Arquivo da tag: Partido dos Trabalhadores

Às ruas… Contra o Baixo Astral (continuação)

Caros leitores, Aqui vai minha resposta ao debate travado na último segunda-feira. Tudo que está entre aspas são recortes de comentários feitos no texto anterior e podem ser lidos na íntegra aqui.
  1. Quem leu o texto completo teve a oportunidade de saber que eu disse que são vários os grupos acampados na Praça da Catedral e que dentre eles, está o grupo Anonymous, mal definido por mim como um grupo de “hackers”, tendo em vista que “hackerativismo” quer dizer mais do que a palavra usada no post e realmente contempla o link postado nos comentários por “Fernando”. Além do mais, ocupar praças e debater com a sociedade não se resume em dizer que se tratam de “hackers”.
  2. Por se tratar de um coletivo sem centralidade, entendo que nem todos os Anonymous, nem todos os acampamentos são a favor de coisas como Ficha Limpa ou ainda acampam contra a corrupção. Meu relato se restringe ao movimento de Campinas, mas pode ser útil para pensar outras localidades.

Ocupa Campinas

3. Eu estive no Acampamento por mim mesma. E eu fiz a foto que coloquei no post, que está por mim assinada. Pois bem, isso derruba todos os convites de “visite o acampamento e verá que é diferente”. As informações que debato no texto foram colhidas lá: li cartazes, troquei idéias, o que inclusive levou um de vocês a escrever em caixa alta “”EU JÁ NÃO TE EXPLIQUEI QUE…”. Quem está mal informado são os comentaristas, visto que há vários indícios no próprio post e vindo dos próprios militantes que derruba a tese de que “”hahahahahaha desinformada!”

4. “O acampamento tem autorização da prefeitura e da SETEC para ocupar a praça… mais do que isso, tem apoio da POPULAÇÃO.” Era exatamente esta idéia que eu gostaria de problematizar, ter apoio da prefeitura para acampar quer dizer pouca coisa diante do meu argumento que foi o de destacar a importância de se ocupar espaços públicos, de se fazer movimento social a despeito das leis, nem sempre feitas para contemplar a população e raramente aplicadas a todos. A desobediência civil é parte histórica do ativismo por alargamento de direitos e contra movimentos imperialistas, como foi o ato conhecido como o A20, ocorrido em 2001.

5. Em minha visita ao acampamento, me foi oferecido assinar um abaixo-assinado e pelo afastamento do prefeito Demétrio, por sua vez já afastado, e pelo Ficha Limpa. Portanto, não é verdade que “Pensamos em sistema financeiro, em filosofia de vida e não em ficha limpa.” Sou contra o ficha limpa e não esperava uma bandeira como essa de um movimento organizado por jovens e que se diz libertário. O projeto de se limitar os nomes de candidatos a cargos públicos nada mais é do que uma tentativa de tutelar o povo que, na visão de quem o defende “não sabe votar não é o pobre e sim o geral.” e, portanto, não seria capaz de pensar por si mesmo. Assim, o grupo que se diz libertário, que divulga em seu vídeo que “procura estimular a população a formular suas próprias idéias” defende também a bandeira de se eleger alguns como sendo mais libertários que os outros e acaba por sugerir a submissão do povo aos seus próprios interesses, que podem ser democráticos e populares, ou não. Pelo visto, ou não.

6.  Voltando ao “EU JÁ NÃO TE EXPLIQUEI QUE O UNICO MODO DE MUDAR A SOCIEDADE REALMENTE E DESTRUIR O SISTEMA CAPITALISTA É RETIRAR DOS POLITICOS O CARGO DE INTERMEDIARIO DOS PROCESSOS DECISÓRIOS LEGISLATIVOS, PERMITINDO QUE A SOCIEDADE DECIDA POR SI MESMA, DE FORMA DIRETA?”

Não. Não adianta mudar a forma do Estado enquanto a organização social e política for capitalista, mas deixemos isso para especialistas.

Ou melhor, não deixemos. A única forma de mudar a sociedade é por ela mesma, com autonomia e liberdade das classes subalternas. Caso contrário, quando grupos nascem e acreditam espalhar a verdade e eximem o povo da autonomia da própria transformação, geram estados totalitários, como a história já mostrou.

