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Quem tem medo do “politicamente correto”?

 Quais são os limites do humor? Existe uma “patrulha do pensamento” atualmente no Brasil? Quando a “opinião” fere e violenta o espaço do outro? A “onda” do politicamente correto anda solta pelo país? Estas e outras questões tomaram conta das redes sociais, blogs e da mídia nas últimas semanas. Até mesmo entre os integrantes do Tabnarede o assunto sobre a “liberdade de expressão” tem gerado acirradas polêmicas e, por isso, decidi partir para uma pequena “provocação”. Eventos como o lançamento da paródia “Casa dos Autistas” na MTV, a entrevista de Rafinha Bastos, na revista Rolling Stone defendendo uma de suas “piadas” (estuprador de “mulher feia” não merece cadeia, mas “abraço”) e ainda as declarações anti-semitas de Danilo Gentili sobre a polêmica do metrô em Higienópolis foram alguns dos tópicos presentes em nossos debates. O argumento recorrente: se o policiamento continuar, não haverá mais humor, não haverá mais liberdade de fazer rir, de fazer arte. A pergunta que anda a me atormentar? Ao combater a divulgação de preconceitos e estereótipos, estamos nos transformando em uma “polícia sisuda” do “politicamente correto”?

Segundo Idelber Avelar, a expressão “politicamente correto” se firmou na língua inglesa como “parte de uma ofensiva da direita estadunidense nas chamadas guerras culturais dos anos 1980 e 1990”, referindo-se a um “suposto autoritarismo policialesco” da esquerda na linguagem. O termo abrangeria tudo, classe, raça, gênero, nacionalidade e orientação sexual.  Diante do crescimento das lutas e movimentos sociais pela igualdade de direitos, pelo fim da discriminação, a direita, mal acostumada com o status quo de perpetuar preconceitos, desigualdades e ódios entre as diferenças, resolveu reagir classificando tudo de “politicamente correto”, argumentando estar a sociedade tornando-se refém da tal “patrulha”. Tornou-se senso comum dizer que não se podia fazer nenhuma piada, comentário despretensioso ou mesmo cantar a amiga de trabalho, por medo de processos e acusações da “polícia do comportamento”.

Como em vários outros aspectos de nossa cultura, insiste-se no Brasil em copiar os gringos.  Durante um seminário organizado pelo Instituo Millenium em março deste ano, cujo tema era “Liberdade em debate”, Reinaldo Azevedo, por exemplo, afirmou que o teste de capacidade de “conviver com a diferença é aceitar que o outro exponha a sua verdade, por mais estúpida que pareça”, desde que “não se viole o direito do outro”. Para ele, orientada pelo “espírito da reparação e da correção das desigualdades”, existiria hoje no Brasil uma “polícia do pensamento”, que limitaria essas liberdades. Tonet Camargo, procurador de Justiça, por sua vez, criticou a censura “em nome do politicamente correto” e, retomando o caso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Lobato, afirmou que não sabia como não haviam proibido marchinhas de carnaval como “Amélia” e o “O teu cabelo não nega”. Camargo defendeu o fim do “patrulhamento” e falou na necessidade de não se “perder o humor”, nem ameaçar a “criação artística”.  Chegada a vez de Marcelo Tas, este declarou possuir um “defeito de fabricação”, o de ser “espírito de porco”, um defeito que, segundo ele, o defendia de “extremismos” “muito comuns em sua profissão”. Atribuindo a moda do “politicamente correto” aos jornalistas, Tas concluiu que desafiava o “coro do consenso” por uma questão de saúde mental”. “É “um peso muito grande ser correto em tudo” e o humor funcionaria como uma “vacina” contra isso, garantiu o jornalista e criador do CQC.

