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Um rumo para políticas públicas

Acho que muitos ouvidos atentos já me escutaram contar feitos de um tal Lelé. Muitas vezes, as respostas imediatas foram olhares de desconfiança: “se ele é isso tudo que você está dizendo, por que seus projetos não vão pra frente?”, ou então “não, nunca ouvi falar!”. Ainda que pouquíssimas pessoas o conheçam, inclusive as bem informadas, não vou dedicar este poste para descrever sua trajetória. (nesta matéria se pode conhecê-lo um pouco melhor)

Carlos Lemos prestigia Lelé no lançamento do livro

Lelé, arquiteto e urbanista, carioca radicado na Bahia não é mesmo muito conhecido, mas essa semana saiu uma linda publicação sobre seu trabalho. O livro fala de obras e programas de fazer inveja em qualquer lugar do mundo. Sempre voltadas ao interesse público, o principal objetivo de Lelé é tornar a construção civil mais racional, eficiente e, acima de tudo, agradável para o usuário. Enquanto vemos muita saliva sendo gasta para cunhar o termo sustentabilidade, seu prédios, há tempos, encontravam um denominador comum entre o ambiental, o social e o econômico.

Montagem de painel pré moldado, 2004. Foto de Anália Amorim.

Rodeado por ótimas equipes, como ele mesmo faz questão de frisar, Lelé deu cor, forma e coerência a alguns dos mais emblemáticos programas públicos de qualidade, com destaque para as áreas de saúde, educação e infraestrutura urbana. Dentre os mais conhecidos, temos a Rede Sarah Kubitschek, especializada no tratamento de traumas e deficiências motoras que teve seu último hospital inaugurado ano passado no Rio de Janeiro. Último, infelizmente, não apenas porque é o mais recente, mas porque, devido à falta de apoio político, o CTRS – Centro de Tecnologia da Rede Sarah, a fábrica de Salvador, responsável pela produção de todos os componentes construtivos dos hospitais do Brasil – está na iminência de fechar.

O último da Rede Sarah?

Em 2004, Lelé já chamava atenção para a questão. Ele comparou orçamento e cronograma para a obra do hospital da Rede Sarah de Belém com os dados apresentados pela Odebrecht (uma das chamadas “grande irmãs”) e concluiu que CTRS precisava de 40 milhões e 45 dias para executar o serviço, enquanto a empreiteira pedia 130 milhões de reais com prazo de execução de cerca de um ano e meio.

Vejam, o argumento usado para  o fechamento do CTRS é falta do que produzir. POR FALTA DO QUE PRODUZIR?! Pergunto eu ingenuamente. Será que o Brasil não deve se dar ao luxo de ter uma “fábrica de prédios púbicos”, ainda mais com qualidade? A pressão que precisamos exercer sobre esse governo que parece mais lúcido e popular é que a privatização deve ter limites. Nosso país ainda é pobre e não deve oferecer lucro às empreiteiras sobre obras públicas superfaturadas.

É uma pena cairmos no mesmo senso comum quando se discute políticas públicas de êxito no Brasil – não expandem por falta de vontade política. Dando sequência a discussão iniciada aqui, busco, além de divulgar esse case de extrema qualidade, aproveitar a oportunidade para levantar mais observações a respeito de quem constrói o Brasil. Existe um grande esquema montado desde a década de 1970, quando, do milagre econômico, despontaram empreiteiras que comandam até hoje o ramo da construção civil e, com isso, parte fundamental do palco de decisões tomadas por todos os governos desde então.

Assim como estamos assistindo a uma organização ruralista supra partidária determinar o código (des)florestal, as empreiteiras, independentemente do governo, conseguem participar das decisões estratégicas de investimentos, seja a partir do Planalto ou do Congresso. Elas financiam campanhas políticas de todos os lados. E, em quase todos os casos, não participam dessa brincadeira oposição e situação. Em 2009, apenas quatro construtoras receberam 38% da receita das obras públicas.

Infelizmente, a era Lula não se desvencilhou desse círculo de relações, mas vejo uma luz no fim do túnel no governo Dilma.  Semana passada a presidenta chamou Lelé, agora presidente do IBTH, para um papo. Apenas uma matéria (péssima, por sinal) divulgou o encontro onde Dilma perguntava a ele como melhorar o programa Minha Casa Minha Vida. Como arquiteto, Lelé respondeu com um projeto (ainda não divulgado, mas já vi e é bom) e com uma frase: moradia não é apenas uma casa, é o conjunto de equipamentos e espaços públicos que torna possível habitar a cidade. Ou seja, casa, rua com esgoto encanado e água tratada, creche, escola, posto de saúde, praças, etc.

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Um pouco mais sobre a obra de Lelé, que como qualifiquei acima é racional, eficiente e agradável.

