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Sinal de fumaça

O povo da TAB esteve por lá, se divertindo na Angélica X Sergipe; Foto de Cassius Guimarães

Parece que esse churrascão sinaliza um descontentamento muito mais amplo do que a estação Angélica. O alvo do muito bem humorado protesto de ontem foi a estratégia de planejamento e decisão do Estado que continua historicamente ao sabor de interesses privados, seja corporativo, seja de pessoas físicas da elite que se fazem ser ouvidas quando algo as desagrada.

Foto de Ju Giordano

Reproduzo o texto da Arquiteta Urbanista Raquel Rolnik, que vai de encontro com idéias que rabiscamos por aqui e saiu hoje no Estadão, ilustrando muito bem como essa mentalidade provinciana, elitista, tacanha, conservadora… direitista está há tempos nos acomanhando no desenvolvimento urbano paulistano.

Calasan

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Lições do Churrascão, por Raquel Rolnik

Em protesto contra a reação negativa de moradores de Higienópolis, um dos bairros mais nobres de São Paulo, à construção de uma estação de metrô na Avenida Angélica, internautas marcaram através do Facebook um churrascão em frente ao Shopping Higienópolis. A polêmica estourou na web a partir do anúncio, por parte da Companhia do Metrô, de que a nova estação da Linha 6 não seria mais localizada na Angélica. Na sexta-feira pela manhã, quando o proponente decidiu cancelar o churrasco, quase 50 mil pessoas já haviam aderido ao protesto e o assunto ganhara as páginas dos jornais, com discussões técnicas sobre a localização da estação, análises sociológicas sobre o comportamento dos moradores contra e a favor da estação e declarações de representantes do Metrô procurando negar qualquer motivação que não fosse “estritamente técnica” em sua decisão.

Para além do debate sobre a melhor localização da nova estação, e até mesmo da prioridade dessa estação (e dessa linha!) em relação às gigantescas demandas de transporte coletivo de qualidade na região metropolitana de São Paulo, a polêmica dos últimos dias finalmente desnudou dois temas da maior importância para o urbanismo brasileiro, cuja discussão esteve restrita até agora a pequenos círculos acadêmicos e, com esse debate, ganha as ruas da cidade.

O primeiro tem a ver com o modelo de cidade que tem orientado o desenvolvimento de São Paulo (e das cidades brasileiras) pelo menos desde o final do séc 19: um urbanismo segundo o qual “qualidade” é sinônimo de “exclusividade”. Sua produção e hegemonia na política urbana se sustentam por meio de uma coalizão de interesses econômicos com grande capacidade de influenciar as decisões políticas de investimentos e legislação na cidade.

O nascimento do bairro de Higienópolis no final do século 19, na sequência de empreendimentos semelhantes (Campos Elísios, Vila Buarque, Av. Paulista) revela este mecanismo: o abandono dos velhos sobrados de taipa no triângulo central por chateaux, chalets e cottages circundados por jardins nos novos bairros se beneficiou da construção do Viaduto do Chá, em um movimento que aliou uma reterritorialização das elites ao emergente negócio de terras – o loteamento. Foi essa a trajetória de d. Angélica, filha do Barão de Souza Queiroz, que, ao deixar de viver em sua fazenda, em 1874, fixou residência na Chácara das Palmeiras, onde mandou edificar na esquina da Angélica com a Al. Barros uma réplica do castelo de Charlottenburg, conforme planos, materiais e decoração encomendados na Alemanha.

O prestígio dessas nobres residências contribuiu indubitavelmente para o sucesso dos “loteamentos exclusivos”, abertos na cidade na década de 1890. Sua localização – a Chácara do Carvalho e o Palácio de Elias Chaves nos Campos Elísios, o palacete da Vila Maria na Vila Buarque e o palacete de d. Angélica em Higienópolis – coincidia exatamente com a dos primeiros empreendimentos desse tipo. A construção do Viaduto do Chá foi fundamental para essa marcha ao sudoeste que se seguiria. Sua instalação viabilizaria os mais importantes empreendimentos imobiliários do final do século 19: Higienópolis e Paulista. Neles se envolveram proprietários de terras, investidores potenciais, engenheiros e políticos.

Na esteira de investimentos urbanos (esses bairros já eram abertos contando com rede de água, esgoto, gás e bonde, quando seus contemporâneos bairros operários Brás e Mooca, por exemplo, demoraram décadas para receber a mesma infraestrutura), uma legislação urbanística garantia a exclusividade, definindo um padrão de grandes lotes, uso exclusivamente residencial e obrigatoriedade de recuos. A verticalização do bairro de Higienópolis, que se intensificou a partir dos anos 70, mudou esse perfil, mas não desconstruiu, simbolicamente, o projeto.

A resistência que o bairro tem hoje para receber uma estação de metrô está justamente relacionada com a sua possível popularização e, consequentemente, a desvalorização imobiliária – uma postura rejeitada por muitos, inclusive moradores do próprio bairro, como bem demonstram as manifestações dos internautas, que ao rejeitá-la, afirmam o desejo de uma cidade heterogênea, multiclassista, multiétnica e multifuncional.

A direção do Metrô afirmou em nota oficial que a decisão de mudar a localização da estação se deu por razões técnicas (excessiva proximidade entre as estações Angélica e Higienópolis/Mackenzie) e não para atender à solicitação de moradores insatisfeitos. Entretanto, os anúncios (e “desanúncios”) de linhas e estações, metrôs que viram monotrilhos e corredores de ônibus que aparecem e desaparecem dos “planos” do governo evidenciam um segundo ponto essencial que bloqueia o desenvolvimento de um urbanismo de qualidade para todos: o processo decisório dos investimentos da cidade.

Na ausência de um processo de planejamento estável – aliado a uma estratégia urbanística pactuada coletivamente na cidade -, os planos e projetos são anunciados e desmentidos ao sabor das pressões dos interesses que conseguem ter acesso à mesa de decisão. Aqui, mais uma vez, convergem de forma perversa coalizões de interesses econômicos enlaçados – por relações pessoais ou de classe – com interesses políticos.

O recado que a polêmica da estação Angélica parece dar é que os cidadãos paulistanos estão cada vez mais cansados desse modelo.

O Corolário Cepacol – O pensamento político tucano

BondBoca e Boca de Caçapa

Os leitores de Tabnarede (e d’el estupendo grouchomarxista também) já tiveram oportunidade de debater o artigo de FHC na semana passada. Apenas com intuito de refrescar a memória, vou lembrar que o ex-presidente tentou dar uma orientação política de oposição ao seu PSDB. Nas tais linhas expressou que, daqui para a frente, o “povão” é classe que permanecerá alinhada ao Partido dos Trabalhadores, mas que um novo estrato social estava disponível à disputa política: A Nova Classe C.

A opinião do ex-presidente tomou ares de tese de Sociologia e foi assim que ganhou a hasta pública. Os jornalistas alinhados com o projeto FHC/PSDB não demoraram a reproduzir a opinião de FHC em seus próprios termos. O curioso é que esses termos expressam um profundo asco da pobreza. Para eles, pobre, além de não ter consciência política, é fedido pronto e acabou. E, ainda para eles, quando o povão ascende socialmente, a primeira atitude é de providenciar o fim do suposto futum – é o Corolário Cepacol.

Explico: Cristiana Lobo ao se aventurar por análises que desvendassem a Nova Classe C (na Globo News, no último fim de semana, assista aqui só a partir do 5º minuto) afirmou que é o consumo que os caracteriza, principalmente o desejo de possuir mercadorias como o enxaguante bucal, “afinal todo mundo quer ir cheirosinho para o baile funk”.

Só para lembrar a Cantanhede, durante a convenção do PSDB de 2010, disse esfuziante em matéria para a TV Uol: “Parece até que o PSDB tá virando um partido de massa, mas uma massa cheirosa”.

E, assim, se formula um corolário de pensamento político tucano.

Glaucia Fraccaro