7. “No nosso grupo temos até morador de rua,”

O que dizer desse comentário? Até morador de rua! O leitor desse comentário deve considerar isto inusitado?

Agressões Pessoais e atentados contra a liberdade de expressão por parte do grupo Anonymous de Campinas

A princípio, eu não pensei em destacar as agressões. Elas são a forma que toma a birra quando a pessoa se sente contrariada e tinha esperança de que, ao passar a raiva, o debate de idéias livres e libertárias teria início. Como isto não ocorreu, vamos aos xingamentos:

8. “voce é digna de risadas, patética.”

Como se responde isso? Com “boba, feia, chata e fedida”?

9. “Qualquer comissionada ou pessoa com interesse econômicos partidários (no caso nitidamente o PT) pode escrever….”

Minha biografia é de fácil acesso, eu escrevo textos, dou minha opinião, tenho Curriculum Lattes, tenho perfil no Facebook. Para tomar conhecimento dela, não se requer acesso a banco de dados privilegiados, como disse um comentarista. Vejo que descobriram meu nome completo! Vejo que viram que sou militante do Partido dos Trabalhadores, algo que nunca escondi! Pois eu também trabalho para a fundação da entidade como historiadora e não sou comissionada, como afirmaram. E sim, qualquer um pode escrever e usar a internet: comissionados, historiadores, libertários, Anonymous, jogadores de futebol, donas de casa, e por aí vai. E que bom, ou não?

Milito num partido fundado em 1982 pela classe trabalhadora. O Partido dos Trabalhadores nunca fugiu da luta pela democracia, pelos direitos sociais e é parte constituinte da república ainda em construção que clama por participação popular e não pelo abandono das instâncias de poder; que não se furtou de se apropriar do feminismo e da luta contra a homofobia desde sua carta programática; está à frente dum projeto político que tirou 15 milhões da miséria, estes sujeitos que vocês acreditam proteger ao dizer que eles “não sabem votar”. E exijo respeito por minha escolha política;

Faço minha militância fora do horário de trabalho, o que me fez postar o texto à 1 da manhã da madrugada anterior e a resposta apenas 24 horas depois.

No entanto, levantar meus dados como vocês fizeram se parece com a prática da Polícia Política. O Departamento de Ordem Política e Social, dos anos 1960 e 1991 usava desse expediente, levantar dados sobre militantes de esquerda e persegui-los (tortura-los) até que desistissem do projeto político. Vocês não deixaram nada a desejar para a polícia da Ditadura Militar brasileira, contra a qual os militantes do PT lutaram arduamente contra. Além de levantar meus dados, me enviaram centenas de email com o conteúdo: WE ARE ANONYMOUS, WE NOT FORGIVE (Somos Anonymous, não perdoamos). Alguns vírus tentaram se instalar no meu HD. Vejo que o ativismo na internet de vocês se voltou contra mim porque não concordo com alguns dos seus pontos de vista. Fui eleita inimiga por não concordar? O objetivo das ameaças é me botar medo? É me calar?

Informo orgulhosa que isto ainda é um país livre e que a liberdade de expressão me é garantida, como a de vocês. Nenhum dos comentários no Tabnarede foram apagados ou censurados. A liberdade de vocês é tão importante quanto a minha. E não é porque eu sou filiada a um partido político que eu não posso desfrutar da liberdade de dizer o que eu penso, escrever, opinar e discutir. Nem eu, nem os outros 1 milhão de filiados.

10. “Eu acredito bastante na luta por uma sociedade mais igualitária.”

Este comentário foi o mais legal! A luta por uma sociedade mais igualitária é a luta de todos nós, os da esquerda, os não partidários, os libertários. E foi isto que me moveu a escrever o primeiro post. Preocupada com o avanço de pensamentos conservadores e reacionários eu visitei a ocupação para me encher de esperança. A frustração de ver bandeiras como Ficha Limpa e a celebração de um golpe que a ala mais conservadora da cidade de Campinas (herdeira dos cafeicultores escravistas) proferiu contra o estado democrático foi grande. Ao elencar as coisas que vi, eu desejei estar errada e que as demandas por liberdade aparecessem na indignação dos comentários. Ledo engano, o pensamento reacionário avançou com os muitos comentadores, em agressões pessoais, xingamentos, para não falar das ameaças que recebi por email. Aos que me ameaçaram com objetivo de me calar, aviso: NO PASSARÁN!