Particularmente detesto a expressão “polícia do politicamente correto” e noto, cada vez mais, que as pessoas que a usam para alegar qualquer tipo de censura estão, geralmente, naquilo que podemos chamar de “zona de conforto”. Geralmente são brancas, magras, heterossexuais, de classe média ou alta e, porque não, do sexo masculino. Não sofrem, nem de perto, nada do que usualmente algumas minorias costumam enfrentar no dia-a-dia. Muitos dos defensores do “se dizer aquilo que bem entender” costumam, inclusive, utilizar uma estratégia recorrente: a tática do “preconceito invertido”. Alegam que tem o direito de serem racistas, homofóbicos e machistas. A liberdade, segundo elas, serve para isso. Vitimizam-se, dizem estar sendo perseguidas por suas opiniões. Alguns chegam, inclusive, a naturalizar o preconceito. Nada mais eficiente que naturalizar diferenças. O próprio Bolsonaro, na semana passada, alegou estar em voga uma onda de “heterofobismo”, dizendo se sentir perseguido.

Então, por que censurar Rafinha Bastos? Deixa ele falar de mulher feia, incitar seu estupro, afinal de contas será uma das poucas oportunidade dela (em um ato de generosidade de algum homem) fazer sexo. É só piada. O que tem de errado estereotipar gordos? Quase não há um padrão de beleza onde a ditadura do ser magro sufoca e ridiculariza quem está acima do peso, não é? O próprio Rafinha Bastos disse que obesidade é apenas sinônimo de preguiça. Como evitar que adolescentes cheguem à escola e ridicularizem o seu amigo gordinho? Todo mundo faz, o “cara do CQC” faz. Gentili, em 2009, associou negros a macacos, ao fazer piada sobre jogadores de futebol. Sem nenhum pedido de desculpa, apesar da polêmica, o “comediante” seguiu em frente “desafiando” o “coro do consenso”, provocando. Assim como fez com os judeus de Higienópolis. Deixa ele, ele é artista, ele pode.

A MTV também não deve ser tolhida no seu direito de fazer uma simples paródia, um trocadilho com a sua “Casa dos Autistas”. Porque não satirizar quem é portador dessa síndrome, fazê-los passar por imbecis? Tudo “patrulha”, falta de “leveza de espírito”, gente que não tem humor, dizem alguns. Por que ser criterioso com a distribuição pública nas escolas do livro de Lobato? Está certo, ele era racista, mas era coisa do tempo dele, “particularidades históricas”, alegam alguns. É arte. A resposta possível: nem todos no tempo dele divulgavam ideias racistas, Lobato fez uma de muitas outras escolhas possíveis. Vamos distribuir o livro na rede pública, fazer com que cada criança negra se sinta discriminada, associada à história que a professora lê para os amiguinhos. Não, alegam alguns, deve-se aproveitar a ocasião para debater o racismo. Errado. Se o objetivo é discutir racismo, a estratégia menos recomendável é contar uma história infantil que servirá para que piadas sejam feitas na hora do intervalo. A criança negra não precisa e não deve ser exposta a esse tipo infeliz de estratégia pedagógica. Quem quiser ler as Caçadas de Pedrinho que vá até a biblioteca, que compre o livro e leia em casa. Ninguém está censurando a obra. O que não dá para aceitar é o uso do dinheiro público para divulgar uma obra que ajuda a reforçar preconceitos contra negros.

Impossível não concordar com Reinaldo Azevedo (não, esta não é a provocação!). Conviver coletivamente é sim saber respeitar escolhas, é ter a liberdade de, inclusive, defender verdades “estúpidas”. Concordo também que o limite dessa tolerância é não violar o direito do outro. Azevedo, entretanto, esqueceu-se de dizer como se viola o direito do outro. Explicação vaga nas palavras do jornalista, podemos definir que se viola o direito do outro quando se incita a violência, o ódio, quando se prega o extermínio do outro, quando se fere a dignidade, a auto-estima, quando se alega superioridade ou mesmo quando se exclui o diferente em seus direitos de cidadania. Na semana passada, Azevedo alegou que estava ocorrendo “preconceito invertido” contra os moradores de Higienópolis, que estes também tinham direito de se manifestar sobre obras em seu bairro, como cidadãos. Essa história de “preconceito invertido” é, na minha opinião, estratégia oca, fácil de combater, balela da direita, que sempre teve poder decisório sobre tudo, que sempre teve seus interesses acima de todos os demais cidadãos, que já vivencia uma série de privilégios e que não tem o direito de banir uma obra com apenas 3500 assinaturas, prejudicando muitos outros milhares de pessoas que dependem do transporte público.

Sobre o humor, sobre a tal da arte, ela que se sofistique, que aceite os desafios de fazer graça sem impor ao outro a discriminação, a violência das palavras e a incitação ao ódio. Muitos fazem humor de qualidade, sem partir para estereótipos grosseiros. Evitar certos tipos de comentários não tem nada a ver com censura, tem a ver com conquistas importantes das minorias (mulheres, gays, negros) e de movimentos sociais que decidiram não tolerar mais a divulgação explícita de antigos ódios e preconceitos, que reverberam cotidianamente no trabalho, na escola e na mídia. Aquilo que é tachado de “humor” ganha significações muito maiores que só fazer graça.

Ana Flávia C. Ramos

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Fome de quê?

Se durante uma semana ficarmos assistindo às programações da TV aberta ou fechada veremos a dedicação exaustiva das emissoras aos programas de beleza, saúde e bem-estar. Os jornais impressos também ampliaram seus suplementos, adicionando semanalmente artigos de bem-estar, alimentação, esporte, saúde, beleza, etc. É tanto verde, tanto sustentável, tanta “dica”, receita, técnicas e novidades que dão preguiça só de pensar. Às vezes fico me perguntando se eles estão falando com seus pares “super saudáveis” ou com aqueles que realmente precisam.

O bem-estar virou tema até na área de recursos humanos. Um monte os consultores de imagem, headhunters do mercado de trabalho não se esgotam em dar dicas de aparência: “não use decote”, “não use roupa apertada”, “mantenha um peso saudável”, e até mesmo o Estado negou, meses atrás, o ingresso de uma professora no concurso público, pois ela era obesa para os padrões. Ok, de que padrões a gente está falando mesmo? Beleza? Saúde? Segurança alimentar? nutricional?

Se for em busca de um padrão institucional, só em 2004 o IBGE começou a mensurar o perfil de segurança alimentar no Brasil e somente no ano passado foi estabelecido, pela primeira vez a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Claro que antes disso, sabemos que o Brasil sempre enfrentou sérios desafios com a fome e a pobreza absoluta.

No entanto, esses números parecem incoerentes quando comparados com o aumento de pessoas com problemas de sobrepeso, obesidade ou que sofrem com as doenças decorrentes da má alimentação e do aumento de peso no Brasil. Aliás, já se tornaram um problema de saúde pública e ganham cada vez mais espaço na mídia, aliados ao crescimento do número de cirurgias estéticas e gástricas – especialidades essas que colocam o Brasil entre os primeiros no número de cirurgias plásticas realizadas.

Mas é fato que durante anos ouvimos falar da pobreza e da fome no Brasil, e pra sair do senso-comum, o perfil de segurança alimentar no Brasil, elaborado pelo IBGE, detectou que em 2009, 30,2% da população brasileira se encontrava em situação de insegurança alimentar grave, moderada ou leve, índices esses que se concentram majoritariamente nas regiões Norte e Nordeste. E onde está esse gargalo entre a insegurança alimentar e o número crescente da obesidade?

Sem contar as dicas de especialistas da boa forma, tenho cada vez mais convicção de que a alimentação faz parte de um conjunto de políticas para além do combate à fome. A relação que estabelecemos com a comida (muitas vezes, paranóica) perpassa sim por uma política de educação, de economia, de orientação. Obesos subnutridos é a incoerência para um país que por décadas lida com a insegurança alimentar. Diminuir o consumo de certos alimentos, mudar padrões alimentares, propor novos olhares e novas escolhas para a comida e para a sua produção é um desafio quando o poder de compra e a oferta de produtos estão escancarados para nós. Escolher o que comer e quando comer ainda não é uma realidade para todos, mas caminhamos para isso e, para tanto, pautar a alimentação como um ponto político de saúde, educação e de economia é um assunto muito mais do que estético.

Gisela C. Geraldi