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Sobre a arte e o protagonismo histórico

Literatura do século XIX é arte? Se for, também posso dizer, como fez o meu colega Pajé Lara, que trabalho com arte há mais de uma década, lendo desde Machado de Assis a caricaturas de Agostini. Tenho lá, portanto, certa “familiaridade” com o tema. Mas não se intimide, caro leitor, essas denominações só servem como mero argumento de “autoridade”. Mesmo que você não trabalhe com nada que se possa chamar de “arte”, o diálogo está aberto, inclusive para dar uma “lição” que sirva a todos os “homens de bem”. O debate, democrático como desejamos, não precisa de “selos de garantia”.

 Vou partir nesse texto de um conceito que considero muito importante para a discussão, o da arte como um campo de batalhas. Considero que todo texto literário, toda metáfora, piada, imagem ou comentário político se insere em uma rede de diálogos existentes na sociedade em que foi produzido. Machado, por exemplo, não apenas “retratava” o seu mundo, não apenas o refletia, mas desejava, intensamente, ser protagonista de sua própria história, interferindo, modificando e combatendo em nome daquilo que julgava ser melhor. Fazer arte, ou qualquer coisa que seja, é fazer escolhas. Por isso, tenho bastante dificuldade em entender um argumento que parte do pressuposto que Faustão, Adriane Galisteu, Angélica, Danilo Gentili, Rafinha, Zezinho ou Luizinho (gostei da brincadeira!) são “receptáculos” e “fantoches” de uma “ideologia” “profundamente arraigada”. No meu ponto de vista, eles são, na verdade, personagens de sua história, atores sociais. Eu nunca tiraria o protagonismo histórico dessas pessoas em nome de uma superestrutura que “origina” tudo. A arte nunca foi, nem nunca será, apenas espelho. Além disso, pautar o mundo a partir de uma “ideologia arraigada” – que explica e traduz tudo – é simplificar esse emaranhado de expectativas e realidades com que todos lidamos o tempo todo.

Por ser a arte um palco de enfrentamentos políticos e sociais, é que decidi escrever o meu último texto para o tabnarede, “Quem tem medo do politicamente correto?”, que tinha como objetivo debater a reação extremada, passional e destemperada de certo grupo de pessoas que tem tomado as críticas aos comentários racistas, homofóbicos e sexistas como um ataque frontal à liberdade de expressão. Um ataque dos “malvados” integrantes da “polícia” do politicamente correto. A discussão sobre essas questões, sobre as conquistas das minorias, está tão distendida que, qualquer menção ao “tom racista” de Danilo Gentili já vira uma celeuma. O motivo da discussão? Um medo de que liberdades sejam “cerceadas”. Medo mais retórico do que real, pois nos últimos anos não vi ninguém ser punido (muito menos censurado) por comentários, divulgação de ideias e obras ditas preconceituosas. A estratégia é simples: desqualificar e subverter as ideias e argumentos daqueles a quem eles chamam de os “politicamente corretos”.  Vou lembrar aos leitores, porque a memória às vezes nos trai, que termino o meu texto conclamando não a censura, mas ao respeito às conquistas das minorias. Ao contrário do que foi sugerido por Pajé Lara, jamais propus uma espécie índex para os livros proibidos, nem sugeri que estes e outras obras de arte fossem queimados em praça pública. Defendo e vou continuar a defender o respeito aos que criticam e combatem ativamente a divulgação de preconceitos. É luta, debate, resposta daqueles que se sentirem ofendidos.

Meu texto versava sobre como há uma  certa “vitimização” por parte de um grupo conservador, pertencente a uma elite que sempre esteve no poder e que sempre disse o que queria, mas que agora se diz “patrulhado”. Coitadinhos. Volto a dizer: balela. Ninguém está censurando ninguém. A crítica, a briga por ter o mesmo espaço que eles, é um direito dos que se sentem atacados pelas piadas de mau gosto que veiculam na mídia. Nada mais democrático. Dar voz a quem sempre teve que ouvir calado. Isso se chama democracia. A tática da “vitimização” é recorrente, mas não mais recorrente que a acusação de “fascismo”, “autoritarismo” ou “extremismo” daqueles que pensam diferente deles. A estratégia é velha e há muito já foi respondida. Os que atacam qualquer menção ao “politicamente correto” se apressam em ridicularizar e estereotipar seu oponente com um argumento que considero dos mais clichês, como o de “proibir a Bíblia”, que não é só anti-semita, mas também defende, entre outras coisas, a escravidão. Características óbvias de que ela é um texto datado historicamente. Na linguagem cotidiana, nada erudita, isso se chama “apelar” frente ao desespero de ter que reconhecer o protagonismo de novos atores sociais. Tais acusações só mostram que há um constante “exagero” por parte dos que temem o “politicamente correto”, uma atribuição de “extremismos”, de exigências radicais que não estão entre as reivindicações dos que lutam pelo fim dos preconceitos.