Comício pelas Diretas Já, na Praça da Sé, 25 de janeiro de 1984 (Foto: Oswaldo Palermo)

Glaucia Cristina Candian Fraccaro

(Nova) Luta por direitos sociais no Brasil

Comício pelas Diretas Já, na Praça da Sé, 25 de janeiro de 1984 (Foto: Oswaldo Palermo)

A turba se insurgiu em 2011, e olha que o ano nem acabou. Gosto de pensar que os fatos não são isolados. Nos últimos seis meses, nos levantamos contra o elitismo da classe média texana paulista com a Marcha da Gente Diferenciada em Higienópolis, a da Maconha, a das Vadias, a pela Liberdade. Ainda teve as greves de professores, das Etec´s e Fatec´s paulistas às universidades da Bahia; manifestações coroadas com a maior Parada Gay do mundo, que conglomerou 4 milhões de seres humanos na Avenida Paulista. Em meio a isso, o Supremo Tribunal Federal legalizou a união civil homossexual. Ainda no porvir desse ano, devemos contabilizar as já tradicionais Marcha das Margaridas e o Grito dos Excluídos. Pelo menos.

Se unirmos num argumento apenas esses fatos, vamos concluir que os movimentos sociais brasileiros não se calaram diante dos avanços promovidos por oito anos de um governo que privilegiou o social. A sociedade organizada não deixou de lado a crítica: partiu a praça pública e mostrou onde estão parte das falhas. Para começar, isso já é uma brilhante constatação, pasmemos nós, a de que a ultra-esquerda brasileira está redondamente enganada: governos de esquerda não servem como amortecedores da luta de classes. Pelo contrário, são esses governos que não temem a organização popular e que enfrentam democraticamente um ambiente político hostil de fortes críticas em nome do alargamento dos direitos sociais.

No entanto, os ares de progresso e avanço, ainda que conduzidos por mais de oito anos de governo do Partido dos Trabalhadores, não deveriam se resumir ao que postulam o partido ou o governo. A ministra Carmem Lúcia, ao votar a favor da legalidade da Marcha da Maconha, lembrou (já que insistimos em esquecer) que a praça pública brasileira foi esvaziada debaixo de porrete por muitos anos e que ocupa-la, é a missão de qualquer povo que queira construir a própria república. Pois bem, não surpreende que isso se desdobre num sério enfrentamento com a ala conservadora da sociedade.

A cada conquista progressista, setores conservadores como a Igreja respondem virulentamente seja na imprensa, seja no parlamento (vide o sofrível desabafo da ex-vedete Miriam Rios), seja nas ruas. Ao passo que marcha da maconha seja reconhecida legítima, a liberdade de expressão de quem é contra ela também está garantida. Garantidíssima, aliás. Trata-se do efeito colateral, repito, de um povo que almeja construir a própria república.

Diante desse cenário, não parece ser historicamente viável permitir que o velho costume pouco republicano brasileiro, o de relegar o debate e a disputa por ideias às classes dominantes, se perpetue no país. É hora de entender que presidentes são eleitos em meio à controversas correlações de forças, que nem sempre (ou quase nunca) atendem às reivindicações dos movimentos sociais, e que cabe à eles a transformação da cultura política brasileira, antes mesmo de se exigir que o que nos indigna se torne crime na letra da lei.

Para que realmente se assuma o enfrentamento com o pensamento conservador, não basta gritarmos feito Miriams Rios ou Bolsonaros em blogs ou mesas de bar (ainda que seja nesses espaços que esquerda festiva prefira se congregar), ou ainda de nos ocuparmos com o velho embate “a mídia contra o povo”. É preciso tomar a praça pública, disputar discursos e renovarmos a cultura política do país. É fundamental que se coloquem boas idéias no lugar das estúpidas para que novos projetos e os movimentos sociais não se tornem reféns da política federal. Vai uma república novíssima aí?

Esse post é um pouco uma resposta ao texto da Gisela Geraldi.

Glaucia Fraccaro

República, socialismo e PT – Tabeiros enfrentam debate proposto por Juarez Guimarães

Tabeiros, leitores e simpatizantes enfrentaram numa dessas redes sociais o debate proposto por Juarez Guimarães no artigo “A esquerda e a república” publicado no portal Carta Capital no dia 15 de junho de 2010. A discussão saiu da cabeça da Renatinha, isso explica ela ser a interlocutora dos comentários. O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Cartaz do PT do Pará, 1980. Faz parte da exposição PT 30 ANOS realizada pelo Centro Sérgio Buarque de Holanda em 2010.

 Os comentários e análises seguem aqui:

José Gabriel Labaki Tomaselli

Rezinha, muito bom o texto. No blog, tento o tempo todo argumentar que demonizar a política e os políticos é uma estratégia do poder para o PSDB. Se o Estado não presta, então diminua-o a ponto de poder jogá-lo na privada, como dizia o Reagan. A tucanada não tem nada pra apresentar, a não ser a diminuição do Estado. Como FHC é extremamente rejeitado, o eleitorado brasileiro não aceita a diminuição da máquina pública. Resta então, o ataque moralista udenista anti-corrupção.

O PT no governo nunca buscou o socialismo, embora internamente essa ainda seja a busca para setores do partido. Lembro quando em 2001 lá na Unicamp teve uma série de debates sobre os 140 anos da Comuna de Paris e a principal discussão era essa, o movimento foi socialista ou republicano. Essa briga é velha de guerra. Ser republicano significa aceitar o capitalismo e isso é muito difícil pra esquerda. Quando o Meirelles foi para o BC em 2003, eu juro que decidi romper com o maior de todos. Por alguns minutos, mas que pensei, pensei.

Mas o republicanismo é inclusivo, capitalismo para todos. Por isso a estratégia de desenvolvimento baseado no consumo. E aí sobra ataque dos dois lados, esquerda e direita. A direita por considerar imoral o crédito fácil para pobre comprar geladeira, isso quebra o país. A esquerda por considerar imoral a sociedade consumista. Tanto de um lado quanto de outro, o argumento contra o governo é moralista. E política não pode ser feita à base da moral. Nunca!

 Mariana Musa

me permite um adendozinho, zé? “ser republicano significa aceitar o capitalismo” não é um pouco anacrônico? Afinal, Roma era uma república (cunhou o termo aliás)… [é uma dúvida só… fiquei pensando depois que li vcs!] Um bjão saudoso

José Gabriel Labaki Tomaselli

Tem razão Musa, Roma era uma república, mas não é anacronismo não. Com a Idade Média o conceito de república foi abandonado por uma sociedade de privilégios. A ideia de república só foi retomado com o fim do Antigo Regime (Iluminismo, Revolução Americana, Francesa e Industrial). Após o surgimento do socialismo, ser republicano significava aceitar o capitalismo, pensando nos ideais de igualdade à la Rousseau, não na igualdade marxista ou anarquista. Foi nesse sentido que falei em república, capitalismo com inclusão de todos no capitalismo. Foi isso que o lulopetismo buscou, atingindo resultados expressivos. Discussão longa e prazerosa que merece uma mesa de bar, acha não?

Mariana Musa

acho demais!!! vamos marcar mesmo? Entendi o seu ponto agora, a construção moderna do ideário de república, a partir do advento do socialismo, está ligada ao capitalismo… perfeito! Pensei no anacronismo simplesmente pq a frase solta não se aplica à antiguidade… (certeza que a Rê vai ficar com invejinha da nossa super cerveja pra discutir esses conceitos no Bar!!! hahaha)

 Glaucia Fraccaro

Chamo Bernardo Cotrim para falar a quantas anda o socialismo petista. Tento pensar historicamente, se o PT conseguir consolidar a republica ja vai ser pra lah de transformador porque o Estado brasileiro esteve muito ocupado (ate 2002) em servir ao PRP paulista.

Quem foi convocado ao debate ou quiser participar, comenta aqui: