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A Autonomia da USP! – O caso da FFLCH

Depois do episódio grotesco da última quinta feira, estive buscando quem pudesse me dar um panorama do que realmente rolou… sabemos o que não esperar da imprenÇa golpista, mas escutei pessoas que estiveram lá presentes relatarem a ordem dos acontecimentos. Pesquisadores da própria FFLCH inclusive, concluindo que a PM foi armar o circo planejado pelo reitor e a estudantada caiu na onda, fácil fácil… e nosso governador Geraldinho… tinha o discurso armado (em todos os sentidos), claro.

Mas tudo isso é  fofoca. O que importa vem abaixo, com sua licença, caro Lincoln, publicarei seu texto que recebi no facebook de um amigo.

 

A Autonomia da USP!

Lincoln Secco, Livre Docente em História Contemporânea na USP

Não é comum ver livros como armas. Enquanto no dia 27 de outubro de 2011 a imprensa mostrou os alunos da FFLCH da USP como um bando de usuários de drogas em defesa de seus privilégios, nós outros assistimos jovens indignados, mochila nas costas e livros empunhados contra policiais atônitos, armados e sem identificação, num claro gesto de indisciplina perante a lei. Vários alunos gritavam: “Isto aqui é um livro!”.
Curioso que a geração das redes sociais virtuais apresente esta capacidade radical de usar novos e velhos meios para recusar a violação de nossos direitos. No momento em que o conhecimento mais é ameaçado, os livros velhos de papel, encadernados, carimbados pela nossa biblioteca são erguidos contra o arbítrio.
Os policiais que passaram o dia todo da ultima quinta feira revistando alunos na biblioteca e nos pátios, poderiam ter observado no prédio de História e Geografia vários cartazes gigantes dependurados. Eram palavras de ordem. Algumas vetustas. Outras “impossíveis”. Muitas indignadas. E várias poéticas… É assim uma universidade.
A violação da nossa autonomia tem sido justificada pela necessidade de segurança e a imagem da FFLCH manchada pela ação deliberada dos seus inimigos. A Unidade que mais atende os alunos da USP, dotada de cursos bem avaliados até pelos duvidosos critérios de produtividade atuais, é uma massa desordenada de concreto com salas superlotadas e realmente inseguras. Mas ainda assim é a nossa Faculdade!
É inaceitável que um espaço dedicado á reflexão, ao trabalho, à política, às artes e também à recreação de seus jovens estudantes seja ameaçado pela força policial. Uma Universidade tem o dever de levar sua análise crítica ao limite porque é a única que pode fazê-lo. Seus equívocos devem ser corrigidos por ela mesma. Se ela é incapaz disso, não é mais uma universidade.
A USP não está fora da cidade e do país que a sustenta. Precisa sim de um plano de segurança próprio como outras instituições têm. Afinal, ninguém ousaria dizer que os congressistas de Brasília têm privilégios por não serem abordados e revistados por Policiais. A USP conta com entidades estudantis, sindicatos e núcleos que estudam a intolerância, a violência e a própria polícia.
Ela deve ter autonomia sim. Quando Florestan Fernandes foi preso em 1964, ele escreveu uma carta ao Coronel que presidia seu inquérito policial militar explicando-lhe que a maior virtude do militar é a disciplina e a do intelectual é o espírito crítico… Que alguns militares ainda não o saibam, é compreensível. Que dirigentes universitários o ignorem, é desesperador.

Lincoln Secco
Universidade de São Paulo (USP)
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) – Departamento de História
Av. Professor Lineu Prestes, 338
05508-900 – São Paulo – SP – Brasil

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Pessoal, vamo rachá um estádio?!

[pausa na nossa programação para uma proposta indecente]

Só pra não deixar passar em branco o curioso da rápida mudaça de postura pública em manchetes do Estadão e do G1:

Jun/10 “Prefeitura de SP nega projeto de estádio para Copa de 2014. Kassab diz que não investirá dinheiro público em estádio da Copa”

Nov/10 “Para Kassab, estádio do Timão fica fora da Copa se não for ampliado.
Prefeito de São Paulo disse que não vai investir dinheiro na ampliação e recoloca Morumbi, Arena Palestra e Pacaembu na disputa para ser sede”

Jun/11 “Kassab foca esforços no estádio do Corinthians: ‘Não tem plano B’. Prefeito descarta Pacaembu, Morumbi e Arena Palestra para a Copa do Mundo de 2014. ‘Não temos tempo para nenhuma outra alternativa’, diz ele”

Jul/11 “Câmara de SP aprova projeto que dá incentivo de 420 milhões ao estádio do Corinthians (projeto redigido pelo próprio Kassab)”

Qual respeito podemos esperar de um trio fedorento composto por Ricardo Teixeira, Andres Sanches e Kassab? Postura pública, é o que esses cidadãos declaram aos jornalões que injetam essas manchetes diariamente em 99% dos lares e bares do Brasil. Eles já sabiam desde o começo o fim dessa história, mas enquanto acertavam a mamata, pediram pros amigos da imprenÇa fechar as cortinas.

A tal ‘falta de memória do povo brasileiro’, que é tema em todas as eleições, está em grande parte na abordagem desses meios de comunicação. Fazem questão de esquecer o que publicaram e sempre falam do tema como se fosse a primeira vez.
Como todo curintiano espero por estádio decente desde sempre… mas curitiano ou não, você também está pagando essa conta. Eu tô meio duro ultimamente, não queria contribuir com essa causa agora, sabe?

Calasan

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De hoje até domingo, acompanhe pelos tabnarede os debates do 2ª BlogProg

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Quem tem medo de quem tem medo do “politicamente correto”? Ou: porque a discussão sobre esse discurso não faz nenhum sentido.

Em textos recém publicados no nosso Tab, Ana Flávia C. Ramos e Pajé Lara discutem os limites do chamado “humor preconceituoso” e a liberdade que deve ter a liberdade de toda a nossa expressão.

Os autores, em menor sintonia entre si, mas em maior sintonia, pelo menos,  com o nosso universal, ao intentarem delimitar o direito (inalienável!) das “minorias” em contestar o conteúdo ofensivo e discriminatório presente em piadas e outras produções de cunho literário, sociológico, filosófico etc., ainda que tenham construído, em diferentes aspectos, uma argumentação consistente do ponto de vista da legitimidade que deve ser conferida a esse movimento, deslizam, a meu ver, na análise do “funcionamento” desse discurso.

A polêmica, penso, tem sido colocada à partir de um ponto de vista enviesado. Não se trata de discutir se se deve ou não bradar à favor ou contra o discurso do politicamente correto. Se tal discurso é predominantemente da esquerda ou da direita. Se se pode fazer humor ou arte sem que se utilize de meios “ditos” escusos. Essa é uma questão falsa em termos do funcionamento da linguagem.

E é uma questão falsa por um motivo muito simples, um discurso politicamente correto, qualquer um que ele venha a ser, não existe. O que existe é apenas a sua tentativa, impossível todavia de realizar-se discursivamente. Afinal, só faz sentido que se troque “gay” por “homossexual” uma vez que se insista na classificação das pessoas de acordo com a sua sexualidade (exemplo fácil: uma pessoa branca, quando descreve uma outra desconhecida, produz essa frase: ”era aquele branco sentado no banco da frente”?).

Não  reconhecer que existam “maiorias” e “minorias” sociais é ingênuo. A manobra do contra-argumento do “preconceito inverso” é capenga. E imaginar que é possível que exista uma sociedade em que todos convivam juntos, mão à mão e em Paz é utópico. Todos praticamos algum tipo de preconceito! Sempre praticamos e sempre praticaremos (a questão, no entanto, é deveras mais séria quando nos encontramos inseridos em qualquer maioria). O que nos resta é  identificar a que conjunto de ideias nossos preconceitos nos remetem e que grupos de pessoas virão a se sentir (por óbvio!) ofendidos quando, e assim que, as expressarmos.

O problema, então, (indagarão meus amigos) é insolúvel? É impossível (con)vivermos numa sociedade sem preconceitos,? Estamos fadados a eternamente reagir a um grupo de pensamentos diametralmente oposto aos nossos? E a resposta é sim, mas com uma ressalva fundamental. Gentili, Bastos, Taz e cia ilimitada não cessam, por isso, de serem os imbecis visíveis que quem reagiu a suas piadas preconceituosas acha que eles são. No meu entender, eles devem ser reavaliados não como vítimas indefesas do espectro do politicamente correto e de sua patrulha sisuda, mas sim como os representantes que de fato são de certo grupo ideológico (dominante) com o qual não nos identificamos e contra o qual evidentemente sempre haveremos de reagir (e esse “nós” é facultativamente inclusivo).

As diferenças serão eternamente construídas, como argumenta muito bem o texto meio-galhardo, meio-bravio do Pajé. A prática do ódio associado à diferença, no entanto, é o que se configura como o verdadeiro vício a combatermos.

Mariana Musa

EU ! – uma resposta respeitosa a uma pergunta oportuna

Em 10 anos trabalhando com mídia, arte, cultura e expressão, aprendi uma lição que deve servir a todos os humanos de bem. Parem de por a culpa das chagas da sociedade no homem público, no apresentador de TV e no colunista   reacionário!! Eles são somente o receptáculo e os fantoches de uma ideologia profundamente arraigada em todos nós, humanos de bem. Como se não existisse um Faustão, um Paulo Francis, uma Adriane Galisteu, um Reinaldo Azevedo, um Arnaldo Jabor, uma Angélica em todos nós, disparamos críticas fáceis em direção a argumentos óbvios, atingindo não mais que um cisco no ego de uns e outros.

Entrar na roda da fortuna que é vincular o que é transmitido por uma mídia que atua contra o povo (que é não só reacionária no conteúdo, mas extremamente conservadora e segregacionista na forma) com uma discussão sobre “liberdade de expressão” é cair na cova dos leões e nivelar uma discussão que poderia tomar ares de emancipação a uma simples representação da sociedade ventilada pelo dispositivo mais poderoso do Kapital.

Nunca vi a “casa dos autistas”, as vezes vejo o CQC, mas como tudista (o nome correto para cidadão bem informado) que sou, sei do que se passa no mundo para além do Cidadão Kane. As vezes, a vontade de falar que emerge (ou submerge, anatomicamente falando) de nossos cerebelos solapa uma necessidade de concentração na realidade. Desde 2003, anti-semitismo, enquanto racismo, é crime imprescritível.1 Dito isso, creio que não valha a pena vincular a este debate, não a imunidade de rafinha, zézinho ou luizinho, mas sim a de um sistema integrado que induz e reproduz elementos de uma sociedade com todos os problemas que conhecemos (sim ! Eu sou pelo controle social da mídia !) e impede a real expressão da autonomia que todo ser humano carrega e tem direito de mostrar. Por isso acho que o vínculo do humor com os meios de comunicação de massa é mais promíscuo e subordinado que um bordel de coelhos na Paris de 1850.

São muitas discussões portanto, que o texto da Flávia propõe. Uma evoca a noção do “politicamente correto”, outra invoca superficialmente o aspecto jurídico dos crimes de racismo, outra insere a mídia comercial como protagonista (ou antagonista – depende do mestre de cerimônias), outra ainda, salpica argumentos contra uma certa “arte” e um certo “humor. Obviamente, como se espera, não aprofunda nem problematiza nenhum deles. Também não esperem de mim tal imersão.

Certa feita, há muito tempo atrás, escrevi um texto argumentando que o terror, o amor e o humor, eram as formas mais revolucionárias vigentes no mundo de hoje. Obviamente não me referia ao ataque indiscriminado sobre inocentes, às relações sentimentais dos protagonistas da novela das 8 ou ao CQC (que diga-se de passagem não é criação do Professor Tibúrcio nem do Ernesto Varela, mas uma criação portenha. O Taz é somente um entusiasta com oportunidade). O terror é estético, atinge de surpresa e causa espanto: o inevitável estranhamento tão necessário para a ação. O amor, ah, o amor… quando livre, eterno e sem barreiras, solapa o feminismo e o machismo junto com as imagens mais retrógradas de um jantar à dois e um laçar de mãos. O humor, subversivo, sacana e malandro, questiona, faz pensar, põe em dúvida a certeza e não perdoa nem mesmo a mais profunda nota de rodapé ou referência acadêmica.

A arte não tem nada de livre. É um aspecto da sociedade externalizada pela sensibilidade de seus membros. Não tem nada de autônoma e tudo de política. Enganam-se (ou contradizem-se) aqueles que tratam como pecado a queima de arquivos da escravidão e como panacéia a proibição da literatura racista. Fechados em seus ramos e disciplinas, carimbam a letra da culpa naqueles que nem pedíram para serem exumados. Em nome da vanguarda e do politicamente correto vamos proibir a venda da Bíblia (o novo testamento é anti-semita!? ), de crônicas no Nelson Rodrigues (aquele reacionário do caralho!? ), ou da venda dos quadros do Warhol (que atiça o consumismo como ninguém!?) . Ah, mas no caso do Rui Barbosa é diferente, “são documentos e não arte”, diriam os carteiristas da CRHASO. Sim. Argumente então o Caçadas de Pedrinho para um pesquisador da história da economia do petróleo no Brasil ou um estudioso de literatura infantil. Guimarães Rosa não cessava de caçoar dos que não conheciam os mistérios da Roça. Fernando Sabino trocaria “seu reino por uma mulata”. Marques de Sade era um pervertido, machista, agressivo. Em nome do debate, trucidam-se as fontes do argumento.

Argumento fácil, aquele que diz que contra o políticamente correto somente se erguem os destros, protestantes, anglo-saxões que não têm pé-chato. De novo, a aparência antes da essência se transforma em acusação sem a compreensão da experiência. Obviamente, segundo os mesmos argumentos, os canhotos que sofrem de cistos sebáceos e têm dentes tortos são os únicos a defenderem religiosamente o aperto de mãos sem preconceitos, solidários, combativos e bunitos de vê.

Valha-me meu pai. Caros “combatentes contra o preconceito e estereótipos”, desbundem !! Mal sabem vocês que os loiros germânicos sentem profunda culpa e sentimentos de inferioridade em função de serem reféns dos filmes de hollywood, de modo que toda e qualquer discussão sobre o holocausto ter que ser cautelosa, polida e sizuda. Tanto quanto seria um texto de um homem branco criticando a Condollezza Rice.

O que é crime, é crime. O que não é, lutemos políticamente para que seja (e rezemos para estarmos certos em condenar seus praticantes). Atingir a mídia contra o povo, é por o povo contra a mídia! E lutemos para que sejamos mais do que letras em web logs. O que é sem graça, privemos de rir. O resto, é desbunde contra o moralismo. Sou formado na esquerda festiva e para mim, revolução é anti-burocrática, anti-vanguardista, anti-doutrinária e contra o mal humor. E no fundo do apêndice do politicamente correto, do crítico sem ritmo, do artista burocrata, do doutrinador de black tie, da comedida libertária e do cientista sem arte, sempre reside um facista esperando seu líder. Rir das diferenças é fazer de todos, mais humanos. É saber entender que a a hierarquia está substituida pelo ridículo que tod@s representamos, igualmente. O problema da segregação, como já disse em outro lugar, não é culpa da imprensa, do sudeste, dos EUA ou dos nazistas. É, como diria o barba, um problema de uma sociedade de classes num sistema econômico que subordina as diferenças e faz delas, desigualdades. E ele era irônico como poucos.

Culpar o humor pelo preconceito é algo como culpar o rebento pelo coito. É se eximir de uma capacidade de dar o troco na mesma moeda. E por isso, atentem: se não formos mais criativos nas críticas, reféns ficaremos dos argumentos mais banais que os espertinhos de plantão tiram da cartola. E nisso, carrancudez por carrancudez, eles são melhores.

Pajé Lara

  1. A decisão do supremo de 2003 diz que “A ausência de prescrição nos crimes de racismo justifica-se como alerta grave para as gerações de hoje e de amanhã, para que se impeça a reinstauração de velhos e ultrapassados conceitos que a consciência jurídica e histórica não mais admitem.”