Crouqi para ventilação natural do hospital de São Luiz do Maranhão

A racionalidade me parece óbvia já que nos projetos de Lelé o desenho arquitetônico é elaborado por completo antes da obra – pasmem, a coisa mais comum no Brasil é a obra começar enquanto o projeto não está concluído. Outro fator fundamental é a industrialização da obra, o que elimina desperdícios e a torna segura para os funcionários, pois eles são montadores e não precisam carregar grandes pesos. Todos os componentes eletro mecânicos de uso cotidiano, tais como macas, elevadores, ventiladores, etc., são produzidos na unidade de Brasília e distribuídos para os demais hospitais do Brasil.

Lelé mostrando a produção das macas, carrinhos, elevadores, etc. Foto de Anália Amorim.

Eficiente, pois são projetados para utilizar iluminação natural e ventilação passiva (ou com o mínimo possível de ar condicionado). As obras contam ainda com todos seus componentes elaborados nos mínimos detalhes, pré fabricados e levados prontos para a obra, fazendo com que o tempo de mobilização do canteiro caia barbaramente. O sistema de ventilação natural permanente elimina a estanqueidade dos ambientes, fazendo com que os hospitais tenham um baixíssimo índice de infecção hospitalar. Ou seja, o ar circulante e não estéril dificulta a procriação e fortalecimento de bactérias e outros organismos nocivos à saúde do paciente.

Conforto ambiental: Paisagismo, vaporização de água e captação de ventos dominantes.

Os edifícios, por fim, são extremamente agradáveis para quem os usa, tendo em conta que, além de respeitar os parâmetros de conforto ambiental (temperatura amena em qualquer época do ano, com luz natural e tratamento acústico), os hospitais, escolas e demais prédios contam com paisagismo de qualidade, fundamental para manutenção da umidade relativa do ar. Finalmente, as obras de arte são também responsáveis pela amenização do ambiente hospitalar, normalmente tão tenso e inóspito, ou pela alegria das paredes de uma creche.

Muro de creche com arte de Athos Bulcão

Se empolgar no papo de arquiteto ainda tem essa conversa aqui, com o Reginaldo Ronconi, da FAU USP.

Por Calasan

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Fome de quê?

Se durante uma semana ficarmos assistindo às programações da TV aberta ou fechada veremos a dedicação exaustiva das emissoras aos programas de beleza, saúde e bem-estar. Os jornais impressos também ampliaram seus suplementos, adicionando semanalmente artigos de bem-estar, alimentação, esporte, saúde, beleza, etc. É tanto verde, tanto sustentável, tanta “dica”, receita, técnicas e novidades que dão preguiça só de pensar. Às vezes fico me perguntando se eles estão falando com seus pares “super saudáveis” ou com aqueles que realmente precisam.

O bem-estar virou tema até na área de recursos humanos. Um monte os consultores de imagem, headhunters do mercado de trabalho não se esgotam em dar dicas de aparência: “não use decote”, “não use roupa apertada”, “mantenha um peso saudável”, e até mesmo o Estado negou, meses atrás, o ingresso de uma professora no concurso público, pois ela era obesa para os padrões. Ok, de que padrões a gente está falando mesmo? Beleza? Saúde? Segurança alimentar? nutricional?

Se for em busca de um padrão institucional, só em 2004 o IBGE começou a mensurar o perfil de segurança alimentar no Brasil e somente no ano passado foi estabelecido, pela primeira vez a Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Claro que antes disso, sabemos que o Brasil sempre enfrentou sérios desafios com a fome e a pobreza absoluta.

No entanto, esses números parecem incoerentes quando comparados com o aumento de pessoas com problemas de sobrepeso, obesidade ou que sofrem com as doenças decorrentes da má alimentação e do aumento de peso no Brasil. Aliás, já se tornaram um problema de saúde pública e ganham cada vez mais espaço na mídia, aliados ao crescimento do número de cirurgias estéticas e gástricas – especialidades essas que colocam o Brasil entre os primeiros no número de cirurgias plásticas realizadas.

Mas é fato que durante anos ouvimos falar da pobreza e da fome no Brasil, e pra sair do senso-comum, o perfil de segurança alimentar no Brasil, elaborado pelo IBGE, detectou que em 2009, 30,2% da população brasileira se encontrava em situação de insegurança alimentar grave, moderada ou leve, índices esses que se concentram majoritariamente nas regiões Norte e Nordeste. E onde está esse gargalo entre a insegurança alimentar e o número crescente da obesidade?

Sem contar as dicas de especialistas da boa forma, tenho cada vez mais convicção de que a alimentação faz parte de um conjunto de políticas para além do combate à fome. A relação que estabelecemos com a comida (muitas vezes, paranóica) perpassa sim por uma política de educação, de economia, de orientação. Obesos subnutridos é a incoerência para um país que por décadas lida com a insegurança alimentar. Diminuir o consumo de certos alimentos, mudar padrões alimentares, propor novos olhares e novas escolhas para a comida e para a sua produção é um desafio quando o poder de compra e a oferta de produtos estão escancarados para nós. Escolher o que comer e quando comer ainda não é uma realidade para todos, mas caminhamos para isso e, para tanto, pautar a alimentação como um ponto político de saúde, educação e de economia é um assunto muito mais do que estético.

Gisela C. Geraldi