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Sobre a arte e o protagonismo histórico

Literatura do século XIX é arte? Se for, também posso dizer, como fez o meu colega Pajé Lara, que trabalho com arte há mais de uma década, lendo desde Machado de Assis a caricaturas de Agostini. Tenho lá, portanto, certa “familiaridade” com o tema. Mas não se intimide, caro leitor, essas denominações só servem como mero argumento de “autoridade”. Mesmo que você não trabalhe com nada que se possa chamar de “arte”, o diálogo está aberto, inclusive para dar uma “lição” que sirva a todos os “homens de bem”. O debate, democrático como desejamos, não precisa de “selos de garantia”.

 Vou partir nesse texto de um conceito que considero muito importante para a discussão, o da arte como um campo de batalhas. Considero que todo texto literário, toda metáfora, piada, imagem ou comentário político se insere em uma rede de diálogos existentes na sociedade em que foi produzido. Machado, por exemplo, não apenas “retratava” o seu mundo, não apenas o refletia, mas desejava, intensamente, ser protagonista de sua própria história, interferindo, modificando e combatendo em nome daquilo que julgava ser melhor. Fazer arte, ou qualquer coisa que seja, é fazer escolhas. Por isso, tenho bastante dificuldade em entender um argumento que parte do pressuposto que Faustão, Adriane Galisteu, Angélica, Danilo Gentili, Rafinha, Zezinho ou Luizinho (gostei da brincadeira!) são “receptáculos” e “fantoches” de uma “ideologia” “profundamente arraigada”. No meu ponto de vista, eles são, na verdade, personagens de sua história, atores sociais. Eu nunca tiraria o protagonismo histórico dessas pessoas em nome de uma superestrutura que “origina” tudo. A arte nunca foi, nem nunca será, apenas espelho. Além disso, pautar o mundo a partir de uma “ideologia arraigada” – que explica e traduz tudo – é simplificar esse emaranhado de expectativas e realidades com que todos lidamos o tempo todo.

Por ser a arte um palco de enfrentamentos políticos e sociais, é que decidi escrever o meu último texto para o tabnarede, “Quem tem medo do politicamente correto?”, que tinha como objetivo debater a reação extremada, passional e destemperada de certo grupo de pessoas que tem tomado as críticas aos comentários racistas, homofóbicos e sexistas como um ataque frontal à liberdade de expressão. Um ataque dos “malvados” integrantes da “polícia” do politicamente correto. A discussão sobre essas questões, sobre as conquistas das minorias, está tão distendida que, qualquer menção ao “tom racista” de Danilo Gentili já vira uma celeuma. O motivo da discussão? Um medo de que liberdades sejam “cerceadas”. Medo mais retórico do que real, pois nos últimos anos não vi ninguém ser punido (muito menos censurado) por comentários, divulgação de ideias e obras ditas preconceituosas. A estratégia é simples: desqualificar e subverter as ideias e argumentos daqueles a quem eles chamam de os “politicamente corretos”.  Vou lembrar aos leitores, porque a memória às vezes nos trai, que termino o meu texto conclamando não a censura, mas ao respeito às conquistas das minorias. Ao contrário do que foi sugerido por Pajé Lara, jamais propus uma espécie índex para os livros proibidos, nem sugeri que estes e outras obras de arte fossem queimados em praça pública. Defendo e vou continuar a defender o respeito aos que criticam e combatem ativamente a divulgação de preconceitos. É luta, debate, resposta daqueles que se sentirem ofendidos.

Meu texto versava sobre como há uma  certa “vitimização” por parte de um grupo conservador, pertencente a uma elite que sempre esteve no poder e que sempre disse o que queria, mas que agora se diz “patrulhado”. Coitadinhos. Volto a dizer: balela. Ninguém está censurando ninguém. A crítica, a briga por ter o mesmo espaço que eles, é um direito dos que se sentem atacados pelas piadas de mau gosto que veiculam na mídia. Nada mais democrático. Dar voz a quem sempre teve que ouvir calado. Isso se chama democracia. A tática da “vitimização” é recorrente, mas não mais recorrente que a acusação de “fascismo”, “autoritarismo” ou “extremismo” daqueles que pensam diferente deles. A estratégia é velha e há muito já foi respondida. Os que atacam qualquer menção ao “politicamente correto” se apressam em ridicularizar e estereotipar seu oponente com um argumento que considero dos mais clichês, como o de “proibir a Bíblia”, que não é só anti-semita, mas também defende, entre outras coisas, a escravidão. Características óbvias de que ela é um texto datado historicamente. Na linguagem cotidiana, nada erudita, isso se chama “apelar” frente ao desespero de ter que reconhecer o protagonismo de novos atores sociais. Tais acusações só mostram que há um constante “exagero” por parte dos que temem o “politicamente correto”, uma atribuição de “extremismos”, de exigências radicais que não estão entre as reivindicações dos que lutam pelo fim dos preconceitos.

Há uma pequena confusão, que precisa ser esclarecida. Dizer que não concorda com a distribuição da obra “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, nas escolas, com dinheiro público, não é a mesma cousa que defender a proibição de uma literatura tida como racista. Embora não defenda a proibição, Inácio Araújo, crítico de cinema que gosto bastante, fez um comentário que considerei um dos mais pertinentes sobre a polêmica de Lobato. Ele disse que não se importava pessoalmente se Lobato era racista ou não (e inclusive diz que não o considera racista). Mas reconhecia que depois de 300 anos (!) de escravidão, só hoje os negros começavam a ser tratados com um “mínimo de igualdade”, e que por isso achava uma “hipocrisia essa história de gente, seja políticos, seja literatos, brancos todos, a favor da liberdade de expressão”. Para ele, os relatos que realmente o comoviam – e pareciam verdadeiros – eram os de negros dizendo que “sofreram e se sentiram diminuídos com passagens de Lobato”. Para o crítico, indiscutível defensor da liberdade de expressão e de criação, o mínimo a se fazer seria escutar os interessados a esse respeito, isto é, os negros. Sem essa participação, a tal da “liberdade de expressão” se tornaria “nada mais do que uma abstração sem conteúdo nenhum”. Segundo Araújo, a não distribuição pública de Lobato nas escolas para crianças não afetaria jamais a liberdade de expressão. Para ele, não há censura aos livros ou proibição de sua circulação, como também disse em meu texto anterior. O problema estaria em tornar a obra “Caçadas de Pedrinho” numa leitura obrigatória, recomendada, comprada pelo governo. Vamos combinar aqui entre nós que esses ingredientes dão outro sabor à sopa, não é? Para mim, a polêmica de Lobato seria apenas mais um exemplo de como as “vítimas” do suposto “policiamento do politicamente correto” tem subvertido o conteúdo das discussões em nome de um status quo.

Ninguém está falando aqui em nome de uma “vanguarda”, estou falando do direito de se reconhecer a reivindicação do outro tão justa quanto a daqueles que falam em liberdade de expressão e que tem tido, historicamente, muito mais espaço – na mídia, nos jornais, na política – de fazerem valer os seus interesses. No seminário do Instituto Millenium, a mesa que conduzia a discussão sobre racismo, cotas, liberdade de expressão não contava com um único negro. E a única mulher, Mônica Waldvogel, era apenas uma mediadora. Todos homens, brancos, falando do alto da sua erudição, do seu “despojamento” e “leveza de espírito”, do seu “senso artístico”, sobre “policiamento do pensamento”.  Super democrático!

Em momento algum sugeri que fossem proibidas as crônicas de Nelson Rodrigues, os textos de Guimarães Rosa ou mesmo os quadros de Warhol. Nem muito menos sugeri que eles fossem queimados, como no filme Fahrenheit 451, de Truffaut. Sejamos justos minimamente. Também não defendi que os arquivos da escravidão de Rui Barbosa tenham mais valor que a arte. Até porque isso seria contraditório com o tipo de História que acredito. A arte, assim como o debate parlamentar, a ata da junta de comércio e o processo-crime são todos igualmente testemunhos históricos. Só o que defendi foi o direito de esbravejar, brigar e combater o racismo, o machismo, a homofobia – divulgados na TV, no teatro, no jornal ou em qualquer outro lugar – tanto quanto o de ler Guimarães, apreciar os quadros de Warhol ou assistir CQC, sem, no entanto, ser chamado de “fascista”, “sisudo” ou “burocrático”. Essa é minha maior reivindicação.

“Culpar o humor pelo preconceito é algo como culpar o rebento pelo coito”. Concordo plenamente com isso. No entanto, achar que tudo o que o humor diz é aceitável, uma vez que ele é apenas reflexo da sociedade desigual em que vivemos, é o que não posso aceitar. Fazer humor é intervir na sociedade. Responder ao humor, também. Embora continue a não entender o que é a tal da “esquerda festiva” (está em permanente comemoração?), a “revolução burocrática”, “vanguardista”, ou o “doutrinador de black tie”, acredito que uma resposta ao humor preconceituoso não precisa se limitar apenas ao silêncio da “não risada”. Podemos sim reclamar, sem que nos chamem de “patrulha”. Discordo também do axioma “dar o troco na mesma moeda”, isso por dois motivos: primeiro porque “dar na mesma moeda” seria responder preconceito por preconceito; em segundo, porque todos sabemos que muitas das pessoas que sofrem com a discriminação não tem o mesmo espaço na mídia que a Angélica ou o Gentili têm.

Enfim, “rir das diferenças” talvez faça mesmo de todos mais humanos. Mas, historicamente, uns tem rido mais do que outros. E não só isso. Dizer que o problema da segregação não é culpa da imprensa, do sudeste, dos EUA ou dos nazistas passa a impressão de que não há luta, a sociedade simplesmente é assim. E tudo fica, ironicamente, “naturalizado”. Se não é culpa de ninguém, deixa tudo como está. Dessa forma, o conceito abstrato do velho barba sobre uma sociedade de classes que torna as diferenças em desigualdades, se torna quase que uma “justificativa” para o preconceito e a discriminação. Uma “fatalidade”, da qual não se pode fugir. Porém, eu prefiro me fiar naquelas palavras do mesmo barba de que o “motor da história” era a luta, a fricção, o combate protagonizado por todos, aquilo que gerava mudança, movimento. Construir uma sociedade verdadeiramente democrática é, sem dúvida nenhuma, levar em conta as reivindicações de todos os atores sociais.

Ana Flávia C. Ramos

Quem tem medo de quem tem medo do “politicamente correto”? Ou: porque a discussão sobre esse discurso não faz nenhum sentido.

Em textos recém publicados no nosso Tab, Ana Flávia C. Ramos e Pajé Lara discutem os limites do chamado “humor preconceituoso” e a liberdade que deve ter a liberdade de toda a nossa expressão.

Os autores, em menor sintonia entre si, mas em maior sintonia, pelo menos,  com o nosso universal, ao intentarem delimitar o direito (inalienável!) das “minorias” em contestar o conteúdo ofensivo e discriminatório presente em piadas e outras produções de cunho literário, sociológico, filosófico etc., ainda que tenham construído, em diferentes aspectos, uma argumentação consistente do ponto de vista da legitimidade que deve ser conferida a esse movimento, deslizam, a meu ver, na análise do “funcionamento” desse discurso.

A polêmica, penso, tem sido colocada à partir de um ponto de vista enviesado. Não se trata de discutir se se deve ou não bradar à favor ou contra o discurso do politicamente correto. Se tal discurso é predominantemente da esquerda ou da direita. Se se pode fazer humor ou arte sem que se utilize de meios “ditos” escusos. Essa é uma questão falsa em termos do funcionamento da linguagem.

E é uma questão falsa por um motivo muito simples, um discurso politicamente correto, qualquer um que ele venha a ser, não existe. O que existe é apenas a sua tentativa, impossível todavia de realizar-se discursivamente. Afinal, só faz sentido que se troque “gay” por “homossexual” uma vez que se insista na classificação das pessoas de acordo com a sua sexualidade (exemplo fácil: uma pessoa branca, quando descreve uma outra desconhecida, produz essa frase: ”era aquele branco sentado no banco da frente”?).

Não  reconhecer que existam “maiorias” e “minorias” sociais é ingênuo. A manobra do contra-argumento do “preconceito inverso” é capenga. E imaginar que é possível que exista uma sociedade em que todos convivam juntos, mão à mão e em Paz é utópico. Todos praticamos algum tipo de preconceito! Sempre praticamos e sempre praticaremos (a questão, no entanto, é deveras mais séria quando nos encontramos inseridos em qualquer maioria). O que nos resta é  identificar a que conjunto de ideias nossos preconceitos nos remetem e que grupos de pessoas virão a se sentir (por óbvio!) ofendidos quando, e assim que, as expressarmos.

O problema, então, (indagarão meus amigos) é insolúvel? É impossível (con)vivermos numa sociedade sem preconceitos,? Estamos fadados a eternamente reagir a um grupo de pensamentos diametralmente oposto aos nossos? E a resposta é sim, mas com uma ressalva fundamental. Gentili, Bastos, Taz e cia ilimitada não cessam, por isso, de serem os imbecis visíveis que quem reagiu a suas piadas preconceituosas acha que eles são. No meu entender, eles devem ser reavaliados não como vítimas indefesas do espectro do politicamente correto e de sua patrulha sisuda, mas sim como os representantes que de fato são de certo grupo ideológico (dominante) com o qual não nos identificamos e contra o qual evidentemente sempre haveremos de reagir (e esse “nós” é facultativamente inclusivo).

As diferenças serão eternamente construídas, como argumenta muito bem o texto meio-galhardo, meio-bravio do Pajé. A prática do ódio associado à diferença, no entanto, é o que se configura como o verdadeiro vício a combatermos.

Mariana Musa

EU ! – uma resposta respeitosa a uma pergunta oportuna

Em 10 anos trabalhando com mídia, arte, cultura e expressão, aprendi uma lição que deve servir a todos os humanos de bem. Parem de por a culpa das chagas da sociedade no homem público, no apresentador de TV e no colunista   reacionário!! Eles são somente o receptáculo e os fantoches de uma ideologia profundamente arraigada em todos nós, humanos de bem. Como se não existisse um Faustão, um Paulo Francis, uma Adriane Galisteu, um Reinaldo Azevedo, um Arnaldo Jabor, uma Angélica em todos nós, disparamos críticas fáceis em direção a argumentos óbvios, atingindo não mais que um cisco no ego de uns e outros.

Entrar na roda da fortuna que é vincular o que é transmitido por uma mídia que atua contra o povo (que é não só reacionária no conteúdo, mas extremamente conservadora e segregacionista na forma) com uma discussão sobre “liberdade de expressão” é cair na cova dos leões e nivelar uma discussão que poderia tomar ares de emancipação a uma simples representação da sociedade ventilada pelo dispositivo mais poderoso do Kapital.

Nunca vi a “casa dos autistas”, as vezes vejo o CQC, mas como tudista (o nome correto para cidadão bem informado) que sou, sei do que se passa no mundo para além do Cidadão Kane. As vezes, a vontade de falar que emerge (ou submerge, anatomicamente falando) de nossos cerebelos solapa uma necessidade de concentração na realidade. Desde 2003, anti-semitismo, enquanto racismo, é crime imprescritível.1 Dito isso, creio que não valha a pena vincular a este debate, não a imunidade de rafinha, zézinho ou luizinho, mas sim a de um sistema integrado que induz e reproduz elementos de uma sociedade com todos os problemas que conhecemos (sim ! Eu sou pelo controle social da mídia !) e impede a real expressão da autonomia que todo ser humano carrega e tem direito de mostrar. Por isso acho que o vínculo do humor com os meios de comunicação de massa é mais promíscuo e subordinado que um bordel de coelhos na Paris de 1850.

São muitas discussões portanto, que o texto da Flávia propõe. Uma evoca a noção do “politicamente correto”, outra invoca superficialmente o aspecto jurídico dos crimes de racismo, outra insere a mídia comercial como protagonista (ou antagonista – depende do mestre de cerimônias), outra ainda, salpica argumentos contra uma certa “arte” e um certo “humor. Obviamente, como se espera, não aprofunda nem problematiza nenhum deles. Também não esperem de mim tal imersão.

Certa feita, há muito tempo atrás, escrevi um texto argumentando que o terror, o amor e o humor, eram as formas mais revolucionárias vigentes no mundo de hoje. Obviamente não me referia ao ataque indiscriminado sobre inocentes, às relações sentimentais dos protagonistas da novela das 8 ou ao CQC (que diga-se de passagem não é criação do Professor Tibúrcio nem do Ernesto Varela, mas uma criação portenha. O Taz é somente um entusiasta com oportunidade). O terror é estético, atinge de surpresa e causa espanto: o inevitável estranhamento tão necessário para a ação. O amor, ah, o amor… quando livre, eterno e sem barreiras, solapa o feminismo e o machismo junto com as imagens mais retrógradas de um jantar à dois e um laçar de mãos. O humor, subversivo, sacana e malandro, questiona, faz pensar, põe em dúvida a certeza e não perdoa nem mesmo a mais profunda nota de rodapé ou referência acadêmica.

A arte não tem nada de livre. É um aspecto da sociedade externalizada pela sensibilidade de seus membros. Não tem nada de autônoma e tudo de política. Enganam-se (ou contradizem-se) aqueles que tratam como pecado a queima de arquivos da escravidão e como panacéia a proibição da literatura racista. Fechados em seus ramos e disciplinas, carimbam a letra da culpa naqueles que nem pedíram para serem exumados. Em nome da vanguarda e do politicamente correto vamos proibir a venda da Bíblia (o novo testamento é anti-semita!? ), de crônicas no Nelson Rodrigues (aquele reacionário do caralho!? ), ou da venda dos quadros do Warhol (que atiça o consumismo como ninguém!?) . Ah, mas no caso do Rui Barbosa é diferente, “são documentos e não arte”, diriam os carteiristas da CRHASO. Sim. Argumente então o Caçadas de Pedrinho para um pesquisador da história da economia do petróleo no Brasil ou um estudioso de literatura infantil. Guimarães Rosa não cessava de caçoar dos que não conheciam os mistérios da Roça. Fernando Sabino trocaria “seu reino por uma mulata”. Marques de Sade era um pervertido, machista, agressivo. Em nome do debate, trucidam-se as fontes do argumento.

Argumento fácil, aquele que diz que contra o políticamente correto somente se erguem os destros, protestantes, anglo-saxões que não têm pé-chato. De novo, a aparência antes da essência se transforma em acusação sem a compreensão da experiência. Obviamente, segundo os mesmos argumentos, os canhotos que sofrem de cistos sebáceos e têm dentes tortos são os únicos a defenderem religiosamente o aperto de mãos sem preconceitos, solidários, combativos e bunitos de vê.

Valha-me meu pai. Caros “combatentes contra o preconceito e estereótipos”, desbundem !! Mal sabem vocês que os loiros germânicos sentem profunda culpa e sentimentos de inferioridade em função de serem reféns dos filmes de hollywood, de modo que toda e qualquer discussão sobre o holocausto ter que ser cautelosa, polida e sizuda. Tanto quanto seria um texto de um homem branco criticando a Condollezza Rice.

O que é crime, é crime. O que não é, lutemos políticamente para que seja (e rezemos para estarmos certos em condenar seus praticantes). Atingir a mídia contra o povo, é por o povo contra a mídia! E lutemos para que sejamos mais do que letras em web logs. O que é sem graça, privemos de rir. O resto, é desbunde contra o moralismo. Sou formado na esquerda festiva e para mim, revolução é anti-burocrática, anti-vanguardista, anti-doutrinária e contra o mal humor. E no fundo do apêndice do politicamente correto, do crítico sem ritmo, do artista burocrata, do doutrinador de black tie, da comedida libertária e do cientista sem arte, sempre reside um facista esperando seu líder. Rir das diferenças é fazer de todos, mais humanos. É saber entender que a a hierarquia está substituida pelo ridículo que tod@s representamos, igualmente. O problema da segregação, como já disse em outro lugar, não é culpa da imprensa, do sudeste, dos EUA ou dos nazistas. É, como diria o barba, um problema de uma sociedade de classes num sistema econômico que subordina as diferenças e faz delas, desigualdades. E ele era irônico como poucos.

Culpar o humor pelo preconceito é algo como culpar o rebento pelo coito. É se eximir de uma capacidade de dar o troco na mesma moeda. E por isso, atentem: se não formos mais criativos nas críticas, reféns ficaremos dos argumentos mais banais que os espertinhos de plantão tiram da cartola. E nisso, carrancudez por carrancudez, eles são melhores.

Pajé Lara

  1. A decisão do supremo de 2003 diz que “A ausência de prescrição nos crimes de racismo justifica-se como alerta grave para as gerações de hoje e de amanhã, para que se impeça a reinstauração de velhos e ultrapassados conceitos que a consciência jurídica e histórica não mais admitem.”

Quem tem medo do “politicamente correto”?

 Quais são os limites do humor? Existe uma “patrulha do pensamento” atualmente no Brasil? Quando a “opinião” fere e violenta o espaço do outro? A “onda” do politicamente correto anda solta pelo país? Estas e outras questões tomaram conta das redes sociais, blogs e da mídia nas últimas semanas. Até mesmo entre os integrantes do Tabnarede o assunto sobre a “liberdade de expressão” tem gerado acirradas polêmicas e, por isso, decidi partir para uma pequena “provocação”. Eventos como o lançamento da paródia “Casa dos Autistas” na MTV, a entrevista de Rafinha Bastos, na revista Rolling Stone defendendo uma de suas “piadas” (estuprador de “mulher feia” não merece cadeia, mas “abraço”) e ainda as declarações anti-semitas de Danilo Gentili sobre a polêmica do metrô em Higienópolis foram alguns dos tópicos presentes em nossos debates. O argumento recorrente: se o policiamento continuar, não haverá mais humor, não haverá mais liberdade de fazer rir, de fazer arte. A pergunta que anda a me atormentar? Ao combater a divulgação de preconceitos e estereótipos, estamos nos transformando em uma “polícia sisuda” do “politicamente correto”?

Segundo Idelber Avelar, a expressão “politicamente correto” se firmou na língua inglesa como “parte de uma ofensiva da direita estadunidense nas chamadas guerras culturais dos anos 1980 e 1990”, referindo-se a um “suposto autoritarismo policialesco” da esquerda na linguagem. O termo abrangeria tudo, classe, raça, gênero, nacionalidade e orientação sexual.  Diante do crescimento das lutas e movimentos sociais pela igualdade de direitos, pelo fim da discriminação, a direita, mal acostumada com o status quo de perpetuar preconceitos, desigualdades e ódios entre as diferenças, resolveu reagir classificando tudo de “politicamente correto”, argumentando estar a sociedade tornando-se refém da tal “patrulha”. Tornou-se senso comum dizer que não se podia fazer nenhuma piada, comentário despretensioso ou mesmo cantar a amiga de trabalho, por medo de processos e acusações da “polícia do comportamento”.

Como em vários outros aspectos de nossa cultura, insiste-se no Brasil em copiar os gringos.  Durante um seminário organizado pelo Instituo Millenium em março deste ano, cujo tema era “Liberdade em debate”, Reinaldo Azevedo, por exemplo, afirmou que o teste de capacidade de “conviver com a diferença é aceitar que o outro exponha a sua verdade, por mais estúpida que pareça”, desde que “não se viole o direito do outro”. Para ele, orientada pelo “espírito da reparação e da correção das desigualdades”, existiria hoje no Brasil uma “polícia do pensamento”, que limitaria essas liberdades. Tonet Camargo, procurador de Justiça, por sua vez, criticou a censura “em nome do politicamente correto” e, retomando o caso do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Lobato, afirmou que não sabia como não haviam proibido marchinhas de carnaval como “Amélia” e o “O teu cabelo não nega”. Camargo defendeu o fim do “patrulhamento” e falou na necessidade de não se “perder o humor”, nem ameaçar a “criação artística”.  Chegada a vez de Marcelo Tas, este declarou possuir um “defeito de fabricação”, o de ser “espírito de porco”, um defeito que, segundo ele, o defendia de “extremismos” “muito comuns em sua profissão”. Atribuindo a moda do “politicamente correto” aos jornalistas, Tas concluiu que desafiava o “coro do consenso” por uma questão de saúde mental”. “É “um peso muito grande ser correto em tudo” e o humor funcionaria como uma “vacina” contra isso, garantiu o jornalista e criador do CQC.

Particularmente detesto a expressão “polícia do politicamente correto” e noto, cada vez mais, que as pessoas que a usam para alegar qualquer tipo de censura estão, geralmente, naquilo que podemos chamar de “zona de conforto”. Geralmente são brancas, magras, heterossexuais, de classe média ou alta e, porque não, do sexo masculino. Não sofrem, nem de perto, nada do que usualmente algumas minorias costumam enfrentar no dia-a-dia. Muitos dos defensores do “se dizer aquilo que bem entender” costumam, inclusive, utilizar uma estratégia recorrente: a tática do “preconceito invertido”. Alegam que tem o direito de serem racistas, homofóbicos e machistas. A liberdade, segundo elas, serve para isso. Vitimizam-se, dizem estar sendo perseguidas por suas opiniões. Alguns chegam, inclusive, a naturalizar o preconceito. Nada mais eficiente que naturalizar diferenças. O próprio Bolsonaro, na semana passada, alegou estar em voga uma onda de “heterofobismo”, dizendo se sentir perseguido.

Então, por que censurar Rafinha Bastos? Deixa ele falar de mulher feia, incitar seu estupro, afinal de contas será uma das poucas oportunidade dela (em um ato de generosidade de algum homem) fazer sexo. É só piada. O que tem de errado estereotipar gordos? Quase não há um padrão de beleza onde a ditadura do ser magro sufoca e ridiculariza quem está acima do peso, não é? O próprio Rafinha Bastos disse que obesidade é apenas sinônimo de preguiça. Como evitar que adolescentes cheguem à escola e ridicularizem o seu amigo gordinho? Todo mundo faz, o “cara do CQC” faz. Gentili, em 2009, associou negros a macacos, ao fazer piada sobre jogadores de futebol. Sem nenhum pedido de desculpa, apesar da polêmica, o “comediante” seguiu em frente “desafiando” o “coro do consenso”, provocando. Assim como fez com os judeus de Higienópolis. Deixa ele, ele é artista, ele pode.

A MTV também não deve ser tolhida no seu direito de fazer uma simples paródia, um trocadilho com a sua “Casa dos Autistas”. Porque não satirizar quem é portador dessa síndrome, fazê-los passar por imbecis? Tudo “patrulha”, falta de “leveza de espírito”, gente que não tem humor, dizem alguns. Por que ser criterioso com a distribuição pública nas escolas do livro de Lobato? Está certo, ele era racista, mas era coisa do tempo dele, “particularidades históricas”, alegam alguns. É arte. A resposta possível: nem todos no tempo dele divulgavam ideias racistas, Lobato fez uma de muitas outras escolhas possíveis. Vamos distribuir o livro na rede pública, fazer com que cada criança negra se sinta discriminada, associada à história que a professora lê para os amiguinhos. Não, alegam alguns, deve-se aproveitar a ocasião para debater o racismo. Errado. Se o objetivo é discutir racismo, a estratégia menos recomendável é contar uma história infantil que servirá para que piadas sejam feitas na hora do intervalo. A criança negra não precisa e não deve ser exposta a esse tipo infeliz de estratégia pedagógica. Quem quiser ler as Caçadas de Pedrinho que vá até a biblioteca, que compre o livro e leia em casa. Ninguém está censurando a obra. O que não dá para aceitar é o uso do dinheiro público para divulgar uma obra que ajuda a reforçar preconceitos contra negros.

Impossível não concordar com Reinaldo Azevedo (não, esta não é a provocação!). Conviver coletivamente é sim saber respeitar escolhas, é ter a liberdade de, inclusive, defender verdades “estúpidas”. Concordo também que o limite dessa tolerância é não violar o direito do outro. Azevedo, entretanto, esqueceu-se de dizer como se viola o direito do outro. Explicação vaga nas palavras do jornalista, podemos definir que se viola o direito do outro quando se incita a violência, o ódio, quando se prega o extermínio do outro, quando se fere a dignidade, a auto-estima, quando se alega superioridade ou mesmo quando se exclui o diferente em seus direitos de cidadania. Na semana passada, Azevedo alegou que estava ocorrendo “preconceito invertido” contra os moradores de Higienópolis, que estes também tinham direito de se manifestar sobre obras em seu bairro, como cidadãos. Essa história de “preconceito invertido” é, na minha opinião, estratégia oca, fácil de combater, balela da direita, que sempre teve poder decisório sobre tudo, que sempre teve seus interesses acima de todos os demais cidadãos, que já vivencia uma série de privilégios e que não tem o direito de banir uma obra com apenas 3500 assinaturas, prejudicando muitos outros milhares de pessoas que dependem do transporte público.

Sobre o humor, sobre a tal da arte, ela que se sofistique, que aceite os desafios de fazer graça sem impor ao outro a discriminação, a violência das palavras e a incitação ao ódio. Muitos fazem humor de qualidade, sem partir para estereótipos grosseiros. Evitar certos tipos de comentários não tem nada a ver com censura, tem a ver com conquistas importantes das minorias (mulheres, gays, negros) e de movimentos sociais que decidiram não tolerar mais a divulgação explícita de antigos ódios e preconceitos, que reverberam cotidianamente no trabalho, na escola e na mídia. Aquilo que é tachado de “humor” ganha significações muito maiores que só fazer graça.

Ana Flávia C. Ramos

A força das palavras

É digno de extremo pesar reconhecer que o texto inaugural do nosso Tablóide tenha necessariamente que versar sobre os ímpios acontecimentos que se deram mais recentemente em nosso país.

“Aí cai na mão daquele ilustre ministro moreno escuro do supremo e já viu, né?”, disse em plenário certo deputado. Outro desses deputados, a quem acho ainda menos digna a menção, em caso amplamente divulgado pela mídia, associou o relacionamento com uma mulher negra à promiscuidade.

Já havia pensado no tema desse texto desde o primeiro ocorrido. Eu falaria sobre a falácia do “politicamente correto”. De como é simplista a noção de que a Língua pode ser capaz de cercear e reger as relações sociais. De como é inútil substituir-se “viado ou sapatão” por homossexual, “cabeça chata ou amarelo”, por nordestino, “preto ou moreno escuro”, por afro-descendente, etc. E de como não se exclui um conjunto de idéias preconcebidas apenas trocando-lhes, latebrosamente, o vocativo!

Aí veio a confirmação da minha tese. Expressa-se, em rede nacional e em absoluto desprovimento de pudor, uma opinião racista e preconceituosa sem que, imediatamente, se declare voz de prisão ao meliante!

Não entender as opiniões proferidas por esse e por outros delinqüentes como a violência que elas são é o que nutre todo o problema. É mister que se sublinhe a diferença entre uma opinião polêmica e um crime.

É crime contra o ser humano que se pense em superioridade advinda de qualquer característica física, conduta sexual, classe social, gênero ou orientação religiosa.

É crime que se discrimine outro ser humano em qualquer instância, seja ela prática ou ideológica, baseando-se em um conjunto de pensamentos pré-moldados histórica ou culturalmente.

É crime que se atente contra a integridade física E/OU moral de qualquer outro cidadão.

Os passos que devem ser dados para que se alcance plenamente essa percepção são lentos e demasiado largos. De forma nenhuma garantidos pela letra da Lei, e nem perto de serem garantidos pela inserção ingênua de uma nova palavra ou expressão ao vocabulário padrão e pronto, tudo resolvido!

Trata-se de uma árdua caminhada, que exige completa atenção, uma vez que é tão mais difícil vencer o lugar-comum das pré-concepções quanto é mais gratificante. Uma caminhada cuja garantia de sucesso reside apenas no pensamento de que seu fim ainda corre muito longe. Mas, acima de tudo, demanda a completa solidarização com os mais prejudicados ao longo desse caminho, as vítimas cotidianas dessa violência. E exige mais, que lutemos da única maneira efetivamente possível: que nunca nos ocultemos perante a violência e que, por cansaço ou simples desgosto pela humanidade, nos calemos!

Mariana Musa