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Pessoal, vamo rachá um estádio?!

[pausa na nossa programação para uma proposta indecente]

Só pra não deixar passar em branco o curioso da rápida mudaça de postura pública em manchetes do Estadão e do G1:

Jun/10 “Prefeitura de SP nega projeto de estádio para Copa de 2014. Kassab diz que não investirá dinheiro público em estádio da Copa”

Nov/10 “Para Kassab, estádio do Timão fica fora da Copa se não for ampliado.
Prefeito de São Paulo disse que não vai investir dinheiro na ampliação e recoloca Morumbi, Arena Palestra e Pacaembu na disputa para ser sede”

Jun/11 “Kassab foca esforços no estádio do Corinthians: ‘Não tem plano B’. Prefeito descarta Pacaembu, Morumbi e Arena Palestra para a Copa do Mundo de 2014. ‘Não temos tempo para nenhuma outra alternativa’, diz ele”

Jul/11 “Câmara de SP aprova projeto que dá incentivo de 420 milhões ao estádio do Corinthians (projeto redigido pelo próprio Kassab)”

Qual respeito podemos esperar de um trio fedorento composto por Ricardo Teixeira, Andres Sanches e Kassab? Postura pública, é o que esses cidadãos declaram aos jornalões que injetam essas manchetes diariamente em 99% dos lares e bares do Brasil. Eles já sabiam desde o começo o fim dessa história, mas enquanto acertavam a mamata, pediram pros amigos da imprenÇa fechar as cortinas.

A tal ‘falta de memória do povo brasileiro’, que é tema em todas as eleições, está em grande parte na abordagem desses meios de comunicação. Fazem questão de esquecer o que publicaram e sempre falam do tema como se fosse a primeira vez.
Como todo curintiano espero por estádio decente desde sempre… mas curitiano ou não, você também está pagando essa conta. Eu tô meio duro ultimamente, não queria contribuir com essa causa agora, sabe?

Calasan

Xerifes paulistanos

“O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que julgava e distribuía a pena, e, ao mesmo tempo, o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não havia testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação para as sentenças que dava, fazia o que queria, e ninguém lhe tomava contas.”

Quem não se lembra do famoso romance de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias? A obra narra as aventuras protagonizadas por Leonardo no Rio de Janeiro em fins do século XIX, sempre perseguido pelo Major Vidigal, representante máximo da instituição policial daquela época, responsável pela ordem e correção, realizava prisões ao seu bel prazer.

Apesar de a obra descrever as injustiças geradas por um representante da polícia num passado distante, é possível perceber que tais personagens designados à manutenção da ordem pública parecem ser recorrentes na história política brasileira

Gilberto Kassab, ao ser reeleito em 2008, iniciou uma nova fase de administração pública para a cidade de São Paulo. Em um primeiro momento, demitiu os subprefeitos que tiveram uma má gestão. Coincidentemente, “os que foram mal” eram vinculados ao ex-subprefeito da Vila Mariana, Fábio Lepique, que, por sua vez, deixou o cargo para trabalhar na campanha do ex-governador Geraldo Alckmin [a respeito da briga destemperada entre a turminha picolé de chuchu, liderada por Kassab e a gangue leite com pêra, encabeçada por Alckmin, conferir esses posts].

Após demissão em massa daqueles considerados inadequados, Kassab passou progressivamente as chefias de subprefeituras de São Paulo para oficiais da reserva da Polícia Militar (PM). Hoje, 14 dos 31 subprefeitos são coronéis aposentados com previsão para mais dois serem indicados até o final do segundo semestre. E se você pensa que os fardados em cargos administrativos ficam restritos às gerências das subprefeituras, enganou-se. Mais 17 oficiais são chefes de gabinete e 24 trabalham em posições de segundo escalão, entre essas, as coordenadorias de planejamento e desenvolvimento urbano ou de projetos e obras.

Somando de lá e de cá, constatou-se que há mais de 50 oficiais aposentados da PM trabalhando nas subprefeituras de São Paulo. Mas, então, o que muda na administração da cidade com esses indivíduos na gerência das principais subprefeituras?

Regulamentadas na gestão Marta Suplicy (PT), as subprefeituras foram criadas para descentralizar, agilizar e democratizar a administração pública da capital do Estado. Elas representam, em última instância, o poder executivo em âmbito e extensão regional. Assim sendo, no comando dessas entidades, estariam os subprefeitos conjuntamente a conselhos da sociedade civil organizada, com a função primordial de possibilitar o desenvolvimento de suas regiões, diagnosticando de perto e solucionando as necessidades e pedidos da população.

Assim, mesmo que indireto, já que indicado pelo prefeito, o subprefeito é aquele indivíduo que atua como representante de um determinado espaço e que, portanto, trabalha com as demandas e especificidades daquele lugar. Porém, sob a égide da “ordem” social e da “contenção” da criminalidade, Kassab decidiu eleger indivíduos completamente alheios à realidade dos espaços em que atuam – são muito mais xerifes de sua políticas públicas do que representantes das populações daquela região.

E como bons policiais que são, atuam segundo a lógica da transgressão subjetiva, baseada na prerrogativa usada pela polícia desde os tempos do Major Vidigal  – a clássica ideia da suspeição generalizada. Assim como o Vidigal perambulava pelas ruas do Rio em busca de indivíduos ou situações consideradas fora da ordem estabelecida, os ex-fardados paulistas, agora no ilustríssimo cargo de subprefeitos, devem seguir o decreto proposto por Kassab de passear diariamente pelos bairros de suas jurisdições por 5 km com o intuito de observar e reverter cenas ou situações que estão fora do lugar.

Não é coincidência que na maioria das subprefeituras comandadas por eles, o número de prisões, mandatos ou fechamentos do comércio considerados ilegais ou não credenciados aumentou consideravelmente. Curiosamente a criminalidade não diminuiu.

'Tudo na ordem, Capitão, podemos seguir viagem?'

Há ainda aqueles subprefeitos que preferem fazer a “ronda” sob um ângulo mais amplo, sobrevoando a região em helicópteros, e, a partir dessa privilegiada posição, constatam que tudo vai muito bem, obrigado.

Evidente que não se pretende aqui fazer uma apologia ao caos generalizado (apesar de ser proposta interessante para determinados momentos), mas sim um convite ao debate – se esses indivíduos foram empossados sob a justificativa da manutenção da ordem, cabe perguntar: ordem para quem? Parece mais fácil perseguir os excluídos e os marginalizados usando a justificativa de serem criminosos ou desrespeitadores da ordem pública, higienizar os bairros dos “cidadãos de bem” e continuar com uma política de cartáter exclusivo em detrimento à construção da cidade inclusiva.

Por Lívia Maria Botin

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