuperar (à qualquer custo) sua dignidade incorporada num muleque travesso que virou ídolo de milhares de ignóbeis. Parece também que o Brasil é um antro de revolucionários arrependidos que só querem tomar caipirinha sob a égide da vitória do novo socialismo. Réles e inocentes criminosos, mirem-se no exemplo de Mr. Biggs, deveria clamar a mídia.

Praticamente, aos fatos: O Brasil concede asilo. Ficamos com o Stroessner, com o Oviedo, o Lucio Gutierrez. Estes sim, não merecem a atenção da nossa mídia democrática, nem para fins de memória ou esclarecimento. Juntos, mataram mais de 5 mil. Acabamos de inocentar para toda a eternidade o Daniel Dandas, matamos aos poucos valores sem preço; mas o italiano terrorista, esse sim, deveríamos jogá-los aos leões para exercer o papel de paladino da justiça global.

Formado na esquerda festiva, classe média carioca (uma classe média de verdade, das dificuldades de meados dos 80, em que se gastava o mínguo troco sobrado, não em parcelas de TV, mas em chopp e amendoim), estava claro pra mim que não teria a menor identidade com a chatice dos monotemáticos da revolução, dos “sensualistas sem coração”, e dos ateus dogmáticos. Cultivar o intelecto por meio da ebriedade sempre foi mais frutífero e nossa marca registrada.

Não tardou para deparar-me com alguns daqueles. Vejo em Battisti um pentelho crescido que, na juventude, alheio de alegria, humor e sobrevivência, encarou de maneira radical seu desprezo pelo tipo de sociedade que lhe era imposta. Até aí, sem problemas. Vejo-o também, como o radical dos radicais, sem apreço pela humanidade por debaixo de suas sombrancelhas em V e mostrando do que era capaz pela vitória dos justos. Ahh inocência juvenil que não se aprende. Tivesse ele nascido em Lagoa da Canoa, município de Arapiraca, talvez tornar-se ia um mago. Acabou apertando gatilhos, pobrezinho, em nome de uma causa que nem o Denis (o pimentinha) defenderia hoje. Quem nasce pra Battisti, nunca chega a Ernesto Guevara, diria o filósofo grego.

A festa e o afeto pela libertação de Battisti é tão boçal quanto a manifestação dos italianos na frente da embaixada em Roma. É quase ridículo usar uma figura como ele a fim de mostrar seu apreço político pela justiça social, igualdade, solidariedade e liberdade.

Custa à esquerda entender que existem milhões de Josés, Joãos, Marias e Rosas, que mesmo ao preço da miséria, da opressão, da humilhação viva do cotidiano, da injustiça que lhes bate a porta toda a manhã, da revolta que são obrigados a engolir a seco, sobrevivem produzindo e rindo, lutando e ensinando cada criança que a parte mais importante é a vida que é e a que será, numa luta sábia e cheia de ginga que dribla as teorias e burocracias das salas de aula e gabinentes.

Pra mim, se o Tarso deixou, larga a mão, deixa o italiano quieto. Daí vem o governo Italiano dizer que o Brasil “não está pronto pra ser uma grande potência”. Ah é. Grande potência é aquela que nutre o facismo, que fomenta grupos terroristas, que bombardeia a Líbia e que elege o Berlusconi, claro. Assino embaixo da carta de Elsa Morante, que um trecho reproduzi la em cima.

Não me intrometo na questão juridica, mas que é patético eleger uma figura insignificante para a luta pela justiça social e ceder a ela momentos de protesto, textos, propagandas e políticas, isso é. Eu mesmo já me arrependi de perder o tempo que perdi escrevendo esse texto, mas foi mais em glória a formação festiva do que em desprezo por aqueles que nutrem algum sentimento honroso ao revolucionarismo sem graça do Battisti. Só por isso, valeu a pena.

Pajé Lara

EU ! – uma resposta respeitosa a uma pergunta oportuna

Em 10 anos trabalhando com mídia, arte, cultura e expressão, aprendi uma lição que deve servir a todos os humanos de bem. Parem de por a culpa das chagas da sociedade no homem público, no apresentador de TV e no colunista   reacionário!! Eles são somente o receptáculo e os fantoches de uma ideologia profundamente arraigada em todos nós, humanos de bem. Como se não existisse um Faustão, um Paulo Francis, uma Adriane Galisteu, um Reinaldo Azevedo, um Arnaldo Jabor, uma Angélica em todos nós, disparamos críticas fáceis em direção a argumentos óbvios, atingindo não mais que um cisco no ego de uns e outros.

Entrar na roda da fortuna que é vincular o que é transmitido por uma mídia que atua contra o povo (que é não só reacionária no conteúdo, mas extremamente conservadora e segregacionista na forma) com uma discussão sobre “liberdade de expressão” é cair na cova dos leões e nivelar uma discussão que poderia tomar ares de emancipação a uma simples representação da sociedade ventilada pelo dispositivo mais poderoso do Kapital.

Nunca vi a “casa dos autistas”, as vezes vejo o CQC, mas como tudista (o nome correto para cidadão bem informado) que sou, sei do que se passa no mundo para além do Cidadão Kane. As vezes, a vontade de falar que emerge (ou submerge, anatomicamente falando) de nossos cerebelos solapa uma necessidade de concentração na realidade. Desde 2003, anti-semitismo, enquanto racismo, é crime imprescritível.1 Dito isso, creio que não valha a pena vincular a este debate, não a imunidade de rafinha, zézinho ou luizinho, mas sim a de um sistema integrado que induz e reproduz elementos de uma sociedade com todos os problemas que conhecemos (sim ! Eu sou pelo controle social da mídia !) e impede a real expressão da autonomia que todo ser humano carrega e tem direito de mostrar. Por isso acho que o vínculo do humor com os meios de comunicação de massa é mais promíscuo e subordinado que um bordel de coelhos na Paris de 1850.

São muitas discussões portanto, que o texto da Flávia propõe. Uma evoca a noção do “politicamente correto”, outra invoca superficialmente o aspecto jurídico dos crimes de racismo, outra insere a mídia comercial como protagonista (ou antagonista – depende do mestre de cerimônias), outra ainda, salpica argumentos contra uma certa “arte” e um certo “humor. Obviamente, como se espera, não aprofunda nem problematiza nenhum deles. Também não esperem de mim tal imersão.

Certa feita, há muito tempo atrás, escrevi um texto argumentando que o terror, o amor e o humor, eram as formas mais revolucionárias vigentes no mundo de hoje. Obviamente não me referia ao ataque indiscriminado sobre inocentes, às relações sentimentais dos protagonistas da novela das 8 ou ao CQC (que diga-se de passagem não é criação do Professor Tibúrcio nem do Ernesto Varela, mas uma criação portenha. O Taz é somente um entusiasta com oportunidade). O terror é estético, atinge de surpresa e causa espanto: o inevitável estranhamento tão necessário para a ação. O amor, ah, o amor… quando livre, eterno e sem barreiras, solapa o feminismo e o machismo junto com as imagens mais retrógradas de um jantar à dois e um laçar de mãos. O humor, subversivo, sacana e malandro, questiona, faz pensar, põe em dúvida a certeza e não perdoa nem mesmo a mais profunda nota de rodapé ou referência acadêmica.

A arte não tem nada de livre. É um aspecto da sociedade externalizada pela sensibilidade de seus membros. Não tem nada de autônoma e tudo de política. Enganam-se (ou contradizem-se) aqueles que tratam como pecado a queima de arquivos da escravidão e como panacéia a proibição da literatura racista. Fechados em seus ramos e disciplinas, carimbam a letra da culpa naqueles que nem pedíram para serem exumados. Em nome da vanguarda e do politicamente correto vamos proibir a venda da Bíblia (o novo testamento é anti-semita!? ), de crônicas no Nelson Rodrigues (aquele reacionário do caralho!? ), ou da venda dos quadros do Warhol (que atiça o consumismo como ninguém!?) . Ah, mas no caso do Rui Barbosa é diferente, “são documentos e não arte”, diriam os carteiristas da CRHASO. Sim. Argumente então o Caçadas de Pedrinho para um pesquisador da história da economia do petróleo no Brasil ou um estudioso de literatura infantil. Guimarães Rosa não cessava de caçoar dos que não conheciam os mistérios da Roça. Fernando Sabino trocaria “seu reino por uma mulata”. Marques de Sade era um pervertido, machista, agressivo. Em nome do debate, trucidam-se as fontes do argumento.

Argumento fácil, aquele que diz que contra o políticamente correto somente se erguem os destros, protestantes, anglo-saxões que não têm pé-chato. De novo, a aparência antes da essência se transforma em acusação sem a compreensão da experiência. Obviamente, segundo os mesmos argumentos, os canhotos que sofrem de cistos sebáceos e têm dentes tortos são os únicos a defenderem religiosamente o aperto de mãos sem preconceitos, solidários, combativos e bunitos de vê.

Valha-me meu pai. Caros “combatentes contra o preconceito e estereótipos”, desbundem !! Mal sabem vocês que os loiros germânicos sentem profunda culpa e sentimentos de inferioridade em função de serem reféns dos filmes de hollywood, de modo que toda e qualquer discussão sobre o holocausto ter que ser cautelosa, polida e sizuda. Tanto quanto seria um texto de um homem branco criticando a Condollezza Rice.

O que é crime, é crime. O que não é, lutemos políticamente para que seja (e rezemos para estarmos certos em condenar seus praticantes). Atingir a mídia contra o povo, é por o povo contra a mídia! E lutemos para que sejamos mais do que letras em web logs. O que é sem graça, privemos de rir. O resto, é desbunde contra o moralismo. Sou formado na esquerda festiva e para mim, revolução é anti-burocrática, anti-vanguardista, anti-doutrinária e contra o mal humor. E no fundo do apêndice do politicamente correto, do crítico sem ritmo, do artista burocrata, do doutrinador de black tie, da comedida libertária e do cientista sem arte, sempre reside um facista esperando seu líder. Rir das diferenças é fazer de todos, mais humanos. É saber entender que a a hierarquia está substituida pelo ridículo que tod@s representamos, igualmente. O problema da segregação, como já disse em outro lugar, não é culpa da imprensa, do sudeste, dos EUA ou dos nazistas. É, como diria o barba, um problema de uma sociedade de classes num sistema econômico que subordina as diferenças e faz delas, desigualdades. E ele era irônico como poucos.

Culpar o humor pelo preconceito é algo como culpar o rebento pelo coito. É se eximir de uma capacidade de dar o troco na mesma moeda. E por isso, atentem: se não formos mais criativos nas críticas, reféns ficaremos dos argumentos mais banais que os espertinhos de plantão tiram da cartola. E nisso, carrancudez por carrancudez, eles são melhores.

Pajé Lara

  1. A decisão do supremo de 2003 diz que “A ausência de prescrição nos crimes de racismo justifica-se como alerta grave para as gerações de hoje e de amanhã, para que se impeça a reinstauração de velhos e ultrapassados conceitos que a consciência jurídica e histórica não mais admitem.”