Há uma pequena confusão, que precisa ser esclarecida. Dizer que não concorda com a distribuição da obra “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, com dinheiro público, não é a mesma cousa que defender a proibição de uma literatura tida como racista. Embora não defenda a proibição, Inácio Araújo, crítico de cinema que gosto bastante, fez um comentário que considerei um dos mais pertinentes sobre a polêmica de Lobato. Ele disse que não se importava pessoalmente se Lobato era racista ou não (e inclusive diz que não o considera racista). Mas reconhecia que depois de 300 anos (!) de escravidão, só hoje os negros começavam a ser tratados com um “mínimo de igualdade”, e que por isso achava uma “hipocrisia essa história de gente, seja políticos, seja literatos, brancos todos, a favor da liberdade de expressão”. Para ele, os relatos que realmente o comoviam – e pareciam verdadeiros – eram os de negros dizendo que “sofreram e se sentiram diminuídos com passagens de Lobato”. Para o crítico, indiscutível defensor da liberdade de expressão e de criação, o mínimo a se fazer seria escutar os interessados a esse respeito, isto é, os negros. Sem essa participação, a tal da “liberdade de expressão” se tornaria “nada mais do que uma abstração sem conteúdo nenhum”. Segundo Araújo, a não distribuição pública de Lobato nas escolas para crianças não afetaria jamais a liberdade de expressão. Para ele, não há censura aos livros ou proibição de sua circulação, como também disse em meu texto anterior. O problema estaria em tornar a obra “Caçadas de Pedrinho” numa leitura obrigatória, recomendada, comprada pelo governo. Vamos combinar aqui entre nós que esses ingredientes dão outro sabor à sopa, não é? Para mim, a polêmica de Lobato seria apenas mais um exemplo de como as “vítimas” do suposto “policiamento do politicamente correto” tem subvertido o conteúdo das discussões em nome de um status quo.

Ninguém está falando aqui em nome de uma “vanguarda”, estou falando do direito de se reconhecer a reivindicação do outro tão justa quanto a daqueles que falam em liberdade de expressão e que tem tido, historicamente, muito mais espaço – na mídia, nos jornais, na política – de fazerem valer os seus interesses. No seminário do Instituto Millenium, a mesa que conduzia a discussão sobre racismo, cotas, liberdade de expressão não contava com um único negro. E a única mulher, Mônica Waldvogel, era apenas uma mediadora. Todos homens, brancos, falando do alto da sua erudição, do seu “despojamento” e “leveza de espírito”, do seu “senso artístico”, sobre “policiamento do pensamento”.  Super democrático!

Em momento algum sugeri que fossem proibidas as crônicas de Nelson Rodrigues, os textos de Guimarães Rosa ou mesmo os quadros de Warhol. Nem muito menos sugeri que eles fossem queimados, como no filme Fahrenheit 451, de Truffaut. Sejamos justos minimamente. Também não defendi que os arquivos da escravidão de Rui Barbosa tenham mais valor que a arte. Até porque isso seria contraditório com o tipo de História que acredito. A arte, assim como o debate parlamentar, a ata da junta de comércio e o processo-crime são todos igualmente testemunhos históricos. Só o que defendi foi o direito de esbravejar, brigar e combater o racismo, o machismo, a homofobia – divulgados na TV, no teatro, no jornal ou em qualquer outro lugar – tanto quanto o de ler Guimarães, apreciar os quadros de Warhol ou assistir CQC, sem, no entanto, ser chamado de “fascista”, “sisudo” ou “burocrático”. Essa é minha maior reivindicação.

“Culpar o humor pelo preconceito é algo como culpar o rebento pelo coito”. Concordo plenamente com isso. No entanto, achar que tudo o que o humor diz é aceitável, uma vez que ele é apenas reflexo da sociedade desigual em que vivemos, é o que não posso aceitar. Fazer humor é intervir na sociedade. Responder ao humor, também. Embora continue a não entender o que é a tal da “esquerda festiva” (está em permanente comemoração?), a “revolução burocrática”, “vanguardista”, ou o “doutrinador de black tie”, acredito que uma resposta ao humor preconceituoso não precisa se limitar apenas ao silêncio da “não risada”. Podemos sim reclamar, sem que nos chamem de “patrulha”. Discordo também do axioma “dar o troco na mesma moeda”, isso por dois motivos: primeiro porque “dar na mesma moeda” seria responder preconceito por preconceito; em segundo, porque todos sabemos que muitas das pessoas que sofrem com a discriminação não tem o mesmo espaço na mídia que a Angélica ou o Gentili têm.

Enfim, “rir das diferenças” talvez faça mesmo de todos mais humanos. Mas, historicamente, uns tem rido mais do que outros. E não só isso. Dizer que o problema da segregação não é culpa da imprensa, do sudeste, dos EUA ou dos nazistas passa a impressão de que não há luta, a sociedade simplesmente é assim. E tudo fica, ironicamente, “naturalizado”. Se não é culpa de ninguém, deixa tudo como está. Dessa forma, o conceito abstrato do velho barba sobre uma sociedade de classes que torna as diferenças em desigualdades, se torna quase que uma “justificativa” para o preconceito e a discriminação. Uma “fatalidade”, da qual não se pode fugir. Porém, eu prefiro me fiar naquelas palavras do mesmo barba de que o “motor da história” era a luta, a fricção, o combate protagonizado por todos, aquilo que gerava mudança, movimento. Construir uma sociedade verdadeiramente democrática é, sem dúvida nenhuma, levar em conta as reivindicações de todos os atores sociais.

Ana Flávia C. Ramos