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(Nova) Luta por direitos sociais no Brasil

Comício pelas Diretas Já, na Praça da Sé, 25 de janeiro de 1984 (Foto: Oswaldo Palermo)

A turba se insurgiu em 2011, e olha que o ano nem acabou. Gosto de pensar que os fatos não são isolados. Nos últimos seis meses, nos levantamos contra o elitismo da classe média texana paulista com a Marcha da Gente Diferenciada em Higienópolis, a da Maconha, a das Vadias, a pela Liberdade. Ainda teve as greves de professores, das Etec´s e Fatec´s paulistas às universidades da Bahia; manifestações coroadas com a maior Parada Gay do mundo, que conglomerou 4 milhões de seres humanos na Avenida Paulista. Em meio a isso, o Supremo Tribunal Federal legalizou a união civil homossexual. Ainda no porvir desse ano, devemos contabilizar as já tradicionais Marcha das Margaridas e o Grito dos Excluídos. Pelo menos.

Se unirmos num argumento apenas esses fatos, vamos concluir que os movimentos sociais brasileiros não se calaram diante dos avanços promovidos por oito anos de um governo que privilegiou o social. A sociedade organizada não deixou de lado a crítica: partiu a praça pública e mostrou onde estão parte das falhas. Para começar, isso já é uma brilhante constatação, pasmemos nós, a de que a ultra-esquerda brasileira está redondamente enganada: governos de esquerda não servem como amortecedores da luta de classes. Pelo contrário, são esses governos que não temem a organização popular e que enfrentam democraticamente um ambiente político hostil de fortes críticas em nome do alargamento dos direitos sociais.

No entanto, os ares de progresso e avanço, ainda que conduzidos por mais de oito anos de governo do Partido dos Trabalhadores, não deveriam se resumir ao que postulam o partido ou o governo. A ministra Carmem Lúcia, ao votar a favor da legalidade da Marcha da Maconha, lembrou (já que insistimos em esquecer) que a praça pública brasileira foi esvaziada debaixo de porrete por muitos anos e que ocupa-la, é a missão de qualquer povo que queira construir a própria república. Pois bem, não surpreende que isso se desdobre num sério enfrentamento com a ala conservadora da sociedade.

A cada conquista progressista, setores conservadores como a Igreja respondem virulentamente seja na imprensa, seja no parlamento (vide o sofrível desabafo da ex-vedete Miriam Rios), seja nas ruas. Ao passo que marcha da maconha seja reconhecida legítima, a liberdade de expressão de quem é contra ela também está garantida. Garantidíssima, aliás. Trata-se do efeito colateral, repito, de um povo que almeja construir a própria república.

Diante desse cenário, não parece ser historicamente viável permitir que o velho costume pouco republicano brasileiro, o de relegar o debate e a disputa por ideias às classes dominantes, se perpetue no país. É hora de entender que presidentes são eleitos em meio à controversas correlações de forças, que nem sempre (ou quase nunca) atendem às reivindicações dos movimentos sociais, e que cabe à eles a transformação da cultura política brasileira, antes mesmo de se exigir que o que nos indigna se torne crime na letra da lei.

Para que realmente se assuma o enfrentamento com o pensamento conservador, não basta gritarmos feito Miriams Rios ou Bolsonaros em blogs ou mesas de bar (ainda que seja nesses espaços que esquerda festiva prefira se congregar), ou ainda de nos ocuparmos com o velho embate “a mídia contra o povo”. É preciso tomar a praça pública, disputar discursos e renovarmos a cultura política do país. É fundamental que se coloquem boas idéias no lugar das estúpidas para que novos projetos e os movimentos sociais não se tornem reféns da política federal. Vai uma república novíssima aí?

Esse post é um pouco uma resposta ao texto da Gisela Geraldi.

Glaucia Fraccaro

República, socialismo e PT – Tabeiros enfrentam debate proposto por Juarez Guimarães

Tabeiros, leitores e simpatizantes enfrentaram numa dessas redes sociais o debate proposto por Juarez Guimarães no artigo “A esquerda e a república” publicado no portal Carta Capital no dia 15 de junho de 2010. A discussão saiu da cabeça da Renatinha, isso explica ela ser a interlocutora dos comentários. O artigo pode ser lido na íntegra aqui.

Cartaz do PT do Pará, 1980. Faz parte da exposição PT 30 ANOS realizada pelo Centro Sérgio Buarque de Holanda em 2010.

 Os comentários e análises seguem aqui:

José Gabriel Labaki Tomaselli

Rezinha, muito bom o texto. No blog, tento o tempo todo argumentar que demonizar a política e os políticos é uma estratégia do poder para o PSDB. Se o Estado não presta, então diminua-o a ponto de poder jogá-lo na privada, como dizia o Reagan. A tucanada não tem nada pra apresentar, a não ser a diminuição do Estado. Como FHC é extremamente rejeitado, o eleitorado brasileiro não aceita a diminuição da máquina pública. Resta então, o ataque moralista udenista anti-corrupção.

O PT no governo nunca buscou o socialismo, embora internamente essa ainda seja a busca para setores do partido. Lembro quando em 2001 lá na Unicamp teve uma série de debates sobre os 140 anos da Comuna de Paris e a principal discussão era essa, o movimento foi socialista ou republicano. Essa briga é velha de guerra. Ser republicano significa aceitar o capitalismo e isso é muito difícil pra esquerda. Quando o Meirelles foi para o BC em 2003, eu juro que decidi romper com o maior de todos. Por alguns minutos, mas que pensei, pensei.

Mas o republicanismo é inclusivo, capitalismo para todos. Por isso a estratégia de desenvolvimento baseado no consumo. E aí sobra ataque dos dois lados, esquerda e direita. A direita por considerar imoral o crédito fácil para pobre comprar geladeira, isso quebra o país. A esquerda por considerar imoral a sociedade consumista. Tanto de um lado quanto de outro, o argumento contra o governo é moralista. E política não pode ser feita à base da moral. Nunca!

 Mariana Musa

me permite um adendozinho, zé? “ser republicano significa aceitar o capitalismo” não é um pouco anacrônico? Afinal, Roma era uma república (cunhou o termo aliás)… [é uma dúvida só… fiquei pensando depois que li vcs!] Um bjão saudoso

José Gabriel Labaki Tomaselli

Tem razão Musa, Roma era uma república, mas não é anacronismo não. Com a Idade Média o conceito de república foi abandonado por uma sociedade de privilégios. A ideia de república só foi retomado com o fim do Antigo Regime (Iluminismo, Revolução Americana, Francesa e Industrial). Após o surgimento do socialismo, ser republicano significava aceitar o capitalismo, pensando nos ideais de igualdade à la Rousseau, não na igualdade marxista ou anarquista. Foi nesse sentido que falei em república, capitalismo com inclusão de todos no capitalismo. Foi isso que o lulopetismo buscou, atingindo resultados expressivos. Discussão longa e prazerosa que merece uma mesa de bar, acha não?

Mariana Musa

acho demais!!! vamos marcar mesmo? Entendi o seu ponto agora, a construção moderna do ideário de república, a partir do advento do socialismo, está ligada ao capitalismo… perfeito! Pensei no anacronismo simplesmente pq a frase solta não se aplica à antiguidade… (certeza que a Rê vai ficar com invejinha da nossa super cerveja pra discutir esses conceitos no Bar!!! hahaha)

 Glaucia Fraccaro

Chamo Bernardo Cotrim para falar a quantas anda o socialismo petista. Tento pensar historicamente, se o PT conseguir consolidar a republica ja vai ser pra lah de transformador porque o Estado brasileiro esteve muito ocupado (ate 2002) em servir ao PRP paulista.

Quem foi convocado ao debate ou quiser participar, comenta aqui: