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A mídia que estupra

Quem não se lembra do filme The Accused (1988 – Jonathan Kaplan), protagonizado por Jodie Foster, que consagrou a atriz por uma interpretação notável? Filme aclamado pela crítica, impactante e polêmico em sua essência, narra a história de uma jovem, Sarah Tobias, que, após uma noite de diversão com as amigas, é estuprada por vários homens nos fundos de um bar. No desenrolar da trama, com o auxílio de uma advogada, Sarah, que no início é vista como “responsável” pela violência, consegue a condenação de seus agressores, reafirmando a tese de que, independente do flerte, da bebida, das roupas ou de qualquer outra coisa, estupro é sempre estupro. No enredo, vitoriosamente prevalece a máxima: sim significa sim e não significa não! Durante o julgamento, entretanto, outros agravantes foram mobilizados pela advogada para condenar também os cúmplices daquele terrível caso: o estupro de Sarah morbidamente contou com uma platéia entusiasmada que, aos gritos, incitava o ato de violência. A cada novo agressor, a platéia pedia “bis”.
Para quem esteve ligado nas redes sociais no último domingo (15/01/12), sabe que a lembrança do filme não é fortuita. Desde ontem, o assunto do suposto estupro sofrido por Monique em rede nacional no Big Brother Brasil não sai de nossas cabeças e nem de nossas timelines. A cena, para quem viu no pay-per-view, enoja, deprime e indigna. Uma mulher, desacordada e vulnerável, tem o seu corpo violado e invadido por alguém que, ao que tudo indica, não foi convidado. Aparentemente sem consciência e sem meios de reagir, a vítima estava entregue ao seu agressor, Daniel, em frente às câmeras, à equipe técnica e à enorme platéia do outro lado da televisão e do computador.  Aquilo que era feito nos fundos de um bar perde os seus “pudores” e se torna diversão pública e explícita na TV.
Muitas questões têm surgido desde que a cena virou polêmica nacional: Monique sabia o que estava acontecendo? Ela compartilhou as carícias de Daniel? Houve sexo? Ela se lembra do que ocorreu? A despeito dos comentários moralistas, machistas e misóginos – que me recuso a discutir, pois já estou farta de tentar argumentar com quem insiste na imbecilidade – outro fato me chamou a atenção: o papel da platéia nesse “show de horrores”. Quem estava presenciando a tudo e nada fez? A responsabilidade do ato, além de Daniel, se ficar comprovado o estupro, deve ser estendida a quem mais? Assim como os espectadores do estupro no filme The accused, qual o papel da maior emissora de TV do país no caso?
Nas cenas do dia seguinte, Monique dava indícios de que não sabia exatamente o que havia ocorrido na noite anterior. Intrigada, após ter sido chamada no confessionário, pergunta à Daniel o que, de fato, acontecera naquela noite. O brother nega o sexo, dizendo que foram apenas beijos e umas passadas de mão, e claramente se esquiva do assunto.
Monique, confinada em um reality show, sem contato com o mundo exterior, não sabe que o Brasil discute seu suposto estupro. Possivelmente violentada enquanto dormia, ela é também “violentada” pela produção do programa, quando esta se nega a informá-la exatamente sobre que está ocorrendo. Omissão grave, já que esta era a equipe a quem a participante confiou sua segurança, ao aceitar participar do programa, um ambiente teoricamente controlado e protegido por regras e parâmetros de bom senso, garantidores, ao menos, da integridade física dos jogadores. Entretanto, a produção se abstém de dizer o que de fato está acontecendo e deixa Monique, mais uma vez, à mercê de seu eventual algoz. Embora ela tenha direito à verdade, ela continua indefesa na escuridão, como a do quarto em que estava na noite de sábado, permanecendo também na insegurança das camas compartilhadas do programa. Daniel, já anteriormente acusado de ter se aproveitado de Mayara, segue ileso pelos corredores da casa e sequer é questionado pelos responsáveis do reality show. Monique parece ser vítima duas vezes.
Independente da posterior averiguação do caso e da condenação ou não de Daniel, existe um cúmplice a quem não se pode negar a culpa: a Rede Globo de Televisão. A emissora, na madrugada do domingo, reconheceu as evidências de um possível crime (no plantão de notícias do pay-per-view os responsáveis pelo programa escreveram que estava “rolando um clima”, mas que a “loira não se mexia”), se utilizou dessas evidências para alavancar o seu ibope, incitando os telespectadores a continuarem a assistir às cenas, mas, em momento algum, tentou (ou desejou) interromper o ato. No dia seguinte, diante da polêmica e dessas evidências, se absteve, ainda, de revelar à Monique o que ocorrera, negando assim o direito essencial da participante de decidir se devia prestar queixa à polícia ou não.  Os produtores, cúmplices da suposta violência, ao esconderem as cenas de Monique, negaram-lhe, entre outras coisas, o direito de realizar o exame de corpo de delito, instrumento fundamental na comprovação da agressão. E quem se responsabilizará por isso?
O histórico de barbaridades no BBB já não é novo, mas quais serão os limites do programa após um suposto estupro em cadeia nacional? Como será interpretada pelas autoridades públicas e pelos telespectadores a omissão da Globo diante do caso?  A emissora, de forma tirânica e desleal, seguiu com o espetáculo, reduzindo o episódio, através de seu fiel porta-voz, Pedro Bial, a “muito amor”. Através de uma edição impregnada de machismo e, por que não, de moralismos arcaicos, deixou Monique à mercê da situação e sequer prestou contas ao público, que ainda debate intensamente nas redes sociais a saída/punição de Daniel. Como uma concessão pública, que serviços à comunidade são prestados por essa emissora de TV? Qual a responsabilidade social da Rede Globo com seus telespectadores? Ou ainda a pergunta que nos atormenta a cada dia: o que tem sido e para quê tem servido a grande mídia no Brasil?
Nesse sentido, a pressão e as críticas dos brasileiros e telespectadores é cada vez mais fundamental na mobilização de forças não somente para a solução desse caso, mas também na construção de uma nova mídia.

Ana Flávia C. Ramos

Ajoelhaço – tem muito homem disposto a pedir perdão!

O movimento cultural Cooperifa tem dado um belo exemplo da movimentação que pode ser feita para contribuir com o fim da violência contra as mulheres. Os homens se prontificam a assumir a culpa e tentar se redimir. E as mulheres totalmente livres a aceitá-las ou não.

2009

2010

 

 

Por que temos medo de andar na rua de noite? Marcha das vadias e os feminismos

Discutir machismo e feminismo anda tão batido que se corre sério risco de chover no molhado. Há tantos textos excelentes, de pesquisadoras de gênero, de feministas engajadas, de sociólogas, antropólogas e filósofas, que testículos como o meu vão parecer manifestinhos bravios de crianças que emburram. No entanto, em meio às mais despretensiosas conversas entre amigos (homens e mulheres legais, que se dizem combatentes do ideário machista, enfim, machos e fêmeas feministas), vira e mexe nos deparamos com declarações de arrepiar os cabelos! Acho que não podemos temer a chuva.

“O estupro é execrado pelos homens!” “Eu fui criado nessa mesma sociedade e não me tornei machista.” “Não há um aumento em relação aos crimes contra a mulher, está dentro da média esperada”. “A violência atinge a todos, independentemente do sexo”…

Intriga-me o seguinte: por que homens que se dizem feministas ficam tão chateados quando nos referimos à sociedade em que vivemos como machista e misógina? Por que é tão difícil, especialmente para os caras mais legais, entenderem que, não, o estupro e a(s) violência(s) contra a mulher não são frutos da nossa cabeça, que não precisamos ter sido estupradas para termos o direito de falar com propriedade sobre o assunto, uma vez que a opressão é sensível ao mais modesto dos nossos movimentos, e que essa não é uma prática associada apenas a alguns exemplares do sexo masculino, detentores de mentes psicopatas e criminosas?

A violência contra a mulher é um crime de poder e de ódio, reflexo de um modus cogitandi a que estamos todos submetidos.  Fomos ensinados assim e assim ensinamos (a não ser que você acorde do transe e substitua esse discurso por outro). A sociedade é doente do ponto de vista da construção de gênero (e é evidente que afirmo isso porque sou mulher!). E transmite a seus membros, sem exceção, a sua enfermidade. Aos homens, que são incapazes de entenderem o “gostosa” dirigido a uma mulher que passa na rua como uma violência. E às mulheres, que aprendem a se sentirem culpadas e a aceitarem a violência que lhes é conferida, cotidianamente, sem reagir. Pode-se definir o machismo em uma frase curta: a ideia de um feminino submetido a um masculino. Foi consolidado, junto a outros movimentos de opressão, com a vitória do capitalismo. Tão simples e tão complexo.

Não é raro, no entanto, que divergências irreconciliáveis venham se construindo dentro do próprio movimento feminista. Particularmente quando ele se organiza e propõe intervenções, manifestos, marchas e gritos. Podem os homens se manifestar no planejamento das ações feministas? (minhas opiniões, e as explicarei em outro momento, seguem entre os parêntesis: não!) A marcha das vadias é um movimento elitista, que atinge apenas a parte da sociedade que é feminista, já engajada em discussões de gênero? (sim! Mas é a única que propõe mudanças de paradigmas teóricos) Seria a slutwalk uma ação “menos concreta” e “mais ideológica” em relação ao aumento de policiamento e iluminação nas ruas? (NÃO, muito pelo contrário… essas medidas “mais ativas” são apenas paliativas e ineficientes, uma vez que, entre outros fatos, um terço dos casos de estupro ocorrem dentro de casa ou entre conhecidos!)

Explico-me um pouco melhor quanto ao último ponto. É simplesmente inexiste essa separação pretendida entre ações mais “concretas”  e ações mais ideológicas. Toda ação é ideológica  e quando se decide aumentar o policiamento das ruas, ainda que não pareça, está-se propondo que a nossa situação só poderá ser resolvida pelo mesmo Estado que nos impõe essa mesma ideologia que pretendemos abolir.

É uma faca de dois gumes pensar que a ideologia machista tenha que ser combatida com a submisão de seu discurso multi-milenar e onipresente nas sociedades conhecidas (em maior ou menor grau de tentativa de distanciamento desse discurso). De um lado, abordar a questão do ponto de vista discursivo pode parecer utópico e deveras moroso, no entanto, é ingênuo e absolutamente ineficiente imaginarmos qualquer mudança significativa e de base sem que haja, de fato, a “des-hegemonia” desse conjunto de valores e pensamentos. De outro, isso nos ata as mãos para organizarmos ações pertinentes e urgentes que resolvam, ainda que a curto prazo, os ataques acontecendo bem embaixo das nossa fuças.

O problema, na verdade, se constrói porque paira no ar a ideia, também machista em sua raiz, de que o combate imediato à violência que sofremos é um objetivo “simples” de ser alcançado. Basta que se aumente o policiamento nas ruas, as delegacias contra as mulheres, e, claro, que nós nos submetamos a certo toque de recolher e que observemos as impropriedades de nosso vestuário a as evitemos… elementar, meu caro Watson: em busca do empoderamento feminino, busca-se abrigo sob os cace(te)tes dos machos feministas que nos protegem e asseguram. Não é preciso que se exponha o ridículo desse raciocínio.

Chegamos à sinuca de bico que todo e qualquer discurso feminista tenta evitar: o que fazer, então? Não que eu pretenda, aqui, gritar Eureka! e resolver o problema do mundo! Mas acredito na força das palavras e acho que um discurso só pode ser debatido frente a um outro. É imprescindível que o machismo seja combatido em todos os seus componentes. Da indignação do pai ou do marido ou do namorado que teve a sua propriedade violentada (sim, o crime de estupro no Brasil é considerado um crime contra a moral e os costumes e não contra a mulher! E não, não estou deslegitimando o sentimento verdadeiro e solidário de nossos machos feministas, apenas aponto-lhes onde mora o machismo na sua fala) aos atos de ódio de fato, entre eles, o simples desrespeito verbal de um “elogio” entre desconhecidos na rua.

Mariana Musa

Todo estupro é político

“Que se diga: daqui em diante, nenhuma vítima de agressão sexual ousará denunciar seu agressor se ele for uma celebridade, por medo de se ver sob o odioso tratamento a que está submetida a jovem camareira que denunciou Dominique Strauss-Kahn”.

Com essa afirmação, Lysiane Gagnon inicia um artigo publicado no jornal canadense La Presse no último dia 19 de maio. Ao invés de refletir sobre o debate político suscitado a partir da denúncia, as oscilações na bolsa causada pela prisão de um dos homens mais influentes no mundo e a “teoria de complô”, ela apresenta um objetivo muito mais delimitado e inédito: refletir sobre as conseqüências dessa denúncia na vida da própria mulher que a empreendeu.

Segundo Gagnon, “as grandes mídias americanas [leia-se estadunidenses] respeitaram a regra que preserva a identidade das vítimas de agressão sexual (caso contrário, elas seriam acusadas de ultraje na justiça)”. Ainda assim, informações sobre essa mulher foram divulgadas mundialmente, sobretudo pela imprensa francesa: imigrante, 32 anos, mãe, negra, muçulmana. Em relação a esse último aspecto, a articulista considera: “Para os muçulmanos conservadores, uma agressão sexual constitui uma vergonha que recai sobre toda a família e o clã, uma vergonha sobre a qual a mulher é sempre responsável”. Hostilizada, portanto, por diferentes grupos, desde a comunidade américo-guineense às elites francesas, a agredida está sob proteção da polícia e não pode ir a sua casa, nem ao seu trabalho.

A jornalista ainda lembra a frase de um dos advogados de Strauss-Kahn, segundo o qual “ela [a vítima] é muito pouco atraente”, ao que ela acrescenta indignada: “como se apenas as belezas hollywoodianas fossem dignas de serem agredidas por homens conhecidos!”. Para terminar, conclui: “sem a garantia de que elas não serão indevidamente expostas à opinião pública, quantas vítimas de violação ousariam denunciar os seus agressores?”. Acompanho os argumentos da articulista porque considero sua abordagem extremamente relevante para pensar sobre esse e outros casos de estupro, levantando questões sobre denúncia, vergonha e como essas informações são divulgadas pela imprensa.

Ainda que, no futuro, a alegada inocência de Strauss-Kahn venha a ser comprovada, assim como a existência de uma armação para comprometer sua provável candidatura, é essencial lembrar que a dúvida é uma característica recorrente em quase todos os relatos de agressão sexual divulgados pela mídia, nos quais proliferam incertezas sobre o que vem a ser uma agressão desse gênero e sobre o caráter dos envolvidos, sobretudo das vítimas.

O artigo de Gagnon me fez lembrar outra notícia, vinculada na Folha de São Paulo, no dia 18 de fevereiro desse ano, sob o título “Estupro de repórter vira rixa política nos EUA”. Naquele contexto, o alvo do estupro havia sido uma jornalista sul-africana radicada nos Estados-Unidos, Lara Logan, que trabalhava na cobertura da queda do ditador egípicio Hosni Mubarak. Segundo a notícia, “inúmeros blogueiros sugeriram que Logan foi culpada pelo ataque e assumiu o risco como mulher, ‘loira ainda por cima'”, sendo que “outros usaram o episódio para criticar o Egito e os muçulmanos”, além de apresentarem questionamentos sobre se “apalpadelas” configurariam uma agressão sexual (para que não haja dúvidas a resposta é: sim!).

O jornal brasileiro ainda comentou que “muitos culpam a CBS por enviar Logan ao Egito no meio da tormenta”, cogitando a possibilidade de que a atuação de jornalistas mulheres fosse institucionalmente restrita a ambientes seguros. Segundo uma pesquisa da Universidade de Columbia, inúmeras profissionais sofrem abusos em zonas de guerra mas, por serem mulheres, “temem falar a respeito por medo de serem consideradas mais fracas que colegas homens”. Por outro lado, “o Comitê de Proteção de Jornalistas alerta que abusos contra repórteres e ativistas homens também são disseminados em vários lugares, como Irã e Paquistão”.

Na época, fiquei extremamente incomodada com essa notícia, por vários motivos. Apesar de jornalistas de ambos os sexos estarem sujeitos a abusos em zonas de guerra, por que apenas as mulheres deveriam ser alvo de uma proteção especial? No final do século XIX, quando surge a figura do “repórter” na redação dos jornais de grande circulação, sua imagem foi associada à virilidade, como se fosse uma ocupação condicionada por resistência física e psicológica e, em pouco tempo, se tornou um dos cargos mais importantes do jornal. Era, enfim, vista como uma profissão masculina.

É claro que essa distinção foi recorrentemente questionada pela trajetória de mulheres que desempenharam essa função ao longo do tempo, mas a idéia em si parece ter criado raízes. Na verdade, esse tipo de distinção dialoga com uma longa tradição que insiste em buscar evidências para mostrar a incapacidade das mulheres para algumas profissões (ou para qualquer trabalho fora da esfera doméstica). A velha ladainha de naturalizar as diferenças sociais e usar a biologia como prova incontestável de hierarquização das pessoas.

Da mesma forma, o estarrecimento diante da idéia de que mulheres sejam acusadas por “provocarem” seus próprios estupros. As mulheres não são, de forma alguma, vítimas passivas. Mas, ainda assim, são vítimas e é um erro enorme acusar qualquer pessoa, homem ou mulher, de incitar essa prática de violência contra si. Mais constrangedor ainda que esse mesmo argumento tenha sido usado para falar tanto da empregada muçulmana de um hotel de luxo até a repórter loira que atuava como correspondente na Primavera Árabe. Isso ajuda a entender porque o silêncio constitui a única reação de muitas das vítimas de agressão sexual. Mas as experiências degradantes vividas pela camareira e pela jornalista vieram a público e suscitaram o debate na mídia internacional, com conseqüências políticas importantes. Trata-se de casos célebres que, não por acaso, apresentam pontos em comum com outros relatos de estupro, como a da estudante da Universidade Federal do Acre, atacada no último dia 19 de maio.

Esse último crime “causou polêmica” porque, embora colegas e meios de comunicação afirmem que ocorreu um estupro, “os familiares preferiram não registrar queixa” e a universidade divulga que “a garota foi assaltada”. Inúmeras agressões sexuais ocorridas em campus universitário de todo o país vêm ganhando publicidade nos últimos tempos, o que não quer dizer que não existissem antes. É preciso providências urgentes! Mas, por ora, quero refletir sobre a escolha da família dessa jovem. Talvez para preservar a intimidade da vítima diante de uma imprensa sensacionalista, seus parentes preferiram negar o estupro, no lugar de denunciá-lo. Essa hipótese ganha força na medida em que se considera que o culpado não seria encontrado, tão pouco punido, tendo em vista diversos aspectos da realidade brasileira (sociais, culturais, econômicos e por aí vai). Mas há uma questão muito forte, inegável, que envolve honra e vergonha. Assumir que houve um ataque à universitária colocaria em xeque sua moral, assim como de toda a sua família. Mesmo impasse vivido por outras vítimas, pela camareira de Dominique Strauss-Kahn e pela jornalista Lara Logan.

Então, a escolha da família dessa universitária me leva a concluir que todo estupro é político, mesmo que não abale futuras disputas eleitorais, nem gere discussões nos meios de comunicação globalizados. Isso não implica em negar que todo estupro é uma violência, um ato degradante, incondicionalmente condenável. Afirmar que todo estupro é político é dizer que agressores, vítimas, analistas e todos os demais envolvidos se apropriam de diferentes representações e estereótipos de gênero, raça e classe (para citar apenas algumas categorias identitárias) que circulam na sociedade contemporânea. Não raro, notícias e artigos sobre esses episódios tendem a reforçar visões preconceituosas. A contrapartida é que os meios de comunicação também abrem a possibilidade de questionamento e de discussão sobre inúmeras diferenças sociais. As mídias não apenas divulgam denúncias mas podem, eventualmente, abrir espaço para que as vítimas se expressem, se exponham, se refaçam.

Nesse sentido, gostaria de questionar a afirmação de Lysiane Gagnon, com a qual iniciamos esse texto. Será que o caso Dominique Strauss-Kahn, assim como suas repercussões em diferentes instâncias, reforça realmente o silêncio das futuras vítimas de agressão sexual, sobretudo quando agressores são celebridades? Vejamos: a denúncia de uma camareira abalou irremediavelmente a carreira de um homem que, de figura de poder, passou a expressar “vergonha nacional”. Honra e vergonha, valores recorrentemente lembrados nessas situações, sendo mobilizados para avaliar o comportamento do agressor, não apenas das vítimas, como ocorre na maior parte das vezes. Será que, justamente por isso, essa história lamentável não pode ter outros efeitos, como encorajar a romper esse silêncio, colaborando para a afirmação política de homens e mulheres que foram (ou venham a ser) vítimas de agressão sexual?

Lerice de Castro Garzoni

Sobre a arte e o protagonismo histórico

Literatura do século XIX é arte? Se for, também posso dizer, como fez o meu colega Pajé Lara, que trabalho com arte há mais de uma década, lendo desde Machado de Assis a caricaturas de Agostini. Tenho lá, portanto, certa “familiaridade” com o tema. Mas não se intimide, caro leitor, essas denominações só servem como mero argumento de “autoridade”. Mesmo que você não trabalhe com nada que se possa chamar de “arte”, o diálogo está aberto, inclusive para dar uma “lição” que sirva a todos os “homens de bem”. O debate, democrático como desejamos, não precisa de “selos de garantia”.

 Vou partir nesse texto de um conceito que considero muito importante para a discussão, o da arte como um campo de batalhas. Considero que todo texto literário, toda metáfora, piada, imagem ou comentário político se insere em uma rede de diálogos existentes na sociedade em que foi produzido. Machado, por exemplo, não apenas “retratava” o seu mundo, não apenas o refletia, mas desejava, intensamente, ser protagonista de sua própria história, interferindo, modificando e combatendo em nome daquilo que julgava ser melhor. Fazer arte, ou qualquer coisa que seja, é fazer escolhas. Por isso, tenho bastante dificuldade em entender um argumento que parte do pressuposto que Faustão, Adriane Galisteu, Angélica, Danilo Gentili, Rafinha, Zezinho ou Luizinho (gostei da brincadeira!) são “receptáculos” e “fantoches” de uma “ideologia” “profundamente arraigada”. No meu ponto de vista, eles são, na verdade, personagens de sua história, atores sociais. Eu nunca tiraria o protagonismo histórico dessas pessoas em nome de uma superestrutura que “origina” tudo. A arte nunca foi, nem nunca será, apenas espelho. Além disso, pautar o mundo a partir de uma “ideologia arraigada” – que explica e traduz tudo – é simplificar esse emaranhado de expectativas e realidades com que todos lidamos o tempo todo.

Por ser a arte um palco de enfrentamentos políticos e sociais, é que decidi escrever o meu último texto para o tabnarede, “Quem tem medo do politicamente correto?”, que tinha como objetivo debater a reação extremada, passional e destemperada de certo grupo de pessoas que tem tomado as críticas aos comentários racistas, homofóbicos e sexistas como um ataque frontal à liberdade de expressão. Um ataque dos “malvados” integrantes da “polícia” do politicamente correto. A discussão sobre essas questões, sobre as conquistas das minorias, está tão distendida que, qualquer menção ao “tom racista” de Danilo Gentili já vira uma celeuma. O motivo da discussão? Um medo de que liberdades sejam “cerceadas”. Medo mais retórico do que real, pois nos últimos anos não vi ninguém ser punido (muito menos censurado) por comentários, divulgação de ideias e obras ditas preconceituosas. A estratégia é simples: desqualificar e subverter as ideias e argumentos daqueles a quem eles chamam de os “politicamente corretos”.  Vou lembrar aos leitores, porque a memória às vezes nos trai, que termino o meu texto conclamando não a censura, mas ao respeito às conquistas das minorias. Ao contrário do que foi sugerido por Pajé Lara, jamais propus uma espécie índex para os livros proibidos, nem sugeri que estes e outras obras de arte fossem queimados em praça pública. Defendo e vou continuar a defender o respeito aos que criticam e combatem ativamente a divulgação de preconceitos. É luta, debate, resposta daqueles que se sentirem ofendidos.

Meu texto versava sobre como há uma  certa “vitimização” por parte de um grupo conservador, pertencente a uma elite que sempre esteve no poder e que sempre disse o que queria, mas que agora se diz “patrulhado”. Coitadinhos. Volto a dizer: balela. Ninguém está censurando ninguém. A crítica, a briga por ter o mesmo espaço que eles, é um direito dos que se sentem atacados pelas piadas de mau gosto que veiculam na mídia. Nada mais democrático. Dar voz a quem sempre teve que ouvir calado. Isso se chama democracia. A tática da “vitimização” é recorrente, mas não mais recorrente que a acusação de “fascismo”, “autoritarismo” ou “extremismo” daqueles que pensam diferente deles. A estratégia é velha e há muito já foi respondida. Os que atacam qualquer menção ao “politicamente correto” se apressam em ridicularizar e estereotipar seu oponente com um argumento que considero dos mais clichês, como o de “proibir a Bíblia”, que não é só anti-semita, mas também defende, entre outras coisas, a escravidão. Características óbvias de que ela é um texto datado historicamente. Na linguagem cotidiana, nada erudita, isso se chama “apelar” frente ao desespero de ter que reconhecer o protagonismo de novos atores sociais. Tais acusações só mostram que há um constante “exagero” por parte dos que temem o “politicamente correto”, uma atribuição de “extremismos”, de exigências radicais que não estão entre as reivindicações dos que lutam pelo fim dos preconceitos.

Há uma pequena confusão, que precisa ser esclarecida. Dizer que não concorda com a distribuição da obra “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, com dinheiro público, não é a mesma cousa que defender a proibição de uma literatura tida como racista. Embora não defenda a proibição, Inácio Araújo, crítico de cinema que gosto bastante, fez um comentário que considerei um dos mais pertinentes sobre a polêmica de Lobato. Ele disse que não se importava pessoalmente se Lobato era racista ou não (e inclusive diz que não o considera racista). Mas reconhecia que depois de 300 anos (!) de escravidão, só hoje os negros começavam a ser tratados com um “mínimo de igualdade”, e que por isso achava uma “hipocrisia essa história de gente, seja políticos, seja literatos, brancos todos, a favor da liberdade de expressão”. Para ele, os relatos que realmente o comoviam – e pareciam verdadeiros – eram os de negros dizendo que “sofreram e se sentiram diminuídos com passagens de Lobato”. Para o crítico, indiscutível defensor da liberdade de expressão e de criação, o mínimo a se fazer seria escutar os interessados a esse respeito, isto é, os negros. Sem essa participação, a tal da “liberdade de expressão” se tornaria “nada mais do que uma abstração sem conteúdo nenhum”. Segundo Araújo, a não distribuição pública de Lobato nas escolas para crianças não afetaria jamais a liberdade de expressão. Para ele, não há censura aos livros ou proibição de sua circulação, como também disse em meu texto anterior. O problema estaria em tornar a obra “Caçadas de Pedrinho” numa leitura obrigatória, recomendada, comprada pelo governo. Vamos combinar aqui entre nós que esses ingredientes dão outro sabor à sopa, não é? Para mim, a polêmica de Lobato seria apenas mais um exemplo de como as “vítimas” do suposto “policiamento do politicamente correto” tem subvertido o conteúdo das discussões em nome de um status quo.

Ninguém está falando aqui em nome de uma “vanguarda”, estou falando do direito de se reconhecer a reivindicação do outro tão justa quanto a daqueles que falam em liberdade de expressão e que tem tido, historicamente, muito mais espaço – na mídia, nos jornais, na política – de fazerem valer os seus interesses. No seminário do Instituto Millenium, a mesa que conduzia a discussão sobre racismo, cotas, liberdade de expressão não contava com um único negro. E a única mulher, Mônica Waldvogel, era apenas uma mediadora. Todos homens, brancos, falando do alto da sua erudição, do seu “despojamento” e “leveza de espírito”, do seu “senso artístico”, sobre “policiamento do pensamento”.  Super democrático!

Em momento algum sugeri que fossem proibidas as crônicas de Nelson Rodrigues, os textos de Guimarães Rosa ou mesmo os quadros de Warhol. Nem muito menos sugeri que eles fossem queimados, como no filme Fahrenheit 451, de Truffaut. Sejamos justos minimamente. Também não defendi que os arquivos da escravidão de Rui Barbosa tenham mais valor que a arte. Até porque isso seria contraditório com o tipo de História que acredito. A arte, assim como o debate parlamentar, a ata da junta de comércio e o processo-crime são todos igualmente testemunhos históricos. Só o que defendi foi o direito de esbravejar, brigar e combater o racismo, o machismo, a homofobia – divulgados na TV, no teatro, no jornal ou em qualquer outro lugar – tanto quanto o de ler Guimarães, apreciar os quadros de Warhol ou assistir CQC, sem, no entanto, ser chamado de “fascista”, “sisudo” ou “burocrático”. Essa é minha maior reivindicação.

“Culpar o humor pelo preconceito é algo como culpar o rebento pelo coito”. Concordo plenamente com isso. No entanto, achar que tudo o que o humor diz é aceitável, uma vez que ele é apenas reflexo da sociedade desigual em que vivemos, é o que não posso aceitar. Fazer humor é intervir na sociedade. Responder ao humor, também. Embora continue a não entender o que é a tal da “esquerda festiva” (está em permanente comemoração?), a “revolução burocrática”, “vanguardista”, ou o “doutrinador de black tie”, acredito que uma resposta ao humor preconceituoso não precisa se limitar apenas ao silêncio da “não risada”. Podemos sim reclamar, sem que nos chamem de “patrulha”. Discordo também do axioma “dar o troco na mesma moeda”, isso por dois motivos: primeiro porque “dar na mesma moeda” seria responder preconceito por preconceito; em segundo, porque todos sabemos que muitas das pessoas que sofrem com a discriminação não tem o mesmo espaço na mídia que a Angélica ou o Gentili têm.

Enfim, “rir das diferenças” talvez faça mesmo de todos mais humanos. Mas, historicamente, uns tem rido mais do que outros. E não só isso. Dizer que o problema da segregação não é culpa da imprensa, do sudeste, dos EUA ou dos nazistas passa a impressão de que não há luta, a sociedade simplesmente é assim. E tudo fica, ironicamente, “naturalizado”. Se não é culpa de ninguém, deixa tudo como está. Dessa forma, o conceito abstrato do velho barba sobre uma sociedade de classes que torna as diferenças em desigualdades, se torna quase que uma “justificativa” para o preconceito e a discriminação. Uma “fatalidade”, da qual não se pode fugir. Porém, eu prefiro me fiar naquelas palavras do mesmo barba de que o “motor da história” era a luta, a fricção, o combate protagonizado por todos, aquilo que gerava mudança, movimento. Construir uma sociedade verdadeiramente democrática é, sem dúvida nenhuma, levar em conta as reivindicações de todos os atores sociais.

Ana Flávia C. Ramos

Basta de descaso com a educação pública

A Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte se calou diante do discurso indignado da professora Amanda Gurgel. Em audiência pública com a presença da secretária de educação daquele estado, no dia 11 de maio de 2011, a professora Amanda Gurgel traçou um relato do descaso com a educação pública no Rio Grande do Norte, mas que pode muito perfeitamente retratar a situação de muitas escolas em todo o país. São Paulo sabe muito bem disso. “A educação nunca foi prioridade”, lamenta Amanda Gurgel. Está na hora desse lamentável quadro começar a mudar. Chega de tolerância e paciência com o descaso da educação pública no Brasil.

Quem tem medo do “politicamente correto”?

 Quais são os limites do humor? Existe uma “patrulha do pensamento” atualmente no Brasil? Quando a “opinião” fere e violenta o espaço do outro? A “onda” do politicamente correto anda solta pelo país? Estas e outras questões tomaram conta das redes sociais, blogs e da mídia nas últimas semanas. Até mesmo entre os integrantes do Tabnarede o assunto sobre a “liberdade de expressão” tem gerado acirradas polêmicas e, por isso, decidi partir para uma pequena “provocação”. Eventos como o lançamento da paródia “Casa dos Autistas” na MTV, a entrevista de Rafinha Bastos, na revista Rolling Stone defendendo uma de suas “piadas” (estuprador de “mulher feia” não merece cadeia, mas “abraço”) e ainda as declarações anti-semitas de Danilo Gentili sobre a polêmica do metrô em Higienópolis foram alguns dos tópicos presentes em nossos debates. O argumento recorrente: se o policiamento continuar, não haverá mais humor, não haverá mais liberdade de fazer rir, de fazer arte. A pergunta que anda a me atormentar? Ao combater a divulgação de preconceitos e estereótipos, estamos nos transformando em uma “polícia sisuda” do “politicamente correto”?

Segundo Idelber Avelar, a expressão “politicamente correto” se firmou na língua inglesa como “parte de uma ofensiva da direita estadunidense nas chamadas guerras culturais dos anos 1980 e 1990”, referindo-se a um “suposto autoritarismo policialesco” da esquerda na linguagem. O termo abrangeria tudo, classe, raça, gênero, nacionalidade e orientação sexual.  Diante do crescimento das lutas e movimentos sociais pela igualdade de direitos, pelo fim da discriminação, a direita, mal acostumada com o status quo de perpetuar preconceitos, desigualdades e ódios entre as diferenças, resolveu reagir classificando tudo de “politicamente correto”, argumentando estar a sociedade tornando-se refém da tal “patrulha”. Tornou-se senso comum dizer que não se podia fazer nenhuma piada, comentário despretensioso ou mesmo cantar a amiga de trabalho, por medo de processos e acusações da “polícia do comportamento”.

Como em vários outros aspectos de nossa cultura, insiste-se no Brasil em copiar os gringos.  Durante um seminário organizado pelo Instituo Millenium em março deste ano, cujo tema era “Liberdade em debate”, Reinaldo Azevedo, por exemplo, afirmou que o teste de capacidade de “conviver com a diferença é aceitar que o outro exponha a sua verdade, por mais estúpida que pareça”, desde que “não se viole o direito do outro”. Para ele, orientada pelo “espírito da reparação e da correção das desigualdades”, existiria hoje no Brasil uma “polícia do pensamento”, que limitaria essas liberdades. Tonet Camargo, procurador de Justiça, por sua vez, criticou a censura “em nome do politicamente correto” e, retomando o caso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Lobato, afirmou que não sabia como não haviam proibido marchinhas de carnaval como “Amélia” e o “O teu cabelo não nega”. Camargo defendeu o fim do “patrulhamento” e falou na necessidade de não se “perder o humor”, nem ameaçar a “criação artística”.  Chegada a vez de Marcelo Tas, este declarou possuir um “defeito de fabricação”, o de ser “espírito de porco”, um defeito que, segundo ele, o defendia de “extremismos” “muito comuns em sua profissão”. Atribuindo a moda do “politicamente correto” aos jornalistas, Tas concluiu que desafiava o “coro do consenso” por uma questão de saúde mental”. “É “um peso muito grande ser correto em tudo” e o humor funcionaria como uma “vacina” contra isso, garantiu o jornalista e criador do CQC.

Particularmente detesto a expressão “polícia do politicamente correto” e noto, cada vez mais, que as pessoas que a usam para alegar qualquer tipo de censura estão, geralmente, naquilo que podemos chamar de “zona de conforto”. Geralmente são brancas, magras, heterossexuais, de classe média ou alta e, porque não, do sexo masculino. Não sofrem, nem de perto, nada do que usualmente algumas minorias costumam enfrentar no dia-a-dia. Muitos dos defensores do “se dizer aquilo que bem entender” costumam, inclusive, utilizar uma estratégia recorrente: a tática do “preconceito invertido”. Alegam que tem o direito de serem racistas, homofóbicos e machistas. A liberdade, segundo elas, serve para isso. Vitimizam-se, dizem estar sendo perseguidas por suas opiniões. Alguns chegam, inclusive, a naturalizar o preconceito. Nada mais eficiente que naturalizar diferenças. O próprio Bolsonaro, na semana passada, alegou estar em voga uma onda de “heterofobismo”, dizendo se sentir perseguido.

Então, por que censurar Rafinha Bastos? Deixa ele falar de mulher feia, incitar seu estupro, afinal de contas será uma das poucas oportunidade dela (em um ato de generosidade de algum homem) fazer sexo. É só piada. O que tem de errado estereotipar gordos? Quase não há um padrão de beleza onde a ditadura do ser magro sufoca e ridiculariza quem está acima do peso, não é? O próprio Rafinha Bastos disse que obesidade é apenas sinônimo de preguiça. Como evitar que adolescentes cheguem à escola e ridicularizem o seu amigo gordinho? Todo mundo faz, o “cara do CQC” faz. Gentili, em 2009, associou negros a macacos, ao fazer piada sobre jogadores de futebol. Sem nenhum pedido de desculpa, apesar da polêmica, o “comediante” seguiu em frente “desafiando” o “coro do consenso”, provocando. Assim como fez com os judeus de Higienópolis. Deixa ele, ele é artista, ele pode.

A MTV também não deve ser tolhida no seu direito de fazer uma simples paródia, um trocadilho com a sua “Casa dos Autistas”. Porque não satirizar quem é portador dessa síndrome, fazê-los passar por imbecis? Tudo “patrulha”, falta de “leveza de espírito”, gente que não tem humor, dizem alguns. Por que ser criterioso com a distribuição pública nas escolas do livro de Lobato? Está certo, ele era racista, mas era coisa do tempo dele, “particularidades históricas”, alegam alguns. É arte. A resposta possível: nem todos no tempo dele divulgavam ideias racistas, Lobato fez uma de muitas outras escolhas possíveis. Vamos distribuir o livro na rede pública, fazer com que cada criança negra se sinta discriminada, associada à história que a professora lê para os amiguinhos. Não, alegam alguns, deve-se aproveitar a ocasião para debater o racismo. Errado. Se o objetivo é discutir racismo, a estratégia menos recomendável é contar uma história infantil que servirá para que piadas sejam feitas na hora do intervalo. A criança negra não precisa e não deve ser exposta a esse tipo infeliz de estratégia pedagógica. Quem quiser ler as Caçadas de Pedrinho que vá até a biblioteca, que compre o livro e leia em casa. Ninguém está censurando a obra. O que não dá para aceitar é o uso do dinheiro público para divulgar uma obra que ajuda a reforçar preconceitos contra negros.

Impossível não concordar com Reinaldo Azevedo (não, esta não é a provocação!). Conviver coletivamente é sim saber respeitar escolhas, é ter a liberdade de, inclusive, defender verdades “estúpidas”. Concordo também que o limite dessa tolerância é não violar o direito do outro. Azevedo, entretanto, esqueceu-se de dizer como se viola o direito do outro. Explicação vaga nas palavras do jornalista, podemos definir que se viola o direito do outro quando se incita a violência, o ódio, quando se prega o extermínio do outro, quando se fere a dignidade, a auto-estima, quando se alega superioridade ou mesmo quando se exclui o diferente em seus direitos de cidadania. Na semana passada, Azevedo alegou que estava ocorrendo “preconceito invertido” contra os moradores de Higienópolis, que estes também tinham direito de se manifestar sobre obras em seu bairro, como cidadãos. Essa história de “preconceito invertido” é, na minha opinião, estratégia oca, fácil de combater, balela da direita, que sempre teve poder decisório sobre tudo, que sempre teve seus interesses acima de todos os demais cidadãos, que já vivencia uma série de privilégios e que não tem o direito de banir uma obra com apenas 3500 assinaturas, prejudicando muitos outros milhares de pessoas que dependem do transporte público.

Sobre o humor, sobre a tal da arte, ela que se sofistique, que aceite os desafios de fazer graça sem impor ao outro a discriminação, a violência das palavras e a incitação ao ódio. Muitos fazem humor de qualidade, sem partir para estereótipos grosseiros. Evitar certos tipos de comentários não tem nada a ver com censura, tem a ver com conquistas importantes das minorias (mulheres, gays, negros) e de movimentos sociais que decidiram não tolerar mais a divulgação explícita de antigos ódios e preconceitos, que reverberam cotidianamente no trabalho, na escola e na mídia. Aquilo que é tachado de “humor” ganha significações muito maiores que só fazer graça.

Ana Flávia C. Ramos