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Grammaticus non erubescet soloecismo, si sciens fecit; erubescet, si nesciens

Em uma discussão inflamada na casa de uns amigos na semana passada, ouvi de uma pessoa querida que eu deveria acautelar-me quanto a certas exasperações argumentativas, sob o risco de me tornar tão radical quanto um Bolsonaro. Confesso que a grave denúncia me fez repensar alguns de meus posicionamentos, mas, para o meu alívio intelectual, bem em seguida, tive a venturança de (muito, muito  sem querer!)  esbarrar com esse texto (como o classificarei sem desobedecer ao meu amigo?) absolutamente perolar da estupidez crônica de um completo ignorante do assunto.

Reinaldo Azevedo comete uma série de gravíssimos erros epistemológicos quanto ao escopo  da disciplina que propõe entender o funcionamento da linguagem humana (a.k.a. a linguística e seus respectivos e tão variados ramos). O jornalista argumenta que certo livro indicado pelo MEC (que ensina professores e alunos a pensarem a língua como um organismo vivo, praticado, formulado e reformulado invariavelmente por diversos grupos de pessoas, diferentes em suas culturas, e ativas no processo de criação e colocação da linguagem em funcionamento), uma vez que pertence à nova “onda” intitulada pelo ilustríssimo de “pobrismo”, nada mais faz além de assassinar o dialeto incrível, intocável, imaculado e sacro da “Norma Padrão” (!).

Ai, ai, é difícil definir por onde devo começar. Vamos ver, sugiro algumas perguntas ao homem (in)culto: o que seria a “clara apologia da destruição da norma culta da língua”, caríssimo senhor? Por acaso imaginas que falemos da maneira como se escreve(u)? Ou sugeres que a segunda pessoa deva voltar a ser a pessoa de referência do vocativo, dado que Machado assim convocava? Ou talvez devamos falar em versos, emulando o Pessoa? Quem sabe então não possamos todos nos expressar como um Guimarães, mas como o Riobaldo não como o Manuelzão, é claro! Talvez estejas a argumentar, então, que violamos a Língua Padrão quando escrevemos vc ou tc num bate-papo deselegante do facebook… Mas não foi mesmo um dos Andrade quem advertiu certa vez “Deixa disso camarada. Me dá um cigarro”?

Seu texto, aqui o resumo, segue arrolando desvarios e apenas desvela a falta de conhecimento que possuis acerca de todo e qualquer processo envolvendo os fenômenos da linguagem! Atenho-me a um único exemplo descabido, ao argumentar que não poderia haver no Português uma regra de flexão da oração que não funcionasse em todos os seus termos , dizes: “Português não é inglês, por exemplo. Na nossa língua, os adjetivos têm flexão de gênero e número, e os verbos, de número. Quem dominar com mais eficiência esse instrumental terá vantagens competitivas vida afora. O que esses mestres estão fazendo, sob o pretexto de respeitar o universo do “educando”, como eles dizem, é contribuir para mantê-lo na ignorância.”. Ora, e em momento nenhum paraste para pensar por que não? Por que as línguas e as variantes linguísticas dessa mesma língua também não poderiam, assim como uma língua o é em relação a uma outra, serem diferentes??? A resistência a esse tipo de entendimento do funcionamento linguístico, no entanto, é facilmente explicável politicamente: é necessário que a elite acredite que tudo o que é consoante com a sua moral, em sentido estrito de hábito e costume, é “melhor”! Daí a irrevogabilidade de se preterir grande parte dos estudos desenvolvidos pela Linguística, bem como pelas Ciências Sociais, Filosofia, História, etc.

Senhor Azevedo, a discussão que o senhor tenta promover, além de simplista, é absurda, imbuída de toda a burrice arrogante, tão comum a maioria dos textos produzidos pela revista a que o senhor se liga. Nem pretendo começar a argumentar que entendeste perfeitamente a discussão que promove o material e de que maneira reverteste completamente a situação para que a crítica suprisse as tuas aspirações oposicionistas. A língua, ainda que os conservadores da “moral” e dos “bons costumes” venham a morrer de infelicidade com essa nova informação, não pode (e nunca pôde) ser mantida estável pela elite dominante, absolutamente crente da “superioridade” do dialeto que pratica (e, nesse caso, ignorante, inclusive, das vicissitudes e idiossincrasias fundantes de duas modalidades tão distintas quanto a oralidade e a escrita), mas creio que isso o saibas e muito bem!

Quanto aos que, de fato, não o sabem, lamento por vós! E traduzo o trecho que me serviu como título, retirado de uma das epístolas de um grande filósofo romano, de quem talvez já tenhais ouvido falar. Sêneca ensina “o gramático não enrubescerá com um solecismo, se o cometeu sabendo, mas enrubescerá, se o cometeu ignorando”. Oxalá, um pouquinho mais instruídos, deixeis de produzir asneiras como as proferidas nesses textinhos vis. No mais, só tenho isso a dizer: meu amigo tinha toda a razão, argumentações exasperadas são um perigo… para os ignorantes que insistem em se manter no espectro seguro, porém infértil da sua ignorância.

Mariana